BRASIL ATINGE MENOR DESEMPREGO DA HISTÓRIA PARA O PERÍODO: POLÍTICAS PÚBLICAS, CRESCIMENTO ECONÔMICO OU UMA COMBINAÇÃO DE FATORES?
- Alexandre Costa

- há 1 dia
- 8 min de leitura
POR ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA

O Brasil registrou, no trimestre encerrado em junho de 2026, uma taxa de desocupação de 5,4%, o menor índice para o período desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), iniciada em 2012. Em relação ao trimestre encerrado em março, quando o desemprego era de 6,1%, houve queda de 0,7 ponto percentual. Na comparação com o mesmo período de 2025 (5,8%), a redução foi de 0,4 ponto percentual. [1]
Os números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) recolocam uma questão no centro do debate econômico e político brasileiro: por que o desemprego continua caindo mesmo em um cenário internacional marcado por juros elevados, desaceleração econômica em diversos países e tensões geopolíticas?
A resposta não pode ser simplificada nem atribuída a um único fator. Os dados apontam para a combinação entre crescimento da atividade econômica, aumento da renda das famílias, expansão do consumo, investimentos públicos e privados, recuperação de setores intensivos em mão de obra e melhora gradual do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, permanecem desafios importantes, como a informalidade, a precarização das relações de trabalho e a necessidade de elevar a produtividade da economia.
A QUEDA DO DESEMPREGO NÃO OCORREU POR REDUÇÃO DA PROCURA POR TRABALHO
Um dos argumentos frequentemente utilizados para relativizar a queda do desemprego é o de que menos pessoas estariam procurando emprego. Os dados da PNAD Contínua, entretanto, mostram um quadro mais complexo.
A população desocupada caiu para 5,9 milhões de pessoas, uma redução de aproximadamente 718 mil trabalhadores em relação ao trimestre anterior (-10,8%). Ao mesmo tempo, o número de brasileiros ocupados chegou ao recorde de 103,1 milhões de pessoas, crescimento de 1,2% no trimestre, equivalente à incorporação de cerca de 1,2 milhão de trabalhadores ao mercado. [1]
Também houve redução do chamado desalento — situação em que pessoas gostariam de trabalhar, mas desistiram de procurar emprego por acreditarem que não encontrariam uma oportunidade. Esse contingente recuou para 2,3 milhões de pessoas, uma queda de 13,7% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. [1]
Outro indicador relevante reforça esse movimento. A taxa de subutilização da força de trabalho — que reúne desempregados, trabalhadores subocupados por insuficiência de horas e pessoas disponíveis para trabalhar, mas fora da força de trabalho — caiu para 12,9%, o menor patamar para o trimestre desde o início da série histórica. Ainda assim, o país contabiliza cerca de 14,7 milhões de brasileiros subutilizados, revelando que existe espaço para novas melhorias no mercado de trabalho. [1]
Esses indicadores sugerem que a redução da taxa de desemprego não decorreu apenas da saída de trabalhadores do mercado, mas foi acompanhada pela efetiva geração de postos de trabalho e pela incorporação de novos ocupados à economia.
O DESEMPREGO VEM CAINDO HÁ MAIS DE UM ANO
O resultado divulgado agora não representa um fato isolado. Em 2025, a taxa média anual de desocupação foi de 5,6%, também a menor desde o início da série histórica da PNAD Contínua. Para efeito de comparação, a taxa média havia sido de 6,6% em 2024; 7,8% em 2023; 9,3% em 2022; e chegou ao pico de 13,2% em 2021, durante os efeitos mais severos da pandemia de Covid-19 sobre o mercado de trabalho. [2]
A trajetória mostra que a recuperação do emprego vem ocorrendo de forma relativamente consistente desde o período pós-pandemia, ainda que em ritmos diferentes conforme o comportamento da economia.
Esse histórico é importante porque reduz a possibilidade de interpretar o resultado atual como mera oscilação estatística. Trata-se de uma tendência que vem sendo consolidada ao longo dos últimos anos, embora sujeita aos ciclos econômicos e às condições internas e externas.
CRESCIMENTO ECONÔMICO EXPLICA PARTE IMPORTANTE DO RESULTADO
Não existe geração sustentável de empregos sem atividade econômica. Quando empresas vendem mais, precisam ampliar a produção. Para produzir mais, contratam trabalhadores, investem em equipamentos, ampliam serviços e movimentam cadeias produtivas inteiras. Esse mecanismo é um dos fundamentos mais conhecidos da economia e ajuda a compreender a evolução recente do mercado de trabalho brasileiro.
