CAPÍTULO 3 — QUANDO A REDAÇÃO ENCONTROU O ALGORITMO

POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR
O Esquina Democrática nasceu como blog em 2005, quatro anos antes da decisão do STF sobre o diploma. Por isso, seria contraditório contar a transformação digital do Jornalismo apenas como uma história de perdas. A internet reduziu custos de publicação e distribuição, permitiu o surgimento de veículos independentes, aproximou jornalistas de seus públicos e abriu espaços que dificilmente existiriam na estrutura tradicional dos meios de comunicação. Pequenos projetos passaram a publicar sem depender de gráfica, concessão de rádio ou televisão e grandes estruturas empresariais.
Mas essa democratização da publicação veio acompanhada de uma nova dependência. À medida que redes sociais, mecanismos de busca e grandes plataformas digitais se tornaram portas de entrada para as notícias, parte da relação entre jornalistas e público passou a ser mediada por empresas de tecnologia e por sistemas algorítmicos que determinam o que ganha visibilidade, para quem e em que momento.
A transformação chegou ao cotidiano do trabalho. Pesquisa de Nicoletti e Figaro sobre o trabalho jornalístico em contexto de plataformização analisou um recorte de aproximadamente 3,1 mil respondentes que atuavam em mídias digitais, identificando mudanças relacionadas ao trabalho remoto, às condições de produção e à incorporação de atividades associadas às plataformas.[20] O universo analisado é específico e não representa automaticamente todos os jornalistas brasileiros, mas ajuda a compreender como novas tarefas passaram a integrar a profissão.
Entre os profissionais que atuavam em outros campos da comunicação, por exemplo, cerca de 60% declararam realizar atividades relacionadas às redes sociais que originalmente não faziam parte de suas funções.[20] A produção jornalística passou, em muitos ambientes, a conviver com publicação, distribuição, acompanhamento de audiência e adaptação de conteúdo para diferentes plataformas.
QUANDO O LEITOR VIROU UM NÚMERO EM TEMPO REAL
O Jornalismo sempre procurou conhecer sua audiência. Jornais mediam circulação, rádios e televisões acompanhavam pesquisas e empresas observavam vendas e assinaturas. O digital mudou a velocidade e a precisão desse acompanhamento. Hoje uma redação pode saber quase instantaneamente quantas pessoas abriram uma reportagem, quanto tempo permaneceram nela, de onde vieram, em que momento abandonaram a página e quais conteúdos produziram maior circulação.
Pesquisa realizada em redações de Porto Alegre identificou a presença dessas métricas nas rotinas jornalísticas e mostrou que informações sobre audiência podem interferir na escolha, produção e circulação dos conteúdos.[21] Isso não significa que jornalistas simplesmente escrevam aquilo que os números mandam.
Estudo publicado em 2025 pela Brazilian Journalism Research, baseado em entrevistas qualitativas com dez profissionais, encontrou percepções diferentes dentro das próprias redações: repórteres demonstraram maior preocupação com a pressão exercida pelos indicadores de audiência, enquanto editores apresentaram posições mais conciliadoras em relação ao uso dessas métricas.[22]
O tamanho da amostra não permite transformar essas percepções em retrato de toda a profissão. Mas elas revelam uma tensão que passou a fazer parte do trabalho jornalístico: o valor público de uma notícia e seu desempenho algorítmico não são necessariamente a mesma coisa.
Uma investigação importante pode alcançar pouca audiência. Um conteúdo superficial pode circular intensamente. Uma pauta de interesse público pode competir, na mesma tela, com entretenimento, publicidade, desinformação e conteúdos produzidos exclusivamente para capturar atenção.
QUEM ESCOLHE O QUE CHEGA AO LEITOR?
Durante grande parte da história da imprensa, a relação predominante poderia ser representada de maneira relativamente simples: o jornalista produzia, o veículo publicava e o público recebia. Essa cadeia ganhou novos intermediários. Hoje, em grande parte da circulação digital, o percurso se aproxima mais de:
jornalista → veículo → plataforma → sistemas algorítmicos → público.
