CAPÍTULO 4 — NUNCA FOI TÃO FÁCIL PUBLICAR. ENTÃO POR QUE AINDA EXISTEM DESERTOS DE NOTÍCIAS?

Se a internet reduziu drasticamente o custo de publicar e distribuir informação, seria razoável imaginar que o Jornalismo pudesse chegar a praticamente qualquer lugar. Em parte, isso aconteceu. O Atlas da Notícia 2025 identificou 14.809 veículos jornalísticos ativos no Brasil. O segmento digital tornou-se o maior do levantamento, com 5.712 iniciativas, seguido por 4.994 rádios, 2.852 veículos impressos e 1.251 emissoras de televisão.[24]
O avanço também aparece no mapa. Entre as duas últimas edições, 251 municípios deixaram de ser desertos de notícias e 43 ingressaram nessa condição, produzindo saldo positivo de 208 cidades que passaram a contar com pelo menos um veículo local. No mesmo período, as iniciativas online cresceram 8,9%, de 5.245 para 5.712.[25]
É uma transformação importante e confirma parte da promessa aberta pela internet: estruturas menores conseguem ocupar territórios onde manter um jornal impresso, uma rádio ou uma emissora de televisão seria muito mais caro. Mas o mesmo levantamento revela o tamanho do problema que permanece.
45% DOS MUNICÍPIOS NÃO TÊM NENHUM VEÍCULO LOCAL
Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.504 — 45% do total — continuam classificados como desertos de notícias, sem nenhum veículo jornalístico local identificado pelo Atlas. Neles vivem cerca de 20,7 milhões de pessoas.[24]
Outros 1.808 municípios, ou 32,5% do país, são considerados quase desertos: possuem somente um ou dois veículos. Apenas 1.258 municípios, 22,6% do total, têm três ou mais.[24]
Os números exigem cuidado. O Atlas mede a presença de veículos segundo sua própria metodologia; não mede diretamente quantos jornalistas trabalham em cada município, o tamanho das redações, a frequência da cobertura nem a qualidade do Jornalismo produzido.
O próprio projeto adverte que veículos podem não estar catalogados e que a análise não considera qualidade, propriedade ou alcance.[24] Mesmo com essas limitações, o mapa expõe uma desigualdade difícil de ignorar: a abundância global de informação não significa abundância de Jornalismo local.
É possível acompanhar em segundos uma guerra do outro lado do planeta e, ao mesmo tempo, viver numa cidade onde nenhum jornalista acompanha regularmente a prefeitura, a Câmara de Vereadores, o orçamento municipal, a escola pública, o posto de saúde ou as decisões que interferem diretamente na vida cotidiana.
NO RIO GRANDE DO SUL, 340 MUNICÍPIOS TÊM NO MÁXIMO DOIS VEÍCULOS
A contradição também está próxima de nós. No Rio Grande do Sul, o Atlas registra 180 municípios classificados como desertos e outros 160 como quase desertos. Somados, são 340 dos 497 municípios gaúchos — cerca de 68% — com nenhum, um ou dois veículos jornalísticos locais. Apenas 157 aparecem na categoria de não desertos, com três ou mais veículos.[24]
Ao mesmo tempo, há movimento na direção contrária. Na última edição, 24 municípios gaúchos deixaram de ser desertos, enquanto três passaram a integrar essa condição.[26]
O digital ajuda a explicar parte dessa expansão, mas não resolve sozinho o problema da sustentabilidade. O próprio levantamento encontrou 501 veículos inativos na Região Sul, dos quais 47% eram impressos. O número não representa 501 fechamentos ocorridos entre as duas últimas edições: o Atlas esclarece que são organizações cuja inatividade foi identificada durante o levantamento, sem que seja possível determinar, em muitos casos, quando encerraram efetivamente suas atividades.[26]
Essa diferença metodológica é importante. No conjunto nacional, o Atlas possui 1.460 veículos classificados como não ativos. Não podemos transformar esse estoque acumulado em uma estatística de fechamentos recentes.[24]
No Rio Grande do Sul, o levantamento encontrou 64 organizações impressas a menos em relação à edição anterior.[26] O dado reforça uma transformação que já apareceu no capítulo sobre emprego: o digital cresce, enquanto a estrutura tradicional do Jornalismo impresso perde espaço.
QUANDO A PREFEITURA É UMA DAS PRINCIPAIS FONTES DE INFORMAÇÃO
A ausência de Jornalismo local não significa ausência de informação. Prefeituras, câmaras, órgãos públicos, empresas, entidades e cidadãos continuam produzindo conteúdo e utilizando redes sociais. Mas existe uma diferença fundamental entre uma instituição informar sobre aquilo que faz e alguém independente acompanhar, questionar e fiscalizar aquilo que ela faz.
Um estudo publicado pela revista Organicom, da USP, analisou 1.523 publicações realizadas em novembro de 2023 pelas prefeituras de 25 municípios considerados desertos de notícias. A pesquisa constatou que Facebook e Instagram eram amplamente utilizados, mas as publicações privilegiavam a divulgação de ações governamentais em relação às informações classificadas como serviços públicos sociais.[27]
Não há nada de ilegítimo em uma prefeitura possuir canais próprios. A comunicação pública é necessária e cumpre função diferente da atividade jornalística. O problema surge quando a informação produzida pelo próprio poder público ocupa o espaço deixado pela inexistência de cobertura independente.
Uma prefeitura pode anunciar uma obra. O Jornalismo pode perguntar quanto custou, quem venceu a licitação, se houve aditivos, por que atrasou, quem fiscalizou, se a obra funciona e o que dizem as pessoas afetadas por ela. O poder continua falando; o que pode desaparecer é quem pergunta ao poder.
