CAPÍTULO 5 -FLÁVIO BOLSONARO, AS BETS E A SUSPEITA DE SOCIEDADE OCULTA: AS CONEXÕES COM WILLER TOMAZ
Documentos obtidos pela Polícia Federal revelam viagens internacionais, relações empresariais e indícios de acesso do senador a uma conta bancária ligada ao setor de apostas. Investigação também examina contratos da Loterj, suspeitas de lavagem de dinheiro e a atuação de um advogado investigado no escândalo do INSS.
POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR

Uma relação apresentada publicamente como amizade entre famílias tornou-se objeto de investigação da Polícia Federal e revelou conexões que alcançam o mercado de apostas, empresas constituídas no exterior, viagens internacionais e movimentações bancárias. No centro da apuração estão o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, e o advogado e empresário Willer Tomaz. [1][2]
Os dois mantêm relações pessoais há anos. Viajaram juntos, participaram de encontros sociais e compartilharam momentos de lazer com suas famílias. Mas documentos reunidos pelos investigadores levantaram uma questão que ultrapassa a esfera privada: a possibilidade de Flávio Bolsonaro ter participado, de maneira não declarada, de negócios relacionados ao setor de apostas esportivas. [1][2]
Em reportagem publicada em 20 de outubro, a revista piauí revelou que documentos bancários e societários obtidos no Brasil e em Portugal indicam que o senador teria mantido acesso operacional a uma conta de uma empresa ligada ao grupo controlador da casa de apostas Best Bet. A Polícia Federal investiga a hipótese de sociedade oculta. Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam que tenham compartilhado uma conta ou mantido sociedade no negócio. [1]
A investigação ganhou dimensão ainda maior porque Willer Tomaz também aparece em apurações sobre suspeitas de fraudes contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). [8]
Em outubro, o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde foi distribuído ao ministro Alexandre de Moraes. Os procedimentos buscam esclarecer se as movimentações identificadas envolvem lavagem de dinheiro, utilização irregular de estruturas empresariais ou favorecimento em contratos públicos. [4] Até o momento, as suspeitas divulgadas não constituem condenação criminal de Flávio Bolsonaro.
O ADVOGADO, AS APOSTAS E A PRIMEIRA LICENÇA
Willer Tomaz é advogado e empresário com atuação em Brasília. Entre seus interesses comerciais está a Rede Loto, empresa responsável pela plataforma de apostas Best Bet.
A empresa recebeu autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) em maio de 2023, tornando-se uma das pioneiras no mercado brasileiro de apostas regulamentadas por uma loteria estadual. A licença foi concedida durante o governo de Cláudio Castro (PL), aliado político da família Bolsonaro. [3]
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a autorização foi assinada por Hazenclever Cançado, então presidente da Loterj. Pessoas familiarizadas com as indicações políticas da autarquia afirmaram ao jornal que Cançado havia chegado ao cargo por indicação de Flávio Bolsonaro. Essa indicação, porém, é uma informação atribuída a fontes da reportagem, não uma conclusão judicial. O processo de autorização também chamou a atenção pela rapidez.
A Rede Loto apresentou documentação à Loterj em 27 de abril de 2023. Menos de um mês depois, em 25 de maio, obteve autorização para operar a Best Bet. A Loterj sustentou que a empresa cumpriu os requisitos previstos no edital e que seus integrantes não apresentavam impedimentos legais. O interesse da Polícia Federal está em verificar se a autorização e outros contratos relacionados ao setor foram influenciados por relações políticas ou empresariais não declaradas. [3]
DUAS EMPRESAS EM PORTUGAL E UMA CONTA NO SANTANDER
O caminho societário investigado envolve duas empresas constituídas na Ilha da Madeira, território português: Cathedral Holdings e Alcazar Holdings. A Cathedral é apontada como controladora da Rede Loto. A Alcazar, por sua vez, aparece em documentos financeiros que levaram os investigadores a examinar possíveis conexões entre as duas estruturas.
Segundo a revista piauí, os registros encontrados pela Polícia Federal indicam que Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz figuravam como usuários com privilégios administrativos em uma conta da Alcazar no Santander.
