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"A VOZ DE HIND RAJAB" E A REALIDADE CRUEL DO GENOCÍDIO EM GAZA

Nesta quarta-feira (11/2), a Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, terá a última sessão de A Voz de Hind Rajab, às 14h45min. Quem ainda não assistiu, esta é uma ótima oportunidade para conferir o filme.

Dirigido pelo cineasta tunisiano Kaouther Ben Hania, o filme estreou em 29 de janeiro e se tornou um dos títulos mais comentados do circuito recente. No Festival de Cinema de Veneza, venceu o Leão de Prata e entrou para a história do evento ao receber uma ovação de pé de 23 minutos — um feito raríssimo. Agora, disputa uma vaga na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional, em uma temporada especialmente politizada do cinema mundial.

O impacto do filme não vem de efeitos especiais ou de encenações grandiosas. “A Voz de Hind Rajab” reconstrói, com rigor e respeito, a história real da morte de Hind Rajab, uma menina palestina de 5 anos, assassinada em 29 de janeiro de 2024, durante a ofensiva israelense em Gaza.

Hind viajava com quatro primos e dois tios, ao norte da Cidade de Gaza, seguindo instruções de evacuação emitidas pelas forças israelenses. O carro da família foi atingido. Os tios e três primos morreram. Apenas Hind e Layan, uma prima de 15 anos, sobreviveram inicialmente.

Layan conseguiu ligar para o Crescente Vermelho Palestino, pedindo socorro. Pouco depois, o veículo foi atingido novamente. Layan morreu. Hind ficou sozinha, ferida, presa no carro, cercada pelos corpos dos parentes.

O coração do filme está nas gravações reais das conversas entre Hind e os atendentes do Crescente Vermelho. Por cerca de três horas, a menina implora por ajuda, enquanto os socorristas tentam acalmá-la e explicam que a ambulância está a caminho. Em determinado momento, os paramédicos revelam que estão a apenas oito minutos do local — mas não podem avançar sem autorização das forças israelenses.

Quando a liberação finalmente é concedida, os socorristas partem. A ambulância nunca chega a Hind. O desfecho não é feliz — nem no filme, nem na Gaza real. A voz da menina vai ficando mais fraca, até desaparecer. É impossível sair do filme ileso.

NÚMEROS QUE NÃO CABEM NA TELA

O filme se insere no contexto da guerra iniciada após o ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, que deixou cerca de 1.200 israelenses mortos, a maioria civis.

Desde então, a ofensiva israelense sobre a Faixa de Gaza provocou uma das maiores catástrofes humanitárias do século XXI. Dados consolidados por organismos internacionais e autoridades de saúde locais indicam:

  • Mais de 73 mil pessoas mortas em Gaza

  • Mais de 20 mil crianças entre as vítimas

  • Dezenas de milhares de feridos, muitos com sequelas permanentes

  • Colapso quase total do sistema de saúde, saneamento e abastecimento de água

  • Ataques recorrentes a áreas civis, escolas, hospitais e equipes de resgate

No próprio filme, um dos funcionários do Crescente Vermelho mostra imagens de paramédicos mortos em serviço, lembrando que pedir “luz verde” para resgates, em muitos casos, significa esperar enquanto pessoas morrem.

CINEMA, MEMÓRIA E RESPONSABILIDADE

“A Voz de Hind Rajab” não é apenas um documentário sobre uma tragédia individual. É um ato de memória, um registro que confronta o espectador com a dimensão humana dos números e com a pergunta que atravessa todo o filme: quantas vozes como a de Hind se perderam sem jamais serem ouvidas?

Mesmo depois de sair do cinema, depois que as luzes acendem, é difícil se desprender da voz de Hind Rajab.

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