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FLÁVIO TAVARES: “SÓ OS QUE NÃO SABEM O QUE FOI UMA DITADURA DEFENDEM A DITADURA”

Jornalista, escritor e ex-preso político relembra a resistência ao regime militar, faz uma autocrítica sobre a luta armada e recupera as marcas da tortura e do exílio ao receber o Prêmio Rubens Paiva – Memória, Verdade e Justiça.




“Eu não sei por que estou sendo homenageado. Eu apenas cumpri o meu dever.” Foi assim que Flávio Tavares, aos 92 anos, começou sua fala ao receber o Prêmio Rubens Paiva – Memória, Verdade e Justiça, na noite de 3 de setembro, em Porto Alegre. Jornalista, escritor, ex-preso político e participante da resistência à ditadura, Tavares utilizou boa parte de seu discurso para recordar experiências que atravessaram mais de seis décadas de sua vida. [1]


A homenagem recuperou uma trajetória que começou muito antes do golpe de 1964. Aos 20 anos, Tavares presidiu a União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Sul. Já jornalista, acompanhou a Conferência da Organização dos Estados Americanos, em Punta del Este, no Uruguai, em 1961, e participou, naquele mesmo ano, da cobertura da Campanha da Legalidade, no Palácio Piratini, ao lado do então governador Leonel Brizola. [1][2]


Quando os militares derrubaram o presidente João Goulart, em 1964, Tavares vivia em Brasília. Foi preso e posteriormente participou da resistência armada ao regime. Ao recordar aquela decisão durante a cerimônia, não evitou a autocrítica.


“Nós nos equivocamos, porque não tivemos o apoio popular, que nos faltou pela falta da organização nossa, não do povo”, afirmou. “O erro foi nosso, não do povo brasileiro.” [1]


PRISÃO, TORTURA E EXÍLIO

Flávio Tavares foi preso três vezes entre 1964 e 1969. Na última delas, sofreu torturas. Em setembro de 1969, foi um dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos Charles Burke Elbrick, sequestrado por organizações que combatiam a ditadura. Banido do Brasil, seguiu para o México. [2][3]


Ao falar sobre aquele período na cerimônia, Tavares decidiu não poupar as palavras. Relatou ter recebido choques elétricos em diferentes partes do corpo durante os interrogatórios e chamou a experiência de “inenarrável”. [1]


O exílio não significaria o fim da perseguição. Depois de viver no México, tornou-se correspondente do jornal mexicano Excelsior na Argentina. Em julho de 1977, viajou ao Uruguai em uma missão relacionada à prisão de um colega do jornal. Foi sequestrado por agentes da repressão uruguaia e permaneceu 195 dias preso.


Uma campanha internacional pressionou por sua libertação. Depois de deixar o Uruguai, exilou-se em Portugal e retornou ao Brasil em 1979, com a anistia. [3]


“NAQUELE MOMENTO EU MORRI”

Foi sobre o período no Uruguai que Tavares apresentou um dos relatos mais duros da noite. Contou que foi retirado do aeroporto quando se preparava para embarcar e levado pelos agentes da repressão. Durante parte do período em que permaneceu desaparecido, ficou algemado e vendado. [1][3]


Três vezes foi submetido a fuzilamentos simulados. Tavares contou que hoje sabe que as execuções eram falsas simplesmente porque sobreviveu. Durante uma delas, porém, acreditou que estava caminhando para a morte. “Naquele momento eu morri.” [1]


As experiências nos cárceres brasileiros e uruguaios seriam reconstruídas anos mais tarde em Memórias do Esquecimento, publicado originalmente em 1999. O livro relata a prisão, a tortura, a resistência e o exílio e recebeu o Prêmio Jabuti de 2000, na categoria Reportagem. [4]


A tortura descrita no livro reapareceu em sua fala na Assembleia Legislativa. Mais de meio século depois dos acontecimentos, Tavares voltou a narrar os choques elétricos e a violência sofrida nos interrogatórios, desta vez diante de antigos presos e perseguidos políticos, familiares e representantes de diferentes gerações reunidos para a premiação. [1]


RUBENS PAIVA E A “NOTÍCIA ESCONDIDA”

O nome do prêmio tinha para Flávio Tavares um significado particular. Ele conheceu Rubens Paiva antes da ditadura e, posteriormente, teve no então deputado federal uma importante fonte jornalística quando trabalhava como comentarista político do jornal Última Hora, em Brasília. [1]


Na cerimônia, Tavares explicou como funcionava essa relação. O jornalista, disse, observa os acontecimentos e deles extrai notícias, mas existe também aquilo que chamou de “a outra notícia escondida”, acessível a quem está dentro dos espaços de decisão. Como deputado federal, Rubens Paiva tinha acesso ao governo João Goulart. “Ele era o meu principal informante”, recordou. [1]