UM VEÍCULO NÃO É NECESSARIAMENTE UMA REDAÇÃO
Outra descoberta ajuda a compreender o novo ecossistema. O Atlas contabilizou 1.856 blogs, operações individuais e veículos que atuam apenas em redes sociais.[24] Esse número não diminui a importância dessas iniciativas. Ao contrário: muitas representam justamente a possibilidade de produzir informação em lugares ou segmentos ignorados pelas estruturas tradicionais.
Mas ele introduz uma distinção importante para esta investigação. Contar veículos não equivale a contar jornalistas, muito menos a medir capacidade de reportagem. Um projeto mantido por uma única pessoa e uma redação com dezenas de profissionais podem aparecer como uma unidade cada no mapa. Ambos podem produzir Jornalismo relevante, mas dispõem de condições completamente diferentes para acompanhar diariamente o poder público, investigar documentos, deslocar repórteres, manter cobertura especializada e sustentar reportagens demoradas.
A tecnologia democratizou a possibilidade de publicar. Não distribuiu automaticamente os recursos necessários para apurar.
O QUE ACONTECE COM A DEMOCRACIA?
É tentador dar o passo seguinte e afirmar que municípios sem Jornalismo local necessariamente votam menos, participam menos da política ou possuem governos piores.
Os estudos disponíveis recomendam cautela.
Uma pesquisa que comparou desertos de notícias e abstenção eleitoral no Brasil e em Portugal testou justamente uma relação aparentemente plausível entre ausência de mídia local e menor participação nas eleições. Os autores não encontraram associação estatisticamente significativa que permitisse sustentar essa hipótese nos universos analisados.[28]
Esse resultado merece permanecer nesta reportagem porque uma investigação não deve selecionar apenas os dados que confirmam sua tese. Há, porém, evidências internacionais de outros efeitos associados ao enfraquecimento do Jornalismo local. Nos Estados Unidos, estudo publicado no Journal of Financial Economics concluiu que o fechamento de jornais locais estava associado causalmente ao aumento dos custos de endividamento dos governos municipais analisados, além de outros efeitos relacionados à fiscalização da administração pública.[29]
São evidências importantes sobre o papel fiscalizador da imprensa, mas não podem ser simplesmente transportadas para o Brasil. Sistemas políticos, mercados jornalísticos, estruturas municipais e condições econômicas são diferentes.
O que o mapa brasileiro permite afirmar é mais elementar e, talvez por isso, mais inquietante: em milhares de municípios há pouca ou nenhuma estrutura jornalística local identificada acompanhando permanentemente aquilo que acontece no território. E isso nos devolve à pergunta que atravessa esta investigação.
Se a tecnologia tornou publicar tão barato, se existem jornalistas formados, se novos veículos digitais continuam surgindo e se há comunidades que precisam de informação, por que ainda é tão difícil sustentar Jornalismo? A resposta nos obrigou a seguir o dinheiro.
FONTES PARA CHECAGEM — CAPÍTULO 4
[24] ATLAS DA NOTÍCIA / PROJOR / VOLT DATA LAB. Relatório analítico de dados do Atlas 2025. 7 de julho de 2025.
O que comprova: 14.809 veículos ativos; 2.504 municípios classificados como desertos; população de 20.668.485 nesses municípios; 1.808 quase desertos; 1.258 não desertos; dados do Rio Grande do Sul; 1.460 veículos não ativos; 1.856 blogs, operações individuais e veículos apenas em redes sociais; critérios e limitações metodológicas do levantamento.
[25] ATLAS DA NOTÍCIA / OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA. Sergio Ludtke e Sergio Spagnuolo. Redução dos desertos de notícias no Brasil é impulsionada pelo crescimento do segmento online. 10 de julho de 2025.
O que comprova: 251 municípios que deixaram de ser desertos, 43 que passaram a essa condição, saldo de 208 municípios e crescimento de 8,9% das iniciativas online, de 5.245 para 5.712.
[26] ATLAS DA NOTÍCIA. Marcelo Crispim da Fontoura. Entre fechamentos e aberturas, o ecossistema jornalístico no Sul se movimenta. Atualizado em 10 de julho de 2025.
O que comprova: 501 veículos identificados como inativos na Região Sul; ressalva de que isso não significa que todos fecharam no período recente; 24 municípios gaúchos que deixaram de ser desertos e três que passaram a essa condição; redução de 64 organizações impressas no RS.Análise do Atlas sobre a Região Sul
[27] MONTESSO JUNIOR, José Agnaldo. A comunicação pública nos desertos de notícia: uma análise a partir de 25 municípios brasileiros. Organicom, v. 21, n. 45, p. 219–234, 2024.
O que comprova: análise de 1.523 publicações de prefeituras de 25 municípios classificados como desertos; predominância da divulgação de ações governamentais sobre informações consideradas serviços públicos sociais.
[28] RAMOS, Giovanni; TORRE, Luísa; JERÓNIMO, Pedro. No Media, No Voters? The Relationship between News Deserts and Voting Abstention. Social Sciences, v. 12, n. 6, 2023.
O que comprova: investigação da relação entre desertos de notícias e abstenção eleitoral no Brasil e em Portugal e a ausência, nos universos analisados, de evidência suficiente para sustentar uma associação estatisticamente significativa.
[29] GAO, Pengjie; LEE, Chang; MURPHY, Dermot. Financing dies in darkness? The impact of newspaper closures on public finance. Journal of Financial Economics, v. 135, n. 2, p. 445–467, 2020.
O que comprova: evidência, no contexto norte-americano estudado, de aumento dos custos de financiamento municipal após fechamento de jornais locais e efeitos relacionados à redução da fiscalização dos governos.
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