CEUACA FECHADA: DEVE SER DOADA À UFRGS, POR BRUNO MENDONÇA COSTA*
- Alexandre Costa

- há 1 dia
- 3 min de leitura

Em minha gestão como presidente da Casa do Estudante (Rua Riachuelo, 1355, em Porto Alegre), recebíamos, todos os domingos, o casal Almeida, os doadores do prédio no qual se instalou a nossa entidade, em acordo com o Governo do Estado, num acerto condicionado à destinação do imóvel como abrigo para estudantes universitários pobres.
Em certo domingo, o casal não compareceu. Fomos depois informados de que ambos estavam acamados, doentes, e que o médico recomendara cuidados especiais. A ausência foi comunicada a todos os moradores e daí germinou a ideia de que deveríamos fazer uma homenagem ao casal que tanto benefício havia trazido aos estudantes pobres da Universidade.
Foi convocada uma Assembleia Geral Extraordinária para discutir o assunto, e foi apresentada a ideia de registrar nossa entidade com o nome de CASA DO ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO APARÍCIO CORA DE ALMEIDA (CEUACA).
Aparício, o filho único do casal, fora um jovem advogado e ativo militante da Aliança Nacional Libertadora, instituição política declaradamente contrária à instalação do Estado Novo, período da ditadura de Getúlio Vargas. Foi assassinado em circunstâncias nunca devidamente esclarecidas pela polícia, mas, com toda a certeza, por causa de sua militância política contrária à ditadura.
Além de uma flâmula, com um desenho feito por um dos moradores, foi organizada uma comissão para o ato de entrega ao casal, um momento inesquecível que ficou marcado em nossas memórias. Ambos já muito idosos, fragilizados e doentes, receberam a comissão em sua residência, abraçando-nos, chamando-nos de “filhos” e agradecendo pela homenagem.
Nós, muito jovens, espantados com um cenário tão emotivo, dávamo-nos conta de que os dois nos abraçavam tão carinhosamente como se estivessem abraçando o querido filho que perderam.
Desde então, imaginem quantos estudantes puderam se formar, a cada ano, em diferentes faculdades, graças à bondade desse casal, que disponibilizou um prédio capaz de abrigar como moradia 100 (cem) estudantes pobres.
Olhem de novo a foto que acompanha este artigo. A CEUACA está fechada desde 2016. Em dez anos, quantos estudantes pobres poderiam ter sido abrigados no prédio? Os poucos e últimos moradores não tiveram condições de recuperar seu funcionamento. Chamaram o Governo, que os instalou em diferentes hotéis até se formarem. Prometeram restaurar o prédio, apropriaram-se das chaves, fecharam hermeticamente o imóvel, e nada foi feito até hoje. Tornou-se um “prédio abandonado”.
No entanto, essa história poderá ser revertida e seguir uma trajetória muito melhor. O DCE da UFRGS poderá colocar em sua agenda de luta um plano que certamente encontrará acolhida na atual gestão da Reitoria da UFRGS.
O DCE da UFRGS representa os estudantes da Universidade e é o órgão que sucedeu a FEUPA e a FEURGS. Essas entidades, sucessivamente, conseguiam subsídios da UFRGS para sustentar o funcionamento de duas organizações fundamentais que abrigavam estudantes da Universidade: a CEUACA e o RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO (Rua da Azenha, 155).
A UFRGS, portanto, envolveu-se nessa saudável atividade, dando apoio à representação estudantil (FEUPA e FEURGS), até o advento da ditadura de 1964.
A CEUACA pode ser legitimamente representada pelo atual DCE, que também pode representar, de forma legítima, a sucessão da FEUPA e da FEURGS (Federação dos Estudantes da Universidade de Porto Alegre — só havia aquela universidade na época — e Federação dos Estudantes da Universidade do Rio Grande do Sul).
Tanto o prédio da CEUACA quanto o da ex-FEUPA (Restaurante Universitário) podem ser devolvidos ao DCE e repassados, como doação, à UFRGS. A forma de funcionamento futuro pode constar nos novos documentos da melhor maneira possível, a fim de que os próprios estudantes sejam capazes de participar de suas administrações, com a ajuda da Universidade, retornando ao que eram antes de 1964: centros de abrigo e também de formação política dos estudantes que deles se servirão para atingir suas futuras profissões.
É uma questão de justiça histórica. Cabe aos universitários de hoje, por meio de seu DCE, assumir essas bandeiras e lutar para que isso se torne realidade. * Bruno Mendonça Costa, ex-presidente da CEUACA. 📲 CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA
jornalismo livre e independente #esquinademocratica #jornalismolivreeindependente #umaoutraimprensaépossível
_edited.png)
.png)





