AURELIO GONZÁLEZ E AS IMAGENS QUE SOBREVIVERAM À DITADURA URUGUAIA
- Alexandre Costa

- há 16 minutos
- 6 min de leitura
POR ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA
Documentário transforma homenagem aos repórteres fotográficos e cinematográficos em um encontro entre cinema, jornalismo, memória e resistência

“O fotógrafo que escondeu e salvou a história” lotou o CineBancários, em Porto Alegre, na noite de segunda-feira (31/8). Antes mesmo do início da estreia brasileira do documentário, a sala de projeção já não comportava o público, enquanto muita gente ainda aguardava do lado de fora. A procura levou os organizadores a realizar uma segunda exibição. [1]
A sessão se transformou em uma celebração da memória por meio de uma bela obra que resgata a extraordinária trajetória do fotojornalista Aurelio González, que enfrentou a ditadura e ajudou a preservar um dos mais importantes registros fotográficos daquele período no Uruguai. [2]
O documentário foi realizado pelos gaúchos Itamar Aguiar, Marco Villalobos, Milton Cougo e Zé Carlos de Andrade, com a colaboração da jornalista uruguaia Amalia Antúnez. Com pouco mais de meia hora de duração, o filme articula jornalismo, fotografia e cinema em uma narrativa capaz de devolver o passado ao presente. [1]
Diante da quantidade de pessoas que não conseguiu entrar, González aceitou permanecer no CineBancários para uma sessão extra, organizada pela produção. Talvez nenhuma homenagem pudesse ser mais adequada a um fotojornalista que dedicou a vida a registrar a história: aos 94 anos, Aurelio viu uma sala de cinema ficar pequena para tanta gente disposta a conhecê-la. [1]
A atividade foi promovida pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS), dentro das comemorações do Dia do Repórter Fotográfico e do Repórter Cinematográfico, celebrado em 2 de setembro, com participação de entidades ligadas ao jornalismo, aos direitos humanos e à preservação da memória. [1]
O HOMEM QUE ESCONDEU A HISTÓRIA
Nascido no Marrocos, então sob domínio espanhol, Aurelio chegou ainda jovem ao Uruguai e fez do país sua pátria. A fotografia entrou quase por acaso em sua vida, mas acabaria determinando sua trajetória. No jornal El Popular, onde se tornou chefe de fotografia, voltou sua câmera para trabalhadores, movimentos sociais, manifestações políticas e para a repressão que acompanhou o avanço do autoritarismo. [2]
Quando o golpe de Estado se tornou iminente, Aurelio tomou uma decisão que atravessaria décadas. O arquivo fotográfico do El Popular foi escondido para impedir que fosse apreendido ou destruído. Recuperado mais de três décadas depois, o acervo reúne 48.626 fotografias, segundo o Centro de Fotografía de Montevideo (CdF), instituição pública responsável por sua preservação. [3]
Aurelio também registrou a greve geral desencadeada em resistência ao golpe de 1973. Suas fotografias documentaram fábricas ocupadas, manifestações e a presença dos militares nas ruas, preservando imagens de acontecimentos que a repressão procurava sufocar. [4]
No CineBancários, ele levou consigo uma pequena lata semelhante às utilizadas para esconder o material. O objeto aparentemente banal tornou-se uma das imagens mais fortes da noite.
Aurelio lembrou que, quando foi interrogado pelos agentes da repressão, perguntaram onde estava o arquivo fotográfico. Encapuzado, mentiu: disse que o material havia desaparecido durante a ação dos militares. Os interrogadores acreditaram e os negativos continuaram escondidos. [5]
A sobrevivência daquele material parece quase improvável: os negativos passaram por esconderijos improvisados e contaram com uma rede de solidariedade até que pudessem ser recuperados.
“Era preciso esconder os negativos para salvar a história”, contou Aurelio ao público. [5]
Marco Villalobos definiu Aurelio como um “militante da imagem”, que acompanhou a transformação de um país reconhecido por sua tradição democrática em uma brutal ditadura.
Para ele, o personagem que inspirou o documentário pode ser resumido de outra maneira: “O cara é um poema vivo”. [5]
AS IMAGENS QUE TAMBÉM CONTAM A HISTÓRIA DO BRASIL
A exibição ganhou outra dimensão no debate realizado com o público. Entre os presentes estava Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), que chamou atenção para uma palavra essencial para compreender Aurelio González.
“Ele não é fotógrafo. Ele é fotojornalista”, afirmou. [5]
Para Krischke, a diferença está justamente no compromisso de Aurelio com os acontecimentos que registrava. Sua câmera acompanhava conflitos sociais, mobilizações populares e episódios decisivos da vida política uruguaia.
