A BET, O MARKETPLACE E A CRISE NO COMÉRCIO LOCAL, POR JONAS TIAGO SILVEIRA*

Cada vez a reclamação é mais recorrente: o cliente e o dinheiro estão sumindo dos comércios. Apesar de apontamentos genéricos de culpa, existem fatores profundos e estruturais que precisam ser entendidos para se buscar uma solução real.
Hoje em dia, aqui na capital gaúcha e em tantas outras cidades, tornou-se trivial observar portas de ferro baixadas nas ruas centrais e bairros tradicionais, ostentando placas de venda ou aluguel. Do Centro Histórico à Avenida Assis Brasil, passando por corredores como a Voluntários da Pátria, Azenha e Menino Deus, o cenário se repete. Até mesmo nos shoppings centers percebe-se o aumento de tapumes cobrindo lojas fechadas ou uma rotatividade acelerada de marcas. O fenômeno vai muito além da resposta simplista da "crise financeira" ou de "má gestão": trata-se de um estrangulamento sistêmico da renda do consumidor local.
MARKETPLACES E A ILUSÃO DO CONSUMO BARATO
O marketplace, a “feirinha virtual”, tornou-se um gigante no consumo brasileiro. De gigantes globais e nacionais como Amazon e Mercado Livre ao reposicionamento de varejistas como Magazine Luiza, Casas Bahia e Carrefour, o modelo dominou o mercado. A estrutura permite que milhares de vendedores comercializem produtos sem manter uma estrutura física, sem os mesmos tributos municipais e custos operacionais de quem mantém uma porta aberta na rua, e muitas vezes sem uma fiscalização adequada sobre a origem ou garantia do produto.
O vendedor virou um fantasma: o consumidor apenas diz que comprou "na Amazon" ou "na Shopee", enquanto a plataforma faz a mediação e retém fatias expressivas das margens.
Essas operações vendem sem a necessidade de manter estoques locais — muitas vezes operando na modalidade em que a loja online repassa o pedido direto ao fabricante. A compra é efetuada no marketplace, que fica com sua taxa de intermediação e pagamento; o vendedor intermediário fica com sua margem, e a fábrica despacha o produto.
Para piorar a assimetria com a loja de bairro, as entregas tornaram-se vertiginosamente rápidas, chegando por vezes no mesmo dia. Essa eficiência oculta uma severa "uberização" da logística: trabalhadores com veículos particulares transportam centenas de pacotes das distribuidoras até as residências por valores irrisórios por entrega, sem garantias trabalhistas. Tornou-se comum receber encomendas antes das 8h da manhã ou após as 20h.
Além do preço desleal, há um efeito colateral devastador: a trava do crédito pelo mega parcelamento. Ao parcelar compras de bens não duráveis ou vestuário em 10 até 24 vezes sem juros nos marketplaces, o consumidor compromete o limite de sua renda por um longo tempo. O resultado é o estrangulamento do consumo espontâneo diário: sem limite disponível no cartão, a pessoa deixa de almoçar em um restaurante local, de tomar um café no bairro ou de comprar uma peça de roupa na loja da esquina.
IA, AUTOMAÇÃO E A RETIRADA DE RENDA DA CIRCULAÇÃO LOCAL
Nas redes sociais de comércios e prestadores de serviço locais, tornou-se corriqueiro ver artes geradas por Inteligência Artificial, assim como em fachadas, banners promocionais e cardápios. Este é apenas um pequeno sintoma do impacto da tecnologia no tecido econômico da cidade. Trabalhos de design, redação, fotografia, vídeo e similares, que antes geravam renda para gráficas de bairro, agências locais e freelancers regionais, são eliminados. A renda que esses profissionais autônomos recebiam e reinvestiam na padaria, no mercado de bairro e no vestuário local simplesmente deixa de circular na economia da capital.
A Inteligência Artificial é apenas o capítulo mais recente de um avanço tecnológico direcionado à centralização de lucros em grandes corporações. Nos últimos anos, redes de supermercados e fast-foods em Porto Alegre substituíram caixas humanos por totens de autoatendimento. Um único terminal com seis caixas automáticos elimina postos de operadores e empacotadores — trabalhadores de baixa renda cuja receita era integralmente gasta no comércio local de subsistência. Na própria mobilidade da capital, a extinção progressiva dos cobradores nos ônibus pela bilhetagem eletrônica reduziu postos de trabalho em 50% por veículo e acumulou funções sobre os motoristas, retirando milhões de reais mensais da massa salarial que movimentava o comércio popular dos bairros.
