Encontros e despedidas, por Paulo Gaiger *
- Alexandre Costa

- 7 de set. de 2024
- 2 min de leitura

Lá nos inícios de 2018, um casal de namorados fazia uma corrida na praia do Cassino quando topou com uma garrafa encardida, cheia de craca em sua volta e, surpresa, com uma mensagem dentro. Abriram-na com cuidado e se depararam com uma carta escrita em alemão. A levaram para casa e foram à internet para tentar uma tradução possível e para buscar o autor no facebook. A tecnologia é formidável. A carta foi escrita por um navegador alemão que quando um pouco mais jovem, há alguns anos, em uma travessia pelo oceano, havia jogado a garrafa com uma mensagem de amor ao grande amor de sua vida naquela época. É quase um filme da Disney, daqueles de encher os olhos d’água. O navegador apaixonado, agora com rugas no rosto, tem outro amor e prepara-se para outra travessia. Navegar é preciso, viver não é preciso, disse o general Pompeu em 70 a.C., para motivar seus marinheiros e soldados. E possivelmente o disse em um bom latim: “Navigare necesse, vivere non est necesse”. Dois milênios depois, Fernando Pessoa resignificou a sentença e Caetano Veloso a cantou em Argonautas. Nosso navegador alemão, talvez desconhecesse Pompeu, Pessoa e Caetano. Mas enquanto cruzava as águas do Atlântico, sonhava com a mulher que amava e desejava. O que o impulsionava em sua viagem eram as sístoles e diástoles de seu coração arrebatado. Enquanto a bússola e outros aparatos lhe davam segurança na navegação, seu coração vivia a incerteza do dia seguinte. A memória com as velas ao alto, desejando um porto de reencontro do calor dos abraços, dos beijos molhados e dos olhares para sempre. Uma garrafa jogada ao mar guarda e ao mesmo tempo revela mais do que a viagem de um barco singrando por sobre os abismos oceânicos, as tempestades da solidão de um amor distante, a vida sem respostas. É quando o longe nos aproxima. Viver não é preciso. Mas pode ser que o navegar seja o ato sublime de criação e arte, sempre inusitado, imprevisível, subversivo, como uma necessidade humana imprescindível de sobrevivência e evolução. Aquilo que dá sentido a nossa existência e a nossa própria vida. Não sendo assim, negando-se a navegar, fugindo das travessias, viver não é preciso. Que sorte a do casal que corria pelas areias do Cassino, traçando um trajeto e uma quilometragem precisos. Mas foi surpreendido por uma garrafa de um navegador que por correntes e ondas foi levada a praia por onde deixavam as marcas dos tênis que logo se apagariam. No meio do caminho havia uma garrafa com uma mensagem de amor. O casal de namorados nunca se esquecerá deste acontecimento.
(*) Crônica publicada no livro “Não vá ao supermercado nos domingos” – ed.Traços&Capturas – 2019.




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