Depois do golpe, Rubens Paiva teve o mandato cassado. Em janeiro de 1971, foi preso por agentes da repressão no Rio de Janeiro, torturado e morto. Seu corpo nunca foi entregue à família. Tavares fez questão de recordar esse fato ao receber o prêmio que leva o nome do antigo amigo e fonte: “Nem o corpo foi entregue. Até hoje, a família do Rubens Paiva não recebeu o corpo.” [1]


O GOLPE REVISITADO PELOS DOCUMENTOS

Décadas depois de ter acompanhado os acontecimentos de 1964, Tavares participou com o filho, o cineasta Camilo Tavares, da produção de O Dia que Durou 21 Anos. Dirigido por Camilo, o documentário tem roteiro e entrevistas dos dois e narração de Flávio. [5]


A produção utiliza telegramas, gravações de conversas telefônicas, imagens de arquivo e documentos norte-americanos para investigar a participação do governo dos Estados Unidos na articulação que levou à derrubada de João Goulart. [5]


A pesquisa realizada por Camilo em arquivos dos Estados Unidos revelou inclusive aspectos que Flávio desconhecia, apesar de ter acompanhado diretamente o golpe. Em entrevista à TV Brasil, ele afirmou que somente a partir daquela documentação conseguiu compreender a “mecânica do golpe”. [6]


O filme acrescentou documentos produzidos nos centros de poder a uma trajetória que Tavares já havia reconstruído pela experiência pessoal em Memórias do Esquecimento: o jornalista que acompanhou a crise política, participou da resistência, foi preso e torturado passou também a investigar os registros produzidos por um dos governos estrangeiros envolvidos naqueles acontecimentos.


“EU APENAS CUMPRI O MEU DEVER”

No encerramento de sua fala, Flávio Tavares voltou à ditadura. Disse que ainda há políticos que defendem o regime e mencionou o Ato Institucional nº 5, decretado em dezembro de 1968 e convertido em um dos principais instrumentos de aprofundamento da repressão política no país. [1]


Foi então que pronunciou a frase que sintetizou sua intervenção na cerimônia:

“Só os que não sabem o que foi uma ditadura, ou o que é uma ditadura, defendem a ditadura.” [1]


Aos 92 anos, Tavares não apresentou sua trajetória como ato excepcional. Depois de falar sobre resistência, erros políticos, prisão, tortura, exílio e sobre Rubens Paiva, encerrou como havia começado. Agradeceu a homenagem e repetiu que havia feito apenas aquilo que considerava sua obrigação: “Cumpri apenas o meu dever de cidadão e de membro desse grande país que é o Brasil.” [1]

FOTOS: JONAS TIAGO SILVEIRA | ESQUINA DEMOCRÁTICA


FONTES PARA CHECAGEM

[1] PRÊMIO RUBENS PAIVA – MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA. Cerimônia realizada em 3 de setembro de 2026, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Transcrição da apresentação e do discurso de Flávio Tavares.

O que comprova: declarações de Tavares sobre sua participação na resistência; autocrítica sobre a luta armada; descrição das torturas; relato do sequestro e dos fuzilamentos simulados no Uruguai; relação com Rubens Paiva; referências ao AI-5 e à defesa contemporânea da ditadura; declarações de abertura e encerramento da homenagem. Fonte primária da reportagem.


[2] INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS (IHU). “Campanha da Legalidade. O depoimento de um jornalista. Entrevista especial com Flávio Tavares”.

O que comprova: participação de Tavares na Campanha da Legalidade, trajetória jornalística, prisão após o golpe de 1964 e participação posterior na resistência à ditadura.


[3] MEMÓRIAS DA DITADURA. “Flávio Tavares — Biografias de Resistência”.

O que comprova: prisões durante a ditadura; participação na luta armada; libertação com outros 14 presos políticos em 1969; exílio no México; atuação jornalística na Argentina; sequestro no Uruguai em 1977; prisão, tortura, campanha por sua libertação, exílio em Portugal e retorno ao Brasil em 1979.


[4] L&PM EDITORES. “Memórias do Esquecimento”, de Flávio Tavares.

O que comprova: conteúdo e caráter testemunhal da obra, participação de Tavares na resistência armada, prisão, tortura e libertação no episódio envolvendo Charles Burke Elbrick. A obra recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Reportagem.


[5] TV BRASIL. “O Dia que Durou 21 Anos”.

O que comprova: direção de Camilo Tavares; roteiro e entrevistas de Flávio e Camilo; narração de Flávio; utilização de documentos, telegramas, gravações e imagens de arquivo para investigar a participação norte-americana no golpe de 1964.


[6] TV BRASIL — CONEXÃO ROBERTO D’ÁVILA. “Flávio Tavares e Camilo Tavares”. 27 de janeiro de 2014.

O que comprova: pesquisa de Camilo nos arquivos norte-americanos e declaração de Flávio de que somente a partir desse trabalho conseguiu compreender aspectos da mecânica do golpe de 1964.


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