O arquivo do El Popular também guarda parte da história brasileira. Entre as imagens preservadas estão registros relacionados ao exílio de João Goulart no Uruguai depois do golpe de 1964. O catálogo do Centro de Fotografía de Montevideo conserva, por exemplo, fotografias dos arredores da residência destinada a Jango no balneário de Solymar, poucos dias depois de sua chegada ao país. [6]
A autoria desses registros é atribuída pelo catálogo aos fotógrafos do El Popular, sem identificação individual do profissional responsável pelas imagens. Por isso, embora Krischke tenha recordado durante o debate a atuação de Aurelio no registro dos exilados brasileiros, não é possível atribuir documentalmente essas fotografias específicas a ele. [5][6]
A memória preservada pelo arquivo, portanto, atravessa fronteiras e também ajuda a reconstruir capítulos da história política do Brasil.
MARCHA DO SILÊNCIO
Outro dos depoimentos mais emocionantes da noite veio de Horácio, que relatou a experiência de ter familiares desaparecidos e de participar, ao lado da esposa, da tradicional Marcha do Silêncio, realizada no Uruguai em memória das vítimas da ditadura. [5]
Ao recordar uma das primeiras vezes em que participou da manifestação, descreveu o momento em que, quase sem qualquer comando, o barulho da multidão deu lugar ao silêncio à medida que a marcha se aproximava. Para ele, caminhar naquele ambiente produziu a sensação de que os desaparecidos também estavam presentes.
O relato dialogava diretamente com aquilo que o documentário acabara de mostrar.
Ditaduras não produzem apenas mortos, presos, torturados e exilados. Produzem ausências. E a disputa pela memória é também uma tentativa de impedir que essas ausências sejam apagadas da história.
UMA SALA OCUPADA PELA MEMÓRIA
A sessão reuniu profissionais de diferentes gerações, dirigentes do SindJoRS e da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), representantes de organizações de memória e direitos humanos e lideranças políticas. Entre os presentes estavam, além de Jair Krischke, o presidente da Associação dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Rio Grande do Sul (AEPPP-RS), Sérgio Bitencourt, o ex-governador Olívio Dutra, os ex-prefeitos Raul Pont e José Fortunati e o vereador Pedro Ruas, entre outros. [5]
Quando escondeu os negativos, Aurelio González não poderia saber o destino que aquelas imagens teriam. Muito menos imaginar que, décadas depois, estaria em Porto Alegre diante de duas sessões de cinema formadas por pessoas interessadas justamente na história que ele ajudou a impedir que desaparecesse.
A pequena lata apresentada ao público talvez explique melhor do que qualquer discurso o que estava em jogo. Dentro de recipientes como aquele sobreviveram imagens que uma ditadura gostaria de apagar.
Aurelio salvou fotografias e, ao salvá-las, preservou uma parte da história. Décadas depois, em uma noite no CineBancários, cinema e jornalismo fizeram essa memória ocupar uma sala até, literalmente, não caber mais ninguém.
FONTES PARA CHECAGEM
[1] CINE NEWS POA / EXTRA CLASSE / SINDJoRS — estreia brasileira de “O fotógrafo que escondeu e salvou a história”. Utilizadas para comprovar: realização da atividade em 31 de agosto no CineBancários; estreia brasileira; presença de Aurelio González; idade do fotojornalista; lotação e realização de sessão extra; informações sobre a produção do documentário e entidades envolvidas na atividade.
LINKS: CineNewsPoa — cobertura da sessão:
Extra Classe — divulgação da estreia:
[2] CENTRO DE FOTOGRAFÍA DE MONTEVIDEO (CdF) — Aurelio González / Diario El Popular.
Utilizada para comprovar: atuação de Aurelio González como fotojornalista do El Popular, sua condição de chefe de fotografia e a importância do acervo para documentar o avanço do autoritarismo, as mobilizações sociais e a ruptura institucional no Uruguai.
[3] CENTRO DE FOTOGRAFÍA DE MONTEVIDEO (CdF) — “Fotografías del diario El Popular”. Utilizada para comprovar: ocultação do arquivo em 1973 diante da iminência do golpe de Estado; recuperação do material entre janeiro e março de 2006; custódia pelo Centro de Fotografía; dimensão do fundo, composto por 48.626 fotografias.
Documento do CdF sobre o acervo:
[4] CENTRO DE FOTOGRAFÍA DE MONTEVIDEO (CdF) — “Huelga General de 1973”, de Aurelio González.
Utilizada para comprovar: cobertura realizada por Aurelio da greve geral convocada contra o golpe de Estado de 1973 e seus registros da resistência organizada e da presença militar durante aquele período.
[5] DEPOIMENTOS REGISTRADOS DURANTE O CINE-DEBATE NO CINEBANCÁRIOS — Porto Alegre, 31 de agosto de 2026.
Fonte primária da reportagem. Utilizada para as declarações de Aurelio González, Marco Villalobos, Jair Krischke e Horácio, além das observações presenciais sobre público, convidados e acontecimentos durante a atividade.
[6] CENTRO DE FOTOGRAFÍA DE MONTEVIDEO (CdF) — Catálogo de Fotografias / Série Diario El Popular.
Utilizada para comprovar: existência no Fundo El Popular de registros relacionados ao exílio de João Goulart no Uruguai após o golpe de 1964. O catálogo atribui a autoria aos “fotógrafos do Diario El Popular”, sem identificar individualmente Aurelio González como autor das imagens citadas.
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