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COMISSÃO DA VERDADE DA UFRGS: UMA DÍVIDA COM A MEMÓRIA QUE LEVOU MAIS DE UMA DÉCADA PARA SER ENFRENTADA

Criada após anos de reivindicações e pressão do Ministério Público Federal, Comissão Enrique Serra Padrós já gravou 60 testemunhos e prepara relatório sobre as violações de direitos humanos ocorridas na Universidade durante a ditadura.



Quando a Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós recebeu o Prêmio Rubens Paiva – Memória, Verdade e Justiça, seu relatório final ainda não estava pronto. A investigação sobre as violações de direitos humanos ocorridas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) entre 1964 e 1988 continua em andamento e deverá ser concluída em dezembro. Ainda assim, para sua coordenadora-geral, professora Roberta Baggio, havia uma razão para a homenagem antecipada: o próprio surgimento da Comissão representa o enfrentamento de uma dívida que a Universidade levou anos para assumir.

“Essa comissão deveria ter existido há mais de 10 anos.” [1]


Instalada oficialmente em 10 de dezembro de 2024, a Comissão tem a missão de reunir, organizar e disponibilizar registros sobre as violações de direitos humanos ocorridas na UFRGS entre 1964 e 1988. O nome homenageia Enrique Serra Padrós, professor do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), cuja trajetória acadêmica foi dedicada ao estudo dos regimes autoritários na América Latina e à defesa da memória, verdade, justiça e reparação. [2]


A escolha carrega também uma história que Roberta recuperou durante a cerimônia. Segundo ela, Padrós esteve entre aqueles que lutaram dentro da Universidade pela criação da Comissão, ao lado da professora Lorena Holzmann, hoje vice-coordenadora, e de outro professor mencionado em sua fala. A iniciativa, porém, não conseguiu avançar naquele momento. [1]


UMA COMISSÃO QUE DEMOROU A EXISTIR

As condições para a instalação só surgiriam anos depois. Em 2019, o Ministério Público Federal instaurou procedimento para apurar, entre outras questões relacionadas à memória da ditadura, justamente a inexistência de uma Comissão da Verdade na UFRGS. Posteriormente, o MPF expediu recomendação à Universidade. A documentação do órgão registra que a constituição da Comissão Enrique Serra Padrós representou o cumprimento dessa recomendação. [3]


Durante o Prêmio Rubens Paiva, Roberta reconheceu explicitamente essa participação.

“As condições políticas de instauração só vieram em 2024, com a pressão do Ministério Público Federal [...] e com a assunção na Reitoria da professora Márcia e do professor Pedro, que tiveram então a coragem de instaurar essa comissão.” [1]


A Comissão foi instituída durante a gestão da reitora Márcia Barbosa e do vice-reitor Pedro Costa, em cerimônia realizada no Salão de Atos da Universidade no Dia Internacional dos Direitos Humanos. [2]


A investigação alcança um período em que a repressão também atravessou os portões da Universidade. Entre 1964 e 1969, a UFRGS sofreu dois processos de expurgo que atingiram docentes, estudantes e técnico-administrativos, com expulsões e aposentadorias compulsórias. [4]


AS VOZES DE QUEM VIVEU A REPRESSÃO

Parte importante do trabalho está sendo construída a partir dos testemunhos.

Em julho de 2025, a Comissão lançou uma campanha pública para localizar documentos, fotografias, cartas e outros registros e para identificar pessoas dispostas a compartilhar suas memórias sobre a repressão política dentro da Universidade. [5]


Desde então, realizou duas audiências públicas. A primeira, em 28 de novembro de 2025, tratou da repressão aos estudantes e ouviu Dilza de Santi, Henrique Finco e João Ernesto Maraschin. A segunda, em 28 de maio de 2026, voltou-se aos trabalhadores técnico-administrativos e recebeu os testemunhos de Alcides José de Almeida Neto, Décio Aloísio Schauren e Jussara Rosa Cony. [6][7]


Mas as audiências representam apenas uma parcela das histórias recolhidas. No Prêmio Rubens Paiva, Roberta revelou uma dimensão até então pouco visível do trabalho:

“Nós conseguimos gravar 60 testemunhas. Isso não é pouca coisa.” [1] Para ela, o número somente foi possível porque pessoas perseguidas politicamente dentro da UFRGS aceitaram reconstruir suas experiências e colocá-las à disposição da investigação.


“Esse trabalho é para vocês e é a nossa grande contribuição para as novas gerações.” [1]


ONZE MULHERES E UM TRABALHO DE RECONSTRUÇÃO

Roberta também chamou atenção para quem está realizando a investigação. Em seu discurso, afirmou que a Comissão reúne 11 mulheres, entre professoras, técnicas e estudantes, acompanhadas por bolsistas e estudantes voluntários. [1] Ela descreveu um trabalho “extremamente cansativo” e “extremamente complexo”, realizado em uma universidade que enfrenta dificuldades estruturais e orçamentárias.