Após crescer 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, a economia brasileira manteve expansão em 2025, ainda que em ritmo mais moderado. O desempenho foi impulsionado pelo consumo das famílias, pelos investimentos e pelo crescimento de setores como serviços, comércio, construção civil e indústria de transformação. [3]
Ao mesmo tempo, o rendimento médio real habitual dos trabalhadores alcançou R$ 3.738, valor 2,8% superior ao registrado no mesmo trimestre do ano anterior. A massa de rendimentos — soma de todos os salários pagos no país — atingiu R$ 380,3 bilhões, novo recorde da série histórica. [1]
Esses dois indicadores caminham juntos.
Mais pessoas trabalhando significam mais renda circulando na economia. Mais renda amplia o consumo das famílias. O aumento do consumo estimula empresas a produzir mais, contratar trabalhadores e realizar novos investimentos. Esse movimento cria um ciclo econômico capaz de retroalimentar a geração de empregos.
"É justamente nesse ponto que políticas públicas, como a política permanente de valorização do salário mínimo, os programas de transferência de renda, a expansão do crédito e os investimentos públicos em infraestrutura, passam a influenciar a atividade econômica. Embora não expliquem isoladamente o desempenho do mercado de trabalho, elas ampliam a renda disponível das famílias e fortalecem a demanda por bens e serviços.". [3][4]
ALGUNS SETORES LIDERARAM A GERAÇÃO DE EMPREGOS
A expansão do emprego não ocorreu de maneira uniforme entre todas as atividades econômicas. Segundo o IBGE, o maior crescimento no trimestre foi observado no grupamento de Administração Pública, Defesa, Seguridade Social, Educação, Saúde Humana e Serviços Sociais, que incorporou aproximadamente 489 mil trabalhadores.
Também apresentaram expansão significativa os setores de Transporte, Armazenagem e Correio, responsáveis pela criação de cerca de 235 mil ocupações no período. [1]
Esses resultados ajudam a compreender que parte importante da geração de empregos ocorreu em segmentos fortemente vinculados tanto à expansão dos serviços quanto à atuação direta do Estado na oferta de políticas públicas.
O MERCADO DE TRABALHO MELHOROU, MAS AINDA ESTÁ LONGE DO IDEAL
A queda histórica do desemprego não significa que todos os problemas do mercado de trabalho brasileiro tenham sido resolvidos. Os próprios dados do IBGE mostram que coexistem diferentes formas de inserção no mercado de trabalho. No trimestre encerrado em junho, o país contabilizava 39,4 milhões de empregados do setor privado com carteira assinada, enquanto 13,6 milhões trabalhavam sem carteira. Outros 26,1 milhões eram trabalhadores por conta própria. [1]
Esses números não permitem concluir que todo trabalhador sem carteira ou todo trabalhador por conta própria esteja em situação de precarização. Muitos atuam como profissionais liberais, pequenos empresários ou empreendedores individuais. Entretanto, eles evidenciam que uma parcela significativa dos brasileiros permanece fora das formas tradicionais de proteção trabalhista.
Nos últimos anos, o avanço das plataformas digitais e dos aplicativos de transporte e entrega ampliou o debate sobre a chamada uberização do trabalho. Nesse modelo, parte dos custos, riscos e responsabilidades deixa de ser assumida pelas empresas e passa a recair sobre o próprio trabalhador.
Por isso, uma taxa historicamente baixa de desemprego não significa, necessariamente, que todos os empregos criados ofereçam estabilidade, previdência, férias remuneradas, décimo terceiro salário ou proteção contra acidentes.
Ainda assim, os dados disponíveis indicam que a recuperação recente não foi sustentada apenas por vínculos precários.
Estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, nos doze meses encerrados em fevereiro de 2026, o emprego formal cresceu, em média, 3,6%, enquanto a ocupação informal avançou 0,5%. No mesmo período, a taxa de formalização passou de 61,2% para 62,5%, indicando fortalecimento relativo dos vínculos formais, embora o instituto observe perda gradual de dinamismo na criação de novas vagas formais. [5]
O cenário revela um país que conseguiu ampliar o emprego, mas que ainda enfrenta o desafio de melhorar a qualidade das ocupações e aumentar a produtividade da economia.
EMPREGO, RENDA E REDUÇÃO DA FOME FAZEM PARTE DO MESMO PROCESSO
A evolução recente do mercado de trabalho brasileiro não pode ser analisada isoladamente de outros indicadores sociais. Em julho de 2026, o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo (SOFI 2026) confirmou que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome, mantendo a prevalência de subnutrição abaixo de 2,5% da população, limite utilizado internacionalmente pela Organização das Nações Unidas para caracterizar essa condição. [6]
Embora emprego e segurança alimentar não possuam relação automática, existe uma conexão econômica evidente.
Quando mais pessoas conseguem trabalho, aumenta a renda disponível das famílias. Com maior renda, cresce o consumo de alimentos, medicamentos, vestuário, serviços e bens duráveis. Esse aumento do consumo estimula empresas a produzir mais, investir e contratar novos trabalhadores, formando um ciclo econômico que beneficia diferentes setores.
