A FALÊNCIA, POR PAULO GAIGER*

“Acreditar e saber” é um dos contos de “O papel de parede amarelo”, livro maravilhoso da Charlotte Perkins Gilman. Ela diz que “quando se sabe de alguma coisa, não precisa acreditar”. E segue escrevendo ‘...quanto menos sabemos mais acreditamos, e que quanto mais sabemos menos acreditamos”. Um reformista famoso temia o conhecimento porque os fiéis perderiam a fé, a crença. Sim, podemos acreditar em um deus-pai que nunca vimos e que nunca deu as caras, mas conhecemos o nosso pai de carne e osso e sabemos quem ele é. O primeiro é alimentado pela crença, nada mais. O segundo trabalha, ama, ri, beija, abraça, chora. A fé prescinde do saber. Crianças acreditam na fada do dente, no papai Noel e no coelho da páscoa, fantasias que nada têm de mal e passam; enquanto adultos acreditam em um deus vigilante, criador de tudo, em um Jesus ressuscitado e na virgindade de sