CAPÍTULO 6 — AFINAL, PARA QUE SERVE UM DIPLOMA?

POR ALEXANDRE COSTA | WWW.ESQUINADEMOCRATICATICA.COM.BR
Chegamos ao final desta investigação com menos certezas simples do que tínhamos quando começamos. E isso é parte do trabalho jornalístico. O Esquina Democrática iniciou esta reportagem defendendo o restabelecimento da exigência de formação superior específica em Jornalismo para o exercício profissional. Depois de percorrer dados sobre formação, emprego, relações de trabalho, plataformas digitais, desertos de notícias, financiamento e inteligência artificial, essa posição permanece.
Mas os argumentos mudaram. Não encontramos evidências de que a decisão do STF de 2009 tenha provocado uma queda imediata do emprego jornalístico. Ao contrário: os vínculos formais continuaram crescendo e alcançaram seu ponto máximo quatro anos depois. Também não encontramos sinais de que, retirada a obrigatoriedade, os profissionais tenham abandonado a formação universitária em Jornalismo. Em 2021, entre os respondentes da pesquisa nacional que informaram sua formação específica, 94,1% declararam graduação em Jornalismo ou Comunicação Social com habilitação em Jornalismo.[9]
Encontramos, porém, uma profissão submetida a transformações muito maiores do que a discussão sobre uma credencial acadêmica isoladamente consegue explicar. As redações tradicionais encolheram, a CLT perdeu participação, outras formas de contratação avançaram, plataformas passaram a mediar a relação entre veículos e audiência, algoritmos entraram nas rotinas de produção e distribuição, milhares de municípios permanecem sem cobertura jornalística local e a inteligência artificial tornou possível produzir textos, imagens, áudios e vídeos em uma escala até recentemente inimaginável.
Se o diploma não resolve sozinho nenhum desses problemas, por que defendê-lo?
PORQUE JORNALISMO NÃO É APENAS SABER ESCREVER
As Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Jornalismo ajudam a responder.
A resolução aprovada pelo Conselho Nacional de Educação em 2013 estabelece uma formação organizada em eixos de fundamentação humanística, específica, contextual, profissional, de aplicação processual e de prática laboratorial. Entre as competências previstas estão compreender a realidade social, reconhecer a relevância e o interesse público dos acontecimentos, investigar informações, formular pautas, entrevistar fontes, interpretar dados, dominar diferentes linguagens e tecnologias e exercer a profissão de acordo com princípios éticos.[36]
A universidade não inventou a curiosidade, o talento para escrever ou a capacidade de fazer perguntas. Tampouco possui monopólio sobre o conhecimento necessário para compreender o mundo. Sua função é outra: oferecer um percurso sistemático no qual técnicas, história, teoria, ética, pesquisa, direito, economia, política, cultura, linguagem e prática profissional possam ser estudados, confrontados e criticados.
Formação não é certificado de virtude. Um jornalista diplomado pode cometer erros, agir de maneira antiética, reproduzir preconceitos, manipular informações ou produzir Jornalismo ruim. Da mesma forma, a história da imprensa registra profissionais sem formação específica que construíram trajetórias relevantes.
O argumento em defesa do diploma não precisa negar nenhuma dessas duas evidências.
A questão é saber se uma sociedade que reconhece o Jornalismo como atividade de interesse público deve considerar indiferente a existência de uma formação específica para exercê-lo profissionalmente.
UMA PROFISSÃO TAMBÉM PRODUZ CONHECIMENTO
Há outro aspecto frequentemente perdido quando a discussão fica reduzida à ideia de uma reserva de mercado. O Jornalismo também se constituiu como campo de pesquisa. A Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) mantém redes dedicadas a temas como teorias do Jornalismo, história, ética, narrativas, televisão, rádio, fotojornalismo, Jornalismo e ciência, circulação, inovação e relações entre a profissão e as tecnologias digitais.[37]
Na pós-graduação brasileira, estudos sobre Jornalismo integram a área de Comunicação e Informação avaliada pela Capes, na qual universidades desenvolvem pesquisas sobre produção, circulação, linguagem, mídia, tecnologia e processos comunicacionais.[38]
Isso importa porque profissões não são definidas apenas pelo conjunto de tarefas que seus trabalhadores executam.
A medicina não se resume ao ato de prescrever. A engenharia não se resume a calcular. E o Jornalismo não se resume a escrever, fotografar, gravar ou publicar. Existe conhecimento acumulado sobre como apurar, verificar, contextualizar e tornar pública uma informação, assim como existem debates permanentes sobre os limites e as responsabilidades desse processo. É esse conjunto que uma formação específica procura transmitir e desenvolver.
TODO MUNDO PODE PUBLICAR — E ISSO É UMA CONQUISTA
Nada disso significa defender que apenas jornalistas possam se expressar publicamente.
Seria justamente o contrário da experiência do Esquina Democrática, que nasceu na internet quando os blogs ampliavam radicalmente as possibilidades de publicação.
