TEMPLORAIS, POR PAULO GAIGER*
- Alexandre Costa

- 12 de jun.
- 2 min de leitura

Tempos atrás, eram revistas e cadernos de jornais que traziam reportagens sobre saúde e bem viver. Outras matérias apontavam para a importância da educação dos rebentos e de como era importante o acompanhamento pelos pais – leia-se: só a mãe acompanhava. Ainda comentavam, em menor escala, sobre o papel fundamental das artes e, especialmente, da literatura na vida das pessoas. Felicidade ao alcance de alguns esforços e administração do tempo. Se alguém dissesse “não tenho tempo” era o mesmo que confessar “não tenho vida”. Ninguém dava a menor pelota, afinal, era papo furado, coisas indicadas para um público específico e riquinho, que comprava e lia revistas e jornais. Os jornalistas, pensadores, psicólogos, sociólogos e tantos e tantas que se debruçaram sobre estas questões, raramente tocaram em uma realidade cruel, de impedimento e impotência: como cuidar da saúde (ginástica, comida saudável...), auxiliar a prole nas tarefas escolares, sair de passeio, ir ao cinema e ler um livro trabalhando 44 horas semanais? Muitas vezes, as pessoas, embora tenham tempo livre depois do dia de trabalho e de transporte de ida e volta, não são livres no tempo que sobra. As mulheres são quem pagam o pato, a tripla jornada e carregam o peso da cruz de serem as responsáveis pela família, porque em tempos míticos, em lendas escritas por homens canalhas, se lhes atribuiu o pecado original e a queda. Antes, agora e sempre, as mulheres terão que penar e se submeter. Não é de se surpreender, então, que a câmara de deputados e o senado, tomados pelo odor da testosterona, paus e testículos, fiquem boicotando a diminuição da carga horário, de 44 para 40. É, sobretudo, para foder com as mulheres no sentido de arruiná-las para dominar e sujeitar. Sacanear projetos de desenvolvimento humano tem sido a ordem de um congresso machista, patife e covarde. Nos países onde os números do IDH são bons ou muito bons, a carga horária semanal é de 40 horas ou menos. É no tempo livre, quando se é livre nesse tempo, que se pode pensar sobre si mesmo, sobre a inserção no mundo, contemplar, ler, auxiliar, amar, transar consensualmente, ouvir boa música, ir a espetáculos, meditar. São mudanças de vida, novos olhares, novas reflexões. Os patifes temem isso. Irão mentir, se apoiarão nas corporações econômicas e empresariais mais atrasadas e rapinas. Dirão que o Brasil vai acabar, que o povo brasileiro vai ficar preguiçoso, que se trabalha é para o progresso do país e outras cretinices mais. Os cabras usam o seu tempo, bem remunerado, para bolar modos e leis para empobrecer e alienar brasileiras e brasileiros. Nada melhor, como cegamento e aparente conforto, que um templo e um Jesus dizendo que o bispo e os ricos têm razão. Pobres e mulheres têm que pagar com o sofrimento. Sem proteção e abaixo de temporais. Ou melhor, Templorais. * Paulo Gaiger é artista e cronista 📲 CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA
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