CAPÍTULO 3 - CASO ARACELI: UM CRIME QUE SE TORNOU SÍMBOLO DA IMPUNIDADE DURANTE A DITADURA
- Alexandre Costa

- há 2 dias
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por ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA

O assassinato da menina de oito anos expôs a influência política e econômica de grupos poderosos, gerou denúncias de interferência nas investigações e permanece, mais de cinco décadas depois, como uma das páginas mais dolorosas da história brasileira.
O assassinato de Araceli Crespo, em maio de 1973, não foi um crime de perseguição política nem ocorreu nos centros clandestinos de repressão da ditadura militar.
Entretanto, tornou-se um dos episódios mais emblemáticos da impunidade vivida durante aquele período histórico.
Enquanto o regime mobilizava seu aparato repressivo para perseguir opositores políticos, um dos crimes mais brutais já registrados contra uma criança brasileira transformava-se em um caso marcado por denúncias de interferência, mortes de testemunhas, investigações interrompidas e sucessivas decisões judiciais que impediram a consolidação das condenações inicialmente impostas aos principais acusados. [1][2][3]
Mais de cinquenta anos depois, o assassinato continua sem uma resposta definitiva da Justiça.
O DESAPARECIMENTO
Araceli Cabrera Crespo tinha apenas oito anos de idade.
Filha do eletricista espanhol Gabriel Crespo e da boliviana Lola Sánchez, vivia com a família no município da Serra, na Região Metropolitana de Vitória, em uma residência simples construída com muito esforço pelos pais. [1]
Na tarde de 18 de maio de 1973, a menina saiu do Colégio São Pedro e não retornou para casa.
Inicialmente, os familiares imaginaram tratar-se de um sequestro.
Seis dias depois, porém, a busca terminou da forma mais cruel possível.
O corpo de Araceli foi encontrado em um terreno baldio.
Segundo o laudo pericial, a menina havia sido submetida durante dias a violência física e sexual, além de receber doses de barbitúricos. A perícia concluiu que a causa da morte foi intoxicação exógena associada à asfixia mecânica por compressão. [1][2]
A brutalidade das lesões chocou o país.
A INVESTIGAÇÃO
A investigação conduzida pela Polícia Civil identificou três principais suspeitos: Dante de Barros Michelini ("Dantinho"), Dante de Brito Michelini e Paulo Constanteen Helal. [1][2]
De acordo com os autos do inquérito e reportagens publicadas na época, testemunhas relataram que os investigados mantinham relações próximas com famílias influentes do Espírito Santo e frequentavam ambientes onde adolescentes eram assediadas. [2][3]
Esses elementos passaram a integrar a investigação policial.
Ao longo do processo, entretanto, surgiram sucessivas denúncias de intimidação de testemunhas, desaparecimento de provas e dificuldades para o avanço das investigações.
MORTES QUE NUNCA DEIXARAM DE LEVANTAR SUSPEITAS
Um dos aspectos mais inquietantes do Caso Araceli foi o elevado número de mortes registradas durante a investigação.
Entre elas estava o sargento José Homero Dias, que participava das apurações e foi morto antes da conclusão do trabalho policial.
Também morreram testemunhas consideradas importantes para o esclarecimento dos fatos, como Fortunato Piccin e José Paulo dos Santos. [1][2]
A relação entre essas mortes e o assassinato de Araceli permanece objeto de debates históricos, investigações jornalísticas e estudos sobre o caso. Não houve decisão judicial estabelecendo vínculo criminal entre todos esses episódios. [1][2]
JULGAMENTOS, ANULAÇÕES E ABSOLVIÇÕES
Em 1980, dois dos acusados chegaram a ser condenados pelo juiz Hilton Silly.
Posteriormente, contudo, essa decisão foi anulada.
Em novo julgamento, os réus foram absolvidos por insuficiência de provas, encerrando a possibilidade de responsabilização penal definitiva naquele processo. [2]
Anos depois, uma Comissão Parlamentar de Inquérito instalada na Assembleia Legislativa do Espírito Santo concluiu que houve graves falhas na condução das investigações e apontou indícios de omissão de autoridades públicas. As conclusões da CPI, entretanto, não resultaram na reabertura do caso nem em novas condenações. [3]
JOSÉ LOUZEIRO E A CENSURA
O jornalista José Louzeiro decidiu investigar o caso de forma independente.
O resultado foi o livro Araceli, Meu Amor, baseado em documentos, entrevistas e informações reunidas durante sua apuração.
Segundo registros históricos, a obra enfrentou censura durante a ditadura militar, e o jornalista relatou ter sofrido represálias em razão do trabalho desenvolvido. [4]
O episódio tornou-se um dos exemplos da dificuldade enfrentada por profissionais da imprensa que buscavam investigar temas considerados sensíveis durante o regime.
UM SÍMBOLO NACIONAL
Embora o processo criminal tenha terminado sem responsabilização definitiva dos acusados, o assassinato de Araceli produziu um legado importante.
A data de 18 de maio, dia do desaparecimento da menina, foi escolhida para marcar o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, instituído para fortalecer políticas públicas de prevenção, proteção e denúncia. [5]
Mais de cinquenta anos depois, o Caso Araceli continua sendo lembrado não apenas pela violência extrema do crime, mas também pelas dificuldades enfrentadas pelas instituições brasileiras para assegurar uma investigação capaz de produzir uma resposta definitiva à sociedade.
UMA HISTÓRIA QUE UNE OS TRÊS CAPÍTULOS
A condenação do ex-sargento Antônio Waneir Pinheiro de Lima representa um avanço importante na responsabilização por crimes praticados durante a ditadura militar.
O Caso Araceli, por sua vez, recorda que a impunidade daquele período não atingiu apenas vítimas da repressão política. Em diferentes contextos, a combinação entre autoritarismo, concentração de poder, fragilidade institucional e dificuldades de investigação produziu episódios que permanecem sem resposta satisfatória até hoje.
A democracia brasileira consolidou importantes mecanismos de proteção aos direitos humanos desde 1985. Ainda assim, a busca por memória, verdade e justiça continua sendo um processo em construção.






