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AMARELO DE EMICIDA

por Nora Prado (*)

No feriado de Páscoa tive o grande prazer de assistir ao documentário AmarElo – É Tudo Pra Ontem de Fred Ouro Preto sobre a produção musical de Emicida, rapper, compositor e cantor brasileiro. Alternando cenas do show no Teatro Municipal de São Paulo com outras na casa do compositor, no estúdio com convidados e na casa da sua mãe, o filme narra a trajetória singular de um preto pobre da periferia paulista que alcançou o estrelato e o status de celebridade onde muitos não tiveram a mesma sorte.


Natural do Bairro Jardim Cachoeira na Zona Norte paulistana, ele estaria fadado a ser mais um órfão de pai alcoólatra aos seis anos de idade e filho de mãe arrimo de família com mais duas irmãs e um irmão. Habituado com a violência desde cedo, sua avó foi morta pelo próprio avô, numa sequência de tragédias onde a dor foi matizando um cotidiano cinzento de miséria e desesperança. Sua história de vida, semelhante à de milhões nas periferias brasileiras, em nada difere de seus semelhantes condenados a uma vida sem acesso a educação de qualidade, segurança e vida cultural digna.


O seu trunfo foi ter conseguido transformar dor, miséria e opressão em estética de versos e rimas onde traduz o cotidiano pobre de recursos, mas potente de consciência e anseio por justiça e igualdade social.


Com sua lábia afiada, Leandro Roque de Oliveira, vulgo Emicida, foi se destacando entre os seus pares nas batalhas de improvisações do universo hip hop. Sua primeira grande aparição na mídia foi com o single Triunfo acompanhado de um vídeo clipe com mais de 8 milhões de visualizações no YouTube. Seu trabalho de estreia, em 2009, pela gravadora independente Laboratório Fantasma foi um mixtape de cinco faixas intitulada Pra quem já mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe. Em fevereiro de 2010 o segundo trabalho veio em forma de EP com o título Sua Mina Ouve Meu Rap tamém. Neste mesmo ano lançou o mixtape Emicídio junto com o single homônimo. Desde então sua carreira decolou e ele atuou como repórter nos programas Manos e Minas da TV Cultura e no Sangue B da MTV. Em 2015 lançou o álbum Sobre Crianças, quadris, Pesadelos e lições de Casa que lhe rendeu uma indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música Urbana.


Atualmente Emicida é um dos convidados permanentes que junto a Fábio Porchat, João Vicente e João Bosco apresentam o programa semanal Papo de Segunda pelo GNT. Articulado e bem-posicionado mais à esquerda do espectro político, Emicida se destaca pelo pensamento crítico e apoio às causas de relevância social e cultural enfatizando a necessidade de abrir mais espaço midiático para a juventude da periferia.


Um dos braços ativos pela inclusão social, além da música, está na Grife de roupas Laboratório Fantasma criada pelo compositor. A grife responde ativamente no setor causando grande influência e promovendo uma identidade racial para os jovens pretos e pretas.


Tudo isso vem a reboque de maneira subliminar ao longo desse filme lindo que retrata o espírito inquieto e revolucionário de uma das grandes vozes da música contemporânea brasileira e que, certamente, ainda dará maior relevo e espaço para a juventude negra brasileira.


A escolha do Teatro Municipal para a gravação do show não foi aleatória, mas sim como forma de resgatar o que a elite branca deve aos negros, por centenas de anos de serviços prestados pelas mãos escravizadas que ergueram a nossa nação e nunca se sentaram a mesa para comemorar os seus feitos.


Assim como a plateia constituída de maioria negra, os artistas no palco também honram a gênese da qual fazem parte, assim como os figurinos da Laboratório Fantasma, faz jus ao seu criador conferindo uma estética moderna e despojada típica do movimento hip hop do qual também se origina.


Dividido em três partes, Plantio, Regar e Colher, o documentário se debruça sobre uma das figuras mais interessantes da nova geração de artistas da música brasileira e mostra quanta potência e fluência para dialogar com grande parte dos excluídos de nossa sociedade racista e homofóbica. Um belo panorama sociocultural com o qual temos muito a aprender e com quem diz poesia com originalidade aquilo que pulsa na rua, nas quebradas e nos becos sombrios do nosso país através de sua luminosidade contagiante. Uma possibilidade de elo amarelo, girassol a ser cultivado com respeito e amor por todos nós.


Porto Alegre, 8 de abril de 2021.


* Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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