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FILICÍDIO EM ALTA NO BRASIL

por Nora Prado (*)

Nesta semana assistimos incrédulos e em estado de choque ao vídeo no qual uma mãe pede para a filhinha, sentada no banco de trás na cadeirinha dentro do carro, que se despeça do seu pai porque ambas vão se matar. A criança responde com voz chorosa que não quer, mas a mãe insiste que ela se despeça do seu pai para sempre. Depois disso, numa autoestrada, a mulher lança o seu carro contra uma carreta pondo em risco a própria vida, a da filha e de outros motoristas.

O grave acidente deixou a mulher ferida em estado grave presa entre as ferragens, mas poupou a vida da criança que saiu ilesa. Outros veículos e motoristas foram envolvidos neste acidente premeditado que aconteceu no interior gaúcho, na BR-386, na cidade de Lajeado. A mãe, inconformada com a separação do marido, há mais de um ano, estava enciumada como o novo relacionamento do pai da menina e pretendia puni-lo com a morte de ambas.


Esta espécie de Medéia moderna comoveu o país que recém se recupera do recente e bárbaro crime de tortura e assassinato do menino Henry e da menina morta pela mãe e a sua companheira com crueldade. O filicídio choca a sociedade pois trata de um tabu tão inimaginável quanto grotesco quando o pai ou mãe tem a coragem de tirar a vida de quem foi por eles gerado.


Num país onde a banalização da morte em chacinas sistemáticas nas favelas e pelo descaso e omissão do governo atingiu mais de 442.000 mortes pela covid, não é de estranhar que a vida humana esteja valendo cada dia menos. Os altos números de feminicídio e violência doméstica corroboram o grau de violência explícita que ocorre dentro do núcleo familiar. Além de caso de polícia é um caso de doença social que se estende por todas as classes sem distinção.


Mas o que faz com que os progenitores, que deveriam zelar e proteger a vida de seus filhos, se voltem contra os mesmos a ponto de matá-los? São perguntas que a ciência e a psicologia tentam entender sem, contudo, encontrar respostas satisfatórias para tamanha perversidade. O natural é que o ser humano proteja a própria prole, sangue do seu sangue, e que por eles sacrifique a sua vida. Esse seria o padrão aceitável e esperado, demonstrando o amor incondicional materno e paterno. Quando esse limite é rompido através de abusos, incestos, agressões, tortura e morte significa que a ética parental em relação ao filho foi transgredida sem possibilidade de refazer os elos de afetividade e confiança. Os danos, caso as crianças sobrevivam, são na maior parte dos casos irreversíveis com grande trauma e sofrimento na adolescência e a vida adulta comprometendo as relações futuras do indivíduo.


Os recentes casos de filicídio envolvendo Isabela Nardoni e Bernardo Boldrini são emblemáticos da natureza humana corrompida pela doença emocional grave geralmente presente nestes casos. O psiquiatra Phillip Resnick identificou cinco circunstâncias em que ocorre o filicídio.


Altruísta: é a circunstância mais frequente em que a mãe, gravemente deprimida, planeja suicidar-se e acredita que os seus filhos ficarão mais protegidos “com” ela.


Psicótico: situação em que o pai ou a mãe, em estado delirante e paranoide, acredita que algo persegue os filhos e os mata com o intuito de protegê-los. Outra situação, enquadrada nesta circunstância, é o delírio paranoide de que a criança agride e ataca o progenitor, fazendo com que o progenitor mate em autodefesa.


Acidental: casos em que a punição física é de extrema violência e descontrole, levando o filho à morte.


Filho indesejado: situações em que, por vários motivos, o filho é indesejado ou sentido como um obstáculo.


Vingança conjugal/retaliação: casos em que um dos pais mata o filho para magoar o parceiro, habitualmente depois de uma situação de infidelidade.


Acontece também no âmbito da disputa das responsabilidades parentais, em que um dos pais, não aceitando a guarda atribuída ao outro progenitor, tira a vida ao filho para que o outro não ganhe a batalha. É o caso de Medeia e de muitos outros encontrados nas páginas policiais. Como a fonte de angústia nos filicídios de retaliação é o parceiro sexual do perpetrador, estes assassinatos são denominados: "Complexo de Medeia".


De todo modo, ainda que se consiga mapear as circunstâncias na qual o assassino está envolvido, para tentar compreender o incompreensível, não há nada que possa justificar tamanha atrocidade.


É um crime tão brutal que mesmo os detentos na cadeia não aceitam o criminoso e, nestes casos, o perseguem e colocam em risco a sua vida na prisão. Razão pela qual, mesmo na cadeia, os filicidas são colocados fora do alcance dos seus pares.


Triste sina para a mãe que sobreviveu ao acidente, mas não escapará do processo de julgamento e condenação sumária. Trágica vida, daqui para frente, para a filha que crescerá dividida, para sempre, entre o sentimento ambíguo de revolta e alívio, amor e ódio pela própria mãe.


Porto Alegre, 19 de maio de 2021.


* Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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