Em instituições financeiras, a condição de usuário master pode conferir poderes de administração ou autorização de operações, conforme as permissões efetivamente contratadas. Um documento citado pela reportagem registra que, em 22 de maio de 2025, uma funcionária ligada a Willer solicitou ao banco a exclusão de Flávio dessa condição. [1]
A existência de credenciais administrativas, se confirmada, não equivale automaticamente à propriedade da conta nem comprova participação societária. Para isso, seria necessário identificar contratos, beneficiários econômicos e operações efetivamente realizadas.
É justamente essa distinção que precisa ser esclarecida. Flávio Bolsonaro afirmou que nunca manteve conta bancária compartilhada com Willer Tomaz ou suas empresas. O advogado também negou a existência de conta conjunta e sustentou que o senador jamais foi usuário master da Alcazar. A defesa contesta a interpretação dos documentos apresentada pelas reportagens. [1]
A SUSPEITA DE SOCIEDADE OCULTA NA BEST BET
A Polícia Federal investiga se as relações bancárias e empresariais identificadas poderiam indicar uma participação não declarada de Flávio Bolsonaro na Best Bet. A hipótese decorre da combinação entre o acesso atribuído ao senador à conta da Alcazar, as relações dessa empresa com a Cathedral e a posição da Cathedral como controladora da casa de apostas.
Os investigadores também examinam semelhanças entre estruturas societárias, endereços, movimentações financeiras e operações das empresas portuguesas. [1]
A reportagem da piauí identificou circunstâncias que, segundo a investigação, poderiam indicar utilização de empresas intermediárias para concentrar e redistribuir recursos. Entretanto, a existência de vínculos entre empresas não permite concluir, por si só, que todas possuam os mesmos beneficiários econômicos. Willer Tomaz rejeitou a hipótese de sociedade oculta e afirmou que Flávio jamais foi sócio da Best Bet, direta ou indiretamente. [1]
O esclarecimento depende da identificação dos beneficiários finais, dos registros bancários completos e da eventual existência de documentos que atribuam ao senador participação econômica nos resultados da empresa.
AS VIAGENS DE JATINHO PARA A EUROPA
A relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz também aparece em registros de viagens internacionais. Segundo documentos examinados pela Polícia Federal e divulgados pela Folha de S.Paulo, uma empresa ligada ao setor de apostas, controlada pelo grupo de Willer, intermediou o pagamento de pelo menos três trechos em aeronaves executivas utilizados pelo senador e pelo advogado em 2025. [2]
Em 11 de abril daquele ano, os dois viajaram de Lisboa para Nice, na França, em voo contratado junto à empresa NetJets. Em 23 de maio, acompanhados de familiares, voltaram a viajar de Portugal para Nice. Outro deslocamento levou o grupo a Paris. A proximidade pessoal entre os dois também foi documentada em outras ocasiões, incluindo uma viagem entre os Estados Unidos e Brasília, em janeiro de 2025, e um safári na África do Sul, em março do mesmo ano. [2]
Willer Tomaz afirmou que os deslocamentos foram passeios particulares entre amigos, custeados por ele, sem contrapartida de qualquer natureza. Flávio Bolsonaro também sustentou que a relação é exclusivamente pessoal e rejeitou a associação das viagens a possíveis irregularidades. A questão investigada é se os custos foram efetivamente suportados pelo advogado ou se recursos de empresas do setor de apostas foram empregados em despesas particulares de um parlamentar, bem como se houve algum benefício relacionado ao exercício do mandato. [2]
A LOTERJ E O CONTRATO QUE MOVIMENTOU R$ 188 MILHÕES
A Polícia Federal também examina uma contratação realizada pela Loterj durante o governo de Cláudio Castro. Segundo reportagem da Folha, a empresa Pixs Cobrança, posteriormente denominada RioPag, venceu uma licitação realizada em 2022 para prestar serviços à autarquia. A investigação aponta Willer Tomaz como possível controlador de fato da empresa, apesar de seu nome não aparecer necessariamente como beneficiário formal em todos os documentos analisados. [3]
Entre junho de 2023 e agosto de 2026, a empresa recebeu aproximadamente R$ 188 milhões em pagamentos relacionados ao contrato com a Loterj. A disputa licitatória chamou a atenção dos investigadores porque uma concorrente foi desclassificada por apresentar sua proposta percentual com duas casas decimais, quando o edital exigia três. Após a desclassificação, a empresa vencedora negociou diretamente com a autarquia. [3]
A Polícia Federal procura esclarecer se houve direcionamento, favorecimento ou interferência de pessoas com relações políticas ou empresariais com os responsáveis pela contratação. Cláudio Castro negou ter participado da licitação e afirmou desconhecer os vínculos atribuídos a Willer com a empresa. Willer Tomaz declarou que suas atividades empresariais são lícitas e registradas perante os órgãos competentes. [3]
O pagamento de R$ 188 milhões não representa, por si só, desvio de recursos. Trata-se do montante informado como receita contratual, cuja regularidade é objeto de apuração.