Isso não significa que o algoritmo determine sozinho o Jornalismo. Pesquisa acadêmica desenvolvida na Universidade de São Paulo sobre plataformização e produção jornalística aponta uma relação mais complexa, na qual sistemas de recomendação, métricas e estratégias de distribuição passam a participar das rotinas e dos critérios de circulação, produzindo efeitos sobre autonomia, práticas profissionais e percepção de noticiabilidade.[23]
O jornalista continua escolhendo pautas, entrevistando, investigando, escrevendo e editando. O veículo continua tomando decisões editoriais. Mas uma parte importante da capacidade de alcançar o público passou a depender de estruturas tecnológicas sobre as quais jornalistas e pequenos veículos possuem pouco controle.
Para projetos independentes, essa relação contém uma contradição particularmente evidente. As mesmas plataformas que tornaram possível alcançar públicos muito maiores sem possuir grandes estruturas de distribuição também passaram a controlar uma parte significativa do caminho que leva o conteúdo até essas pessoas.
A internet abriu a porta. Isso não significa que os jornalistas passaram a controlar o corredor.
E ENTÃO CHEGOU A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
A inteligência artificial generativa acrescentou outra camada a essa transformação. Ferramentas atuais conseguem resumir documentos, transcrever entrevistas, traduzir textos, organizar dados, produzir imagens, sugerir títulos e redigir conteúdos em poucos segundos. Algumas dessas tarefas faziam parte, até muito recentemente, de processos necessariamente executados por pessoas.
Mas produzir texto nunca foi suficiente para definir Jornalismo. A atividade começa antes da redação: na escolha do que investigar, na formulação das perguntas, na identificação das fontes, na confrontação das versões, na interpretação dos documentos e na decisão sobre aquilo que possui interesse público. E continua depois da escrita, com edição, correção, contextualização e responsabilidade pelo que foi publicado.
Isso não significa que a inteligência artificial seja exterior ao Jornalismo. Ela já participa de processos de pesquisa, produção e distribuição e provavelmente ocupará espaço cada vez maior. O desafio é compreender em quais tarefas pode ampliar a capacidade do jornalista e em quais decisões não pode substituir julgamento, método e responsabilidade profissional.
A questão deixa, portanto, de ser simplesmente se uma máquina consegue escrever uma notícia. Sim, consegue.
A pergunta relevante é o que transforma um conteúdo produzido com auxílio de uma máquina em Jornalismo. Voltaremos a ela no capítulo final.
Antes, porém, a transformação digital nos levou a outro paradoxo. Nunca houve tantos meios para publicar, distribuir e encontrar informação. Mesmo assim, milhões de brasileiros vivem em municípios nos quais praticamente não existe produção jornalística local. A tecnologia reduziu radicalmente a dificuldade de publicar. Não resolveu a dificuldade de manter jornalistas trabalhando onde a informação é necessária.
FONTES PARA CHECAGEM — CAPÍTULO 3
[20] NICOLETTI, Janara; FIGARO, Roseli. Estudo sobre trabalho jornalístico e plataformização.
O que comprova: análise do recorte de profissionais que atuavam em mídias digitais, transformações nas condições de trabalho e incorporação de atividades ligadas às plataformas e redes sociais.
[21] ESTUDOS EM JORNALISMO E MÍDIA / UFSC. Pesquisa sobre métricas de audiência e rotinas jornalísticas em redações de Porto Alegre.
O que comprova: utilização de métricas digitais nas redações pesquisadas e sua presença nos processos de decisão e produção jornalística.
[22] HARTMANN, Marcel; FURTADO, Thaís Helena. Diferenças nas percepções de repórteres e editores brasileiros sobre o uso de métricas de audiência em redações jornalísticas. O que comprova: estudo qualitativo baseado em entrevistas em profundidade com dez jornalistas de grandes redações brasileiras. No universo pesquisado, os repórteres apresentaram percepção mais crítica sobre a pressão exercida pelas métricas de audiência, enquanto os editores demonstraram postura mais conciliadora em relação ao uso desses indicadores. Brazilian Journalism Research, v. 21, n. 2, 2025. DOI: 10.25200/BJR.v21n2.2025.1738. ARTIGO OFICIAL — BRAZILIAN JOURNALISM RESEARCH
[23] UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP). Pesquisa sobre plataformização, algoritmos e produção jornalística.
O que comprova: discussão dos efeitos da mediação por plataformas e sistemas algorítmicos sobre rotinas, circulação, critérios de noticiabilidade e autonomia jornalística.
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