Nesse processo também exercem influência políticas públicas como a valorização real do salário mínimo, programas de transferência de renda, investimentos públicos, expansão do crédito e aumento da massa salarial.
Por essa razão, indicadores como desemprego, renda e redução da fome costumam evoluir de forma relacionada, ainda que cada um dependa de fatores próprios.
O DESEMPENHO BRASILEIRO NÃO PODE SER EXPLICADO APENAS PELO CENÁRIO INTERNACIONAL
Outro aspecto importante é que a melhora do mercado de trabalho brasileiro ocorreu em um contexto internacional marcado por crescimento moderado da economia mundial. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a América Latina apresentou redução gradual do desemprego nos últimos anos, mas o mundo ainda convive com um déficit expressivo de empregos e desaceleração econômica em diversas regiões. [7]
Isso enfraquece interpretações que atribuem o desempenho brasileiro exclusivamente ao ambiente externo. Da mesma forma, também seria incorreto afirmar que os resultados decorrem apenas da ação do governo federal.
O próprio Ipea observa que fatores demográficos — como mudanças na taxa de participação da população no mercado de trabalho — também influenciaram a evolução recente dos indicadores. Ao mesmo tempo, destaca que a expansão da população ocupada foi determinante para explicar a redução do desemprego. [5]
Os dados disponíveis, portanto, apontam para uma combinação de fatores: crescimento econômico, aumento da ocupação, recuperação da renda, fortalecimento do consumo, investimentos públicos e privados e mudanças na dinâmica demográfica.
O PRÓXIMO DESAFIO É CRIAR EMPREGOS MELHORES
Os indicadores divulgados pelo IBGE representam uma conquista importante para a economia brasileira. A menor taxa de desemprego da série histórica para o trimestre mostra que o país conseguiu recuperar parte significativa do mercado de trabalho perdido durante a pandemia e consolidar uma trajetória de crescimento da ocupação.
O desafio, entretanto, já não é apenas criar vagas.
É criar empregos mais qualificados, melhor remunerados e protegidos, capazes de elevar a produtividade da economia brasileira.
Isso passa por investimentos permanentes em educação, formação profissional, ciência, tecnologia, inovação, infraestrutura e política industrial.
Mais do que reduzir estatísticas de desemprego, trata-se de construir um mercado de trabalho capaz de oferecer melhores condições de vida para milhões de brasileiros.
Também é inevitável que indicadores como emprego, renda e segurança alimentar ocupem espaço central no debate público à medida que o país se aproxima de um novo ciclo eleitoral. Eles não determinam, por si só, o comportamento do eleitorado, mas influenciam a avaliação que a sociedade faz dos resultados econômicos e das políticas implementadas pelos governos.
FONTES PARA CHECAGEM
[1] INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). A taxa de desocupação é de 5,4% e a taxa de subutilização é de 12,9% no trimestre encerrado em junho. Publicado em 30/07/2026. Utilizado para comprovar os dados sobre desemprego, ocupação, desalento, subutilização, rendimento médio, massa de rendimentos e composição do mercado de trabalho.Link: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/47643-a-taxa-de-desocupacao-e-de-5-4-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-12-9-no-trimestre-encerrado-em-junho
[2] INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). PNAD Contínua: em 2025, taxa anual de desocupação foi de 5,6%. Utilizado para a comparação histórica das taxas anuais de desemprego desde o início da série.Link: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45759-pnad-continua-em-2025-taxa-anual-de-desocupacao-foi-de-5-6-enquanto-taxa-de-subutilizacao-foi-14-5
[3] INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE) https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45968-pib-cresce-2-3-em-2025-e-fecha-o-ano-em-r-12-7-trilhoes .
"PIB cresce 2,3% em 2025 e fecha o ano em R$ 12,7 trilhões." Publicado em 3 de março de 2026. Dados sobre a evolução recente do Produto Interno Bruto (PIB) utilizados para contextualizar o crescimento da atividade econômica.
[4] PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei nº 14.663, de 28 de agosto de 2023.
política permanente de valorização do salário mínimo adotada a partir de 2024, baseada na reposição da inflação acrescida do crescimento real do PIB de dois anos antes.
[5] INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Carta de Conjuntura – Mercado de Trabalho (2026). Utilizada para os dados sobre formalização, crescimento do emprego formal, taxa de participação e fatores demográficos.https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/wp-content/uploads/2026/04/260416_cc_71_nota_2_mercado_de_trabalho_abr26.pdf
[6] FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO/ONU). The State of Food Security and Nutrition in the World – SOFI 2026. Utilizado para comprovar a permanência do Brasil fora do Mapa da Fome.https://www.fao.org
[7] ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). World Employment and Social Outlook. Utilizado para contextualizar a situação do mercado de trabalho mundial e latino-americano.https://www.ilo.org
📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
Jornalismo livre e independente