AS MOVIMENTAÇÕES NO MERCADO DE APOSTAS
Outro elemento identificado pela Polícia Federal envolve operações de apostas atribuídas a Willer Tomaz. Segundo a CNN Brasil, a investigação encontrou registros de movimentações de aproximadamente R$ 35 milhões em uma plataforma, além de saques realizados em casas de apostas no exterior. A análise busca verificar a origem desses valores e a possibilidade de utilização de plataformas de apostas para movimentação ou ocultação de recursos. [4]
É importante observar que movimentação financeira não corresponde necessariamente a lucro, patrimônio ou dinheiro ilícito. O mesmo recurso pode circular repetidamente em operações de apostas, produzindo volumes elevados sem representar ganhos equivalentes.
Os investigadores precisam estabelecer a origem dos depósitos, os beneficiários dos saques e a relação dessas operações com as demais atividades empresariais do advogado.
O ESCÂNDALO DO INSS E A INVESTIGAÇÃO SOBRE WILLER TOMAZ
A investigação envolvendo o advogado também alcança suspeitas de desvios de recursos de aposentados e pensionistas. Em agosto de 2026, Willer Tomaz foi alvo de medidas da Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal para apurar fraudes relacionadas ao INSS. Os investigadores examinam suspeitas de que recursos obtidos por meio de descontos indevidos em benefícios previdenciários tenham sido movimentados por intermediários e empresas. [8]
A participação de Willer no procedimento não significa que ele tenha sido condenado pelos crimes investigados. Também não existe, nas informações examinadas, comprovação de que Flávio Bolsonaro tenha participado diretamente das fraudes contra aposentados. O vínculo documentado é a relação pessoal e empresarial sob investigação entre o senador e um advogado que também figura em outro procedimento criminal. [8]
A distinção é essencial para evitar a transferência automática de suspeitas de uma pessoa para outra.
R$ 13,7 MILHÕES EM NOTAS FISCAIS DO ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA
Uma revelação publicada pelo UOL em 20 de outubro acrescentou outro elemento à investigação financeira. O escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro emitiu pelo menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que ele exercia mandato de senador. [5]
A reportagem examinou 62 documentos fiscais. Em grande parte deles, os serviços foram descritos genericamente como assessoria jurídica. O escritório, criado em abril de 2021, tem Flávio como único titular, não possui outros empregados e funciona no endereço de sua residência no Lago Sul, em Brasília. O levantamento identificou pagamentos de outros escritórios de advocacia e de empresas privadas. Entre os clientes aparecem a Simas Industrial de Alimentos, com R$ 3,3 milhões em notas fiscais, e escritórios ligados ao advogado Otto Medeiros, com aproximadamente R$ 2,1 milhões.
O UOL também identificou documentos envolvendo empresas relacionadas a negócios com o Banco Master. Duas notas de R$ 500 mil emitidas para a Copenhagen Assessoria e Consultoria foram canceladas. Posteriormente, foi emitida uma nota de R$ 500 mil para outra empresa cujo administrador também integra a direção da Copenhagen. A Copenhagen havia recebido R$ 57,9 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025, segundo os documentos examinados pela reportagem. [5]
A existência de notas fiscais não comprova irregularidade. Tampouco é possível equiparar automaticamente faturamento bruto a rendimento pessoal líquido. O exercício da advocacia por senadores é permitido, desde que respeitadas as restrições legais aplicáveis aos parlamentares.
Entretanto, os valores, a identificação dos serviços efetivamente prestados e as relações entre contratantes passaram a despertar interesse dos investigadores. A Polícia Federal examina as movimentações do escritório no contexto da apuração envolvendo Willer Tomaz. [5]
O INQUÉRITO NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Em 16 de outubro de 2026, a investigação sobre a relação financeira entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal. O caso foi distribuído ao ministro Alexandre de Moraes. Segundo a CNN Brasil, a Polícia Federal abriu procedimento para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, incluindo movimentações bancárias e possíveis relações com o mercado de apostas. A defesa do senador contestou a caracterização do procedimento como inquérito formalmente instaurado contra ele, afirmando que ainda não havia decisão judicial sobre o pedido encaminhado ao STF.
Essa divergência processual deve ser acompanhada nas próximas atualizações, sem confundir a existência de uma apuração policial com denúncia ou condenação.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam irregularidades. O advogado afirmou que não teve acesso integral aos autos e que prestará os esclarecimentos necessários às autoridades. [4]
A RELAÇÃO ENTRE DINHEIRO, POLÍTICA E APOSTAS
As investigações sobre o mercado de apostas revelam um setor em que grandes volumes financeiros, contratos públicos, empresas internacionais e relações políticas podem se encontrar. No caso de Flávio Bolsonaro, os documentos divulgados apontam relações pessoais com um empresário do setor, viagens internacionais, possíveis acessos a estruturas bancárias e operações financeiras ainda sob exame. [1][2][4]
A hipótese de sociedade oculta na Best Bet permanece uma suspeita, não um fato judicialmente comprovado. [1] Também não há demonstração conclusiva de que o senador tenha recebido recursos ilícitos, participado de fraudes contra aposentados ou interferido ilegalmente em contratos da Loterj. O que existe é um conjunto de registros que levou a Polícia Federal a aprofundar a investigação e que exige respostas documentadas. [1][4]
O interesse público está precisamente nessa necessidade de esclarecimento.
Um candidato à Presidência da República deve poder explicar suas relações empresariais, os serviços profissionais remunerados, os benefícios recebidos de particulares e sua eventual participação em estruturas financeiras. Essas explicações não dispensam o trabalho das autoridades, assim como as suspeitas levantadas pelos investigadores não substituem decisões judiciais.
A trajetória de Flávio Bolsonaro, examinada ao longo desta série, reúne episódios ocorridos em momentos diferentes e com consequências jurídicas distintas. O caso das bets acrescenta uma nova dimensão: a investigação de relações financeiras e empresariais que permaneceram pouco conhecidas durante parte de sua atuação no Senado.
Às vésperas da decisão eleitoral, esclarecer essas relações tornou-se uma questão de transparência pública.
EM NÚMEROS
R$ 13,7 mi
Notas fiscais emitidas pelo escritório de Flávio entre janeiro de 2023 e julho de 2026
R$ 188 mi
Receitas contratuais atribuídas à empresa ligada a Willer Tomaz em operações com a Loterj
3 voos
Pelo menos três trechos internacionais em jatos executivos examinados pela PF
R$ 35 mi
Movimentações identificadas em plataforma de apostas vinculadas à investigação de Willer
FONTES PARA CHECAGEM
Investigação sobre Cathedral, Alcazar, Best Bet, documentos bancários e suspeita de sociedade oculta.
Documenta as viagens, os pagamentos e as explicações do senador e de Willer Tomaz.
Apresenta a investigação sobre a Loterj, o processo licitatório e os posicionamentos dos envolvidos.
Confirma o encaminhamento ao STF e os elementos financeiros sob investigação.
Levantamento documental sobre clientes, pagamentos e serviços jurídicos.
Reúne os principais valores e questionamentos relacionados ao escritório.
Reportagem localizada sobre vínculos financeiros, estruturas empresariais e aeronaves. Substitui referência Agência Pública/UOL, cujo endereço não foi confirmado.
Documentos bancários, investigação ligada ao INSS e negativas dos envolvidos. CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA
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