Não se deve demonizar a tecnologia — ela é uma ferramenta valiosa para facilitar o trabalho —, mas ela não pode ser um meio apenas de centralizar mais renda na mão de bilionários e grandes corporações enquanto empobrece a economia local.
AS BETS E A SANGRIA DO ORÇAMENTO FAMILIAR
As apostas online não começaram hoje, apesar de o assunto parecer recente. Antes da popularização de plataformas de streaming como Netflix e HBO — outro modelo tecnológico que concentrou lucros e causou a extinção de locadoras e fornecedores locais —, as empresas de bets já apareciam em anúncios de portais de filmes piratas e vinhetas inseridas em distribuições ilegais. Trata-se da migração digital do mecanismo dos caça-níqueis e bingos clandestinos que nunca deixaram de existir. Em Porto Alegre, nada é mais comum do que ver antigas lojas de rua transformadas em tabacarias ou conveniências, onde uma simples divisória esconde uma peça pequena para abrigar as máquinas no fundo.
No entanto, a escala do ambiente digital transformou o jogo em uma epidemia de endividamento. O jogo se torna dívida e, quando a dívida perde o controle, as pessoas endividadas param de gastar com o que não seja estritamente essencial na rotina.
Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as apostas eletrônicas retiraram mais de R$ 140 bilhões do comércio varejista nacional nos últimos anos. Levantamentos do Banco Central indicam que bilhões de reais — incluindo parcelas significativas oriundas de benefícios sociais como o Bolsa Família — são transferidos mensalmente via PIX para plataformas de apostas. Esse montante deixa de alimentar os setores de alimentação, vestuário, lazer e serviços essenciais de vizinhança.
O AGRAVANTE LOCAL: O BAQUE NA INFRAESTRUTURA GAÚCHA
Em Porto Alegre, esse cenário nacional ganha contornos ainda mais graves quando somado aos impactos dos desastres climáticos e enchentes que atingiram a capital. Negócios localizados em polos comerciais históricos viram estoques destruídos, instalações danificadas e faturamentos zerados por semanas.
Enquanto os proprietários das PMEs contraíram financiamentos para reconstruir seus espaços, seus clientes perderam bens pessoais, móveis e veículos, tendo que reestruturar suas vidas financeiras do zero. A combinação do endividamento por perdas materiais com a drenagem de renda pelas bets e pelo parcelamento longo no e-commerce criou uma tempestade perfeita de retração para o varejo de rua gaúcho.
O CAMINHO PARA FORA DAS CRISES
Algumas destas ações já estão em ação ou em tramite, enquanto outras ainda precisam avançar.
1. Enquadramento e Regulação Severa das BETS
· Proteção Financeira e Social: Proibição do uso de cartões de crédito, limites de cheque especial e benefícios sociais (como o Bolsa Família) em plataformas de apostas. A publicidade de bets deve sofrer restrições equivalentes às do fumo e do álcool, impedindo a coação sobre populações vulneráveis.
· Saúde Pública e Renegociação: Tratamento da ludopatia (vício em jogos) como questão de saúde pública pelo SUS e SUAS. Entidades de classe e o setor público devem atuar na promoção de feirões de renegociação de dívidas e programas de educação financeira comunitária para retirar as famílias do superendividamento.
2. Fortalecimento do Comércio Local e Isonomia Fiscal
· Justiça Tributária com os Marketplaces: Exigência de isonomia fiscal e regulatória entre grandes plataformas digitais e o comércio de rua local, coibindo a concorrência desleal e responsabilizando os marketplaces por obrigações trabalhistas e ambientais na cadeia logística.
· Valorização do Consumo Regional: Campanhas educativas para conscientizar a população sobre o impacto social do consumo local. Comprar na loja do bairro retém o imposto na cidade, gera empregos formais para vizinhos e reduz a pegada de carbono do transporte de mercadorias à longa distância.
· Cooperativismo Digital: Criação de plataformas digitais municipais ou comunitárias de baixo custo para que restaurantes e PMEs possam vender online sem submeter suas margens a taxas abusivas de aplicativos corporativos.
3. Tecnologia Humanizada e Preservação da Renda
· Uso Ético da Automação: Incentivo às empresas para aplicarem a tecnologia e a Inteligência Artificial como ferramentas de apoio ao trabalhador e ganho de qualidade, e não como mera justificativa para demissões em massa e precarização.
· Requalificação e Valorização do Atendimento: Estímulo à formação de mão de obra voltada para o atendimento humanizado, a hospitalidade e a experiência presencial do cliente, diferenciais que o ambiente digital e os robôs de atendimento não conseguem reproduzir. *Jonas Tiago Silveira é escritor, músico e jornalista. 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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