CAPÍTULO 1 — A PRIMEIRA SURPRESA: O DIPLOMA CAIU, A FORMAÇÃO NÃO
POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR

A retirada da obrigatoriedade do diploma em 2009 poderia ter produzido uma consequência aparentemente lógica: se a formação específica deixou de ser necessária para obter o registro profissional, seria razoável imaginar que ela também perderia importância entre aqueles que escolheram exercer o Jornalismo. Foi essa hipótese que fomos verificar.
O Perfil do Jornalista Brasileiro 2021, pesquisa nacional coordenada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), reuniu 7.029 respostas e manteve 6.650 questionários após o tratamento da base. Entre os participantes, 98,3% estavam cursando uma graduação, possuíam ensino superior completo ou formação acima da graduação.[9]
O dado mais revelador apareceu quando a pesquisa perguntou especificamente sobre a área de formação. Houve 3.027 respostas válidas e, entre elas, 2.849 — 94,1% — indicaram Jornalismo ou Comunicação Social com habilitação em Jornalismo.[9] O percentual precisa ser lido corretamente. Não significa que 94,1% dos 6.650 participantes da pesquisa fossem formados em Jornalismo. Refere-se aos que responderam àquela questão específica, na qual também era possível indicar mais de uma formação.
Ainda assim, o resultado é expressivo. E não apareceu apenas muitos anos depois da decisão do STF. Na primeira edição nacional da pesquisa, realizada em 2012, 89% dos jornalistas pesquisados eram diplomados em Jornalismo.[9] Foi nesse ponto que uma das hipóteses mais intuitivas desta reportagem começou a perder força.
Poderíamos imaginar que, retirada a exigência legal, o mercado passaria progressivamente a prescindir da formação jornalística. Os dados disponíveis não sustentam essa conclusão. Entre os profissionais pesquisados, a formação específica continuou amplamente predominante. Isso não demonstra que a decisão de 2009 tenha sido irrelevante, nem permite concluir que todos os jornalistas brasileiros sejam diplomados. Pesquisas amostrais e registros administrativos observam universos diferentes e não podem ser simplesmente confrontados como se medissem a mesma população.
O que revelam é uma situação bastante particular: o Estado deixou de exigir a formação específica sem que ela deixasse de ocupar lugar central na trajetória dos jornalistas pesquisados.
A UNIVERSIDADE TAMBÉM NÃO ABANDONOU O JORNALISMO
Se os profissionais continuaram procurando formação, restava observar o que aconteceu do outro lado dessa relação: a universidade. Os dados disponíveis indicavam 317 cursos de Jornalismo com turmas ativas em 2010 e 327 em 2020, segundo os levantamentos utilizados nas pesquisas nacionais sobre o perfil profissional.[9] Em abril de 2026, levantamento da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (ABEJ), realizado a partir do sistema e-MEC, registrava 295 cursos ativos: 232 presenciais, 60 a distância e três semipresenciais.[10]
Esses números exigem cautela. As bases, momentos e metodologias dos levantamentos não são necessariamente idênticos e, por isso, não permitem afirmar simplesmente que o país ganhou ou perdeu determinado número de cursos entre 2010 e 2026. Permitem uma conclusão mais segura: a formação universitária específica permaneceu presente em centenas de cursos mesmo depois de deixar de constituir requisito legal para o exercício profissional.
A universidade também continuou produzindo conhecimento sobre Jornalismo. A Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), criada em 2003, reúne pesquisadores e mantém redes dedicadas a diferentes dimensões da atividade, enquanto a Brazilian Journalism Research, periódico científico da entidade disponível na SciELO, publica estudos teóricos e empíricos sobre o campo.[11][12]
A profissão que legalmente passou a poder ser exercida sem graduação específica continuava, portanto, sendo ensinada, pesquisada, criticada e transformada dentro das universidades. Essa constatação modifica a própria pergunta sobre o diploma.
A questão não pode ser simplesmente se uma pessoa sem graduação em Jornalismo consegue escrever uma notícia, entrevistar uma fonte ou publicar uma informação. Evidentemente, consegue. Hoje, instrumentos de produção e distribuição permitem que praticamente qualquer pessoa publique conteúdo e potencialmente alcance milhares ou milhões de outras.
A questão mais interessante é outra: se a sociedade continuou formando jornalistas mesmo quando o Estado deixou de exigir essa formação, que conhecimentos existem dentro de um curso de Jornalismo que os próprios profissionais continuaram buscando?
Voltaremos a essa pergunta no encerramento desta investigação. Antes, porém, havia outra hipótese a testar. Se dezenas de milhares de pessoas puderam obter registro sem formação específica depois de 2009, seria razoável imaginar que a abertura da profissão tivesse retirado empregos dos jornalistas diplomados.
Fomos aos números do mercado de trabalho. E eles também contrariaram a explicação mais simples.
FONTES PARA CHECAGEM — CAPÍTULO 1
[9] UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA (UFSC). Perfil do Jornalista Brasileiro 2021 — Características sociodemográficas, políticas, de saúde e do trabalho. O que comprova: universo de 7.029 respostas e base tratada de 6.650 participantes; escolaridade dos respondentes; predominância da formação específica em Jornalismo em 2021, com 2.849 indicações, equivalentes a 94,1% das respostas válidas à questão sobre área de graduação; e, na síntese da pesquisa de 2012, 89% de jornalistas diplomados em Jornalismo. Relatório completo — Perfil do Jornalista Brasileiro 2021
[10] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO DE JORNALISMO (ABEJ). Levantamento de cursos de Jornalismo no Brasil, consulta ao e-MEC, abril de 2026. O que comprova: existência de 295 cursos ativos identificados pela entidade, sendo 232 presenciais, 60 a distância e três semipresenciais. Cursos de Jornalismo — ABEJ
[11] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM JORNALISMO (SBPJor). Memória e estrutura de pesquisa da entidade. O que comprova: existência de uma organização científica dedicada especificamente à pesquisa em Jornalismo e desenvolvimento continuado de atividades acadêmicas na área. SBPJor — Memórias
[12] BRAZILIAN JOURNALISM RESEARCH (BJR) / SCIELO. Periódico científico da SBPJor. O que comprova: existência de produção científica especializada e continuada dedicada ao estudo teórico e empírico do Jornalismo. Brazilian Journalism Research — SciELO 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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