A expectativa é que o relatório sistematize documentos, depoimentos e demais informações reunidas ao longo dos dois anos de investigação e apresente recomendações à própria Universidade. Para Roberta, entretanto, produzir o documento não basta.


O RELATÓRIO NÃO É O MAIOR DESAFIO

A Comissão poderia solicitar a prorrogação de seus trabalhos. Decidiu não fazê-lo.

Roberta explicou que a escolha foi estratégica: a mesma gestão universitária que teve a responsabilidade política de instituir a Comissão deverá receber suas conclusões e, principalmente, enfrentar suas recomendações. “Nós entendemos que essa gestão que ali está e que instaurou a comissão é ela que deve e tem a responsabilidade de implementar as recomendações que nós faremos.” [1]


A entrega está prevista para 10 de dezembro de 2026, dois anos depois da instalação da Comissão. [1] Mas será o que acontecer depois dessa data que determinará, na avaliação da coordenadora, o alcance do trabalho. “O grande desafio não é a entrega do relatório em si, mas é conseguir constituir dentro da universidade, enraizar dentro da universidade, um espaço permanente de reflexão sobre o que aconteceu.” [1]


A frase desloca a discussão do relatório para a instituição. Investigar o passado é uma etapa; incorporar essa história à memória permanente da Universidade é outra.


“PESSOAS COM VISÃO E CORAGEM”

A reitora Márcia Barbosa levou outra dimensão à homenagem. Para ela, o trabalho da Comissão não se limita ao resgate histórico ou ao pedido de perdão às pessoas atingidas pela repressão. Ao olhar para aqueles que resistiram à ditadura, destacou duas características: capacidade de compreender o autoritarismo quando ele estava se estabelecendo e coragem para agir diante dele.


Márcia comparou essas pessoas às estrelas utilizadas para orientar uma travessia pelos oceanos: referências que permitem encontrar uma direção quando o caminho não está claramente marcado. [1] E relacionou essa memória aos riscos que identifica no presente, mencionando tentativas de “novos redesenhos de ditadura e de outras formas de violência”. [1]


O trabalho da Comissão Enrique Serra Padrós chega, assim, à etapa decisiva. Depois de uma década em que sua criação foi reivindicada, dois anos de investigação, duas audiências públicas e dezenas de testemunhos gravados, a UFRGS deverá receber em dezembro as conclusões sobre uma parte de sua própria história. O relatório poderá encerrar o mandato da Comissão. A questão colocada por Roberta Baggio é outra: se a memória que ele recupera permanecerá dentro da Universidade depois que a Comissão terminar seu trabalho.


FONTES PARA CHECAGEM

[1] PRÊMIO RUBENS PAIVA – MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA. Cerimônia realizada em 3 de setembro de 2026, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Falas de Roberta Baggio e Márcia Barbosa.

O que comprova: declarações sobre a demora na criação da Comissão; atuação de Enrique Serra Padrós e Lorena Holzmann; pressão do MPF; decisão da Reitoria; prazo de dois anos; opção por não prorrogá-lo; 60 testemunhos gravados; composição mencionada como 11 mulheres; previsão de entrega em 10 de dezembro; necessidade de implementação das recomendações e criação de um espaço permanente de memória; declarações de Márcia Barbosa.


[2] ADUFRGS-SINDICAL. “ADUFRGS-Sindical participa de instituição da Comissão da Memória e da Verdade da UFRGS”. 10 de dezembro de 2024.

O que comprova: instalação em 10 de dezembro de 2024; finalidade da Comissão; coordenação de Roberta Baggio; trajetória de Enrique Serra Padrós e composição inicial.


[3] MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Procedimento nº 1.29.000.003913/2019-22 e decisão de 2026.

O que comprova: atuação do MPF diante da ausência de Comissão da Verdade na UFRGS; recomendação expedida à Universidade; posterior comprovação da constituição da Comissão Enrique Serra Padrós e acompanhamento de seus trabalhos.


[4] ANDES/UFRGS. “A Comissão de Memória e Verdade da UFRGS recupera e compartilha a história da ditadura nesta universidade”. 29 de maio de 2026.

O que comprova: instalação em 2024; expurgos ocorridos na UFRGS entre 1964 e 1969; finalidade da Comissão; realização e datas das duas audiências públicas.


[5] ASSUFRGS. “Comissão da Memória e da Verdade da UFRGS lança campanha de arrecadação de registros sobre o período de repressão”. 16 de julho de 2025.

O que comprova: campanha para obtenção de documentos, fotografias, cartas e testemunhos sobre a repressão na Universidade.


[6] ASSUFRGS. “Comissão da Memória e da Verdade da UFRGS realiza primeira audiência pública sobre perseguições na ditadura”. 26 de novembro de 2025.


O que comprova: primeira audiência em 28 de novembro de 2025; tema e nomes dos ex-estudantes ouvidos.


[7] ASSUFRGS. “Segunda audiência da Comissão da Memória e da Verdade da UFRGS traz TAEs como tema”. 3 de junho de 2026.

O que comprova: segunda audiência realizada em 28 de maio de 2026; foco nos técnico-administrativos e identificação das testemunhas.


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