Qualquer cidadão deve poder escrever, fotografar, filmar, denunciar, comentar, entrevistar, produzir um podcast, manter um blog ou publicar informações nas redes. A liberdade de expressão não pertence aos jornalistas. A questão colocada pela regulamentação profissional é diferente: liberdade de expressão e exercício profissional do Jornalismo são a mesma coisa?
A FENAJ sustenta que não. Em documento encaminhado em 2026 no esforço para recolocar a formação profissional na pauta do STF, a Federação afirma que não pretende restringir a manifestação de cidadãos, mas distinguir o direito universal de expressão do exercício profissional de uma atividade submetida a responsabilidades próprias.[39] Essa distinção se tornou ainda mais relevante num ambiente em que a aparência do Jornalismo pode ser reproduzida por praticamente qualquer pessoa — e agora também por máquinas.
QUANDO A DESINFORMAÇÃO SE PARECE COM JORNALISMO
Uma notícia falsa raramente chega ao leitor anunciando que é falsa. Ela pode ter título, fotografia, supostas fontes, números, depoimentos, linguagem científica e aparência semelhante à de uma reportagem.
Estudo divulgado pela Fiocruz sobre desinformação relacionada às vacinas analisou 80 conteúdos falsos e constatou que aproximadamente 59% eram inteiramente falsos, enquanto outros misturavam elementos verdadeiros e enganosos. A pesquisa também identificou a utilização de supostos médicos, pesquisadores e autoridades como estratégia para conferir credibilidade às mensagens.[40] Isso não significa que conteúdos falsos necessariamente circulem mais do que informação verificada.
Outra pesquisa, publicada em Cadernos de Saúde Pública, analisou cem links de grande engajamento relacionados a vacinas e encontrou predominância de conteúdos favoráveis à vacinação: 87,6% das interações estavam associadas a conteúdos pró-vacina, enquanto 13,5% correspondiam a informações classificadas como falsas.[41]
Novamente, a investigação nos obriga a abandonar uma conclusão conveniente. Não podemos dizer que a mentira sempre vence porque circula mais. O problema é outro: ela aprendeu a imitar as formas de autoridade utilizadas para produzir confiança. Nesse ambiente, método importa.
E SE UMA MÁQUINA CONSEGUE ESCREVER ESTA REPORTAGEM?
Esta própria investigação utilizou inteligência artificial. Ela foi empregada como ferramenta de apoio para pesquisa, organização de dados, comparação de documentos, localização de fontes, revisão de cálculos e construção e revisão do texto. Dizer isso não diminui a reportagem. Ao contrário: torna explícito um processo que tende a integrar cada vez mais o trabalho jornalístico.
Mas a experiência também ajuda a mostrar os limites da ferramenta. Ao longo da apuração, hipóteses tiveram de ser abandonadas porque os dados não as sustentavam. Números aparentemente semelhantes precisaram ser separados porque mediam universos diferentes. Afirmações fortes foram reduzidas quando as fontes permitiam demonstrar apenas parte delas. Documentos foram confrontados, informações atribuídas e decisões editoriais tomadas.
Uma inteligência artificial pode participar dessas tarefas e ampliar enormemente a capacidade de pesquisa e organização. Mas alguém precisa responder pelo resultado.
O Jornalismo começa antes da frase escrita. Começa quando alguém decide o que merece ser investigado, quais perguntas devem ser feitas, quais fontes são confiáveis, quais interesses estão em disputa e que evidências são suficientes para publicar uma afirmação. E continua quando surgem contestações, erros precisam ser corrigidos ou novas informações modificam aquilo que se acreditava saber. A tecnologia muda as ferramentas.
Não elimina a responsabilidade.
E OS 55 MIL REGISTROS JÁ CONCEDIDOS?
Há uma questão concreta que a defesa da volta do diploma não pode ignorar. Desde a decisão do STF de 2009, mais de 55 mil registros profissionais foram concedidos sem a exigência de formação específica em Jornalismo.[1] Como mostramos na abertura, esse número é acumulado e não significa que 55 mil pessoas sem qualquer formação universitária estejam atualmente trabalhando em redações. Mas os registros existem.
O que acontecerá com eles caso a formação específica volte a ser obrigatória? Consultada pelo Esquina Democrática, Stela Pastore, representante da FENAJ na Região Sul, afirmou que essa definição caberá à instância responsável pela eventual mudança — o STF, caso reveja seu entendimento de 2009, ou o Congresso Nacional, se a alteração ocorrer pela via legislativa.[42]
Isso significa que, até o momento, não está definido se os registros existentes serão preservados, submetidos a alguma regra de transição ou alcançados por uma nova exigência.
Não cabe a esta reportagem inventar uma resposta jurídica que ainda não existe.
O DIPLOMA NÃO VAI SALVAR O JORNALISMO
Depois de tudo o que encontramos, seria contraditório terminar atribuindo ao diploma um poder que os próprios dados desta investigação negam. Sua volta não fará reaparecer os empregos perdidos nos jornais e revistas. Não impedirá por si só a pejotização fraudulenta. Não financiará veículos independentes. Não diminuirá automaticamente a concentração econômica. Não modificará os algoritmos das plataformas.
Não levará redações a todos os desertos de notícias. Não eliminará a desinformação. Não garantirá independência editorial e tampouco impedirá que jornalistas cometam erros.
E não produzirá automaticamente bom Jornalismo.
O diploma pode fazer algo mais específico: reconhecer que o exercício profissional do Jornalismo pressupõe um corpo próprio de conhecimentos, métodos, técnicas, princípios éticos e responsabilidades sociais que justificam formação especializada.
Para Mateus Azevedo, primeiro secretário-executivo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SINDJORS) e responsável pelo Núcleo de Delegacias Regionais, a discussão sobre formação está diretamente ligada ao direito social à informação e às condições concretas de exercício da profissão. Ao defender a retomada da exigência, ele relaciona a valorização profissional à necessidade de enfrentar a precarização do trabalho, a desinformação e o enfraquecimento da formação jornalística, especialmente fora dos grandes centros.[43]
É a posição de uma entidade sindical e deve ser compreendida como tal. Mas toca num ponto que os dados encontrados ao longo desta reportagem ajudam a sustentar por outro caminho: discutir formação sem discutir condições de trabalho, financiamento, pluralidade, acesso à informação e capacidade de produzir Jornalismo seria reduzir uma crise estrutural a uma credencial.
Por isso, depois de 17 anos, a discussão sobre o diploma talvez seja mais importante quando deixa de ser apenas uma discussão sobre o diploma.
Começamos defendendo um diploma. Terminamos defendendo uma profissão. Defender essa profissão significa também defender as condições para que a sociedade tenha acesso à informação investigada, verificada e contextualizada, produzida com responsabilidade e submetida permanentemente ao confronto dos fatos.
O Jornalismo não é dono da verdade nem pode oferecer garantias de alcançá-la, mas tem a obrigação de procurá-la com método, independência e compromisso público. É nessa busca, necessariamente imperfeita e sujeita à crítica, que reside uma parte essencial de sua contribuição para a democracia.
FONTES PARA CHECAGEM — CAPÍTULO 6
[36] CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO / CÂMARA DE EDUCAÇÃO SUPERIOR. Resolução CNE/CES nº 1, de 27 de setembro de 2013 — Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Jornalismo, bacharelado, e dá outras providências.
O que comprova: estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Jornalismo e define sua estrutura formativa, incluindo integração entre teoria e prática, formação profissional e competências relacionadas à investigação, tratamento da informação, interesse público, diferentes linguagens, tecnologias e princípios éticos.
[37] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM JORNALISMO (SBPJor). Redes de Pesquisa.
O que comprova: existência de redes e produção científica especializada dedicadas ao estudo do Jornalismo em diferentes dimensões.
[38] COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR (CAPES). Documento da Área de Comunicação e Informação — ciclo avaliativo 2025–2028.
O que comprova: inserção institucional da pesquisa em Comunicação e Informação no sistema brasileiro de pós-graduação e avaliação científica.
[39] FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS (FENAJ). Carta Circular nº 30/2026, de 21 de agosto de 2026.
O que comprova: atuação da FENAJ desde 2025 para recolocar a formação profissional na agenda do STF e posição da Federação de que liberdade de expressão não se confunde com exercício profissional do Jornalismo. Documento fornecido à reportagem e incorporado ao arquivo de apuração.
[40] FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Estudo sobre desinformação e notícias falsas relacionadas à vacinação.
O que comprova: análise de 80 conteúdos de desinformação, proporção de conteúdos integralmente falsos e emprego de supostos especialistas e autoridades como recursos de credibilidade.
[41] CADERNOS DE SAÚDE PÚBLICA / ENSP-FIOCRUZ. Estudo sobre circulação e engajamento de conteúdos relacionados à vacinação.
O que comprova: no universo analisado, predominância das interações com conteúdos favoráveis às vacinas e proporção associada a informações falsas, impedindo a generalização de que conteúdos falsos necessariamente alcançam maior circulação.
[42] FONTE ORAL / ENTREVISTA — STELA PASTORE, representante da FENAJ na Região Sul, setembro de 2026.
O que comprova: segundo Pastore, eventual tratamento dos registros profissionais já concedidos sem formação específica dependerá da decisão do STF ou da legislação aprovada pelo Congresso; não existe atualmente regra definida para essa hipótese.
[43] FONTE ORAL / ENTREVISTA — MATEUS AZEVEDO, primeiro secretário-executivo do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SINDJORS) e responsável pelo Núcleo de Delegacias Regionais, setembro de 2026.
O que comprova: posição do dirigente sobre formação profissional, direito à informação, valorização dos jornalistas, precarização, desinformação e necessidade de fortalecimento da profissão. 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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