A HISTÓRIA DAS PRIVATIZAÇÕES E O RISCO DE REPETIR O MESMO ERRO COM A TRENSURB (PARTE I)
- Alexandre Costa

- 25 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de fev.

Por quatro décadas, o Brasil tem sido palco de um dos maiores e mais controversos experimentos de desestatização do mundo. Desde o início tímido dos anos 1980 até o radicalismo privatista consolidado entre 1995 e 2002, passando pelas concessões reguladas nos governos Lula e Dilma e retomando força no ultraliberalismo de Temer e Bolsonaro, a venda de empresas públicas moldou profundamente a economia, o Estado e a vida cotidiana da população brasileira [1][2][3].
Hoje, no centro da polêmica, está a Trensurb — uma empresa pública com mais de 40 anos de funcionamento contínuo e considerada essencial para a mobilidade metropolitana do Rio Grande do Sul. A simples manutenção da empresa no Plano Nacional de Desestatizações reacendeu o alerta entre metroviários, usuários, especialistas e defensores do serviço público [4].
Não é exagero. O Brasil já assistiu ao mesmo roteiro diversas vezes: tarifas mais altas, serviços piores, abandono de regiões menos lucrativas, demissões, terceirização e perda de soberania sobre setores estratégicos [5][6][7].
Esta matéria reconstrói a história das privatizações no Brasil e explica por que a ameaça à Trensurb é mais do que um risco regional: é a repetição de erros históricos que custaram bilhões aos cofres públicos [3][5].
1. O nascedouro das privatizações: década de 1980 e a imposição internacional
As privatizações no Brasil não nasceram de debate público. Elas surgiram em meio ao colapso econômico da década de 1980, marcada por:
• hiperinflação [8]
• dívida externa explosiva [9]
• recessão
• pressões diretas do FMI e do Banco Mundial por reformas liberalizantes [9][10]
A receita era conhecida: encolher o Estado, abrir mercados e vender patrimônio público.
Era o Consenso de Washington em sua forma mais pura. E suas promessas — eficiência, modernização, competitividade — não se confirmaram [3].
2. Sarney abre a porta. Collor escancara
Sarney iniciou o debate, mas quem realmente empurrou o Brasil para o programa de desestatizações foi Fernando Collor. Em 1990, Collor criou o Programa Nacional de Desestatização (PND) [1].
A primeira grande operação foi a venda da Usiminas, apresentada como modernização da indústria — mas seus efeitos incluíram:
• desindustrialização acelerada
• oligopólios privados• aumento de tarifas [6][8]
• perda de autonomia produtiva
O processo foi marcado por pressa, falta de transparência e forte influência do mercado financeiro [3].
3. Itamar dá continuidade. FHC leva ao extremo
A privatização da CSN no governo Itamar abriu caminho para o maior ciclo de privatizações da história brasileira: o governo Fernando Henrique Cardoso.
Entre 1995 e 2002, foram privatizadas 125 empresas públicas — o maior pacote de desestatizações da América Latina [1][3].
Exemplos emblemáticos do período
Vale do Rio Doce (1997)
• Vendida por R$ 3,3 bilhões [3][11]• Estudos mostravam subavaliação de até 12 vezes [3]• Reservas minerais gigantescas não contabilizadas [3]• Lucros pós-privatização ultrapassam centenas de bilhões [11]• Mariana (2015) e Brumadinho (2019): 289 mortos sob gestão privada [12]
Telebras (1998)
• Dividida em 12 empresas [13]• Tarifa subiu 471% acima da inflação nos anos 1990 [8][13]• Campeã de reclamações por quase uma década [13]
Setor elétrico (1997–2002)
• Privatização de geradoras e distribuidoras [14]• Apagões de 1999 e racionamento de 2001 atingiram 90% da população [15]• Tarifas subiram acima da inflação por décadas [14][8]
Embraer (1994)
• Privatização híbrida [3]• Dependência tecnológica externa aumentou [3]
Todos esses processos foram criticados por sindicatos, economistas e ex‑técnicos do BNDES [3][11].
4. Temer e Bolsonaro: a retomada agressiva
O golpe de 2016 reativou a agenda privatista. Temer reorganizou programas e acelerou concessões. Bolsonaro e Paulo Guedes radicalizaram:
• Petrobras (subsidiárias) [2]• Eletrobras (privatizada) [14]• Correios [2]• Saneamento (novo marco) [2]
A privatização da Eletrobras é considerada por especialistas o maior retrocesso energético desde os anos 1950 [14].
5. O balanço real das privatizações
O que funcionou:
• expansão da telefonia móvel [13]
O que deu errado (e é comprovado):
• tarifas mais altas [8][14][13] • apagões, falhas e colapsos [15][16] • precarização e terceirização [11] • remessa de lucros ao exterior [11] • abandono de regiões [16] • perda de soberania [3] • dependência internacional [9]
E mais:
• consultorias privadas lucraram milhões [3] • interferência política no BNDES [3] • regras desenhadas para favorecer compradores [3]
O resultado geral foi claro: o Brasil entregou muito e recebeu pouco.
6. Lula e Dilma: concessões, não privatizações
Entre 2003 e 2016, a estratégia mudou:
• concessões reguladas • PPPs • fortalecimento do BNDES como indutor [1]
O patrimônio público estratégico permaneceu estatal.
✅ FONTES – PARTE I
[1] BNDES – Programa Nacional de Desestatização https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/transparencia/desestatizacao
[2] Ministério da Economia – Secretaria de Desestatização (2019–2022) https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/desestatizacao
[3] IPEA – Estudos sobre privatizações e avaliação de ativos https://www.ipea.gov.br/portal/publicacoes
[4] Governo Federal – PND 2021–2024 (inclui TRÊNSURB) https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/desestatizacao
[5] DIEESE – Estudos sobre impactos de privatizações https://www.dieese.org.br/estudosetorial
[6] IBGE – Séries Históricas e Inflação https://www.ibge.gov.br/series-estatisticas
[7] Banco Mundial – Reformas estruturais e privatizações https://documents.worldbank.org/
[8] ANATEL – Estatísticas e histórico pós‑Telebras https://www.anatel.gov.br/setorregulado/dados
[9] FMI – Brasil: reformas e cartas de intenção https://www.imf.org/en/Countries/BRA
[10] Banco Mundial – América Latina: Ajustes estruturais https://documents.worldbank.org/
[11] DIEESE – Privatização da Vale (relatório técnico) https://www.dieese.org.br/estudosetorial
[12] MPF – Informações oficiais sobre Mariana e Brumadinho http://www.mpf.mp.br
[13] ANATEL – Telebras, privatização e evolução tarifária https://www.anatel.gov.br/setorregulado/dados
[14] ANEEL – Dados e histórico da Eletrobras e distribuidoras https://www.aneel.gov.br/aplicacoes
[15] ONS – Apagões 1999 e racionamento 2001 https://www.ons.org.br/Paginas/energia-no-brasil/historicooperacao.aspx
[16] AGETRANSP – Dados sobre falhas e abandono da SuperVia http://www.agetransp.rj.gov.br/ CONFIRA A PARTE II A DEFESA DA TRENSURB ESTATAL: UM MARCO CONTRA O LUCRO PRIVADO (2024–2025) (PARTE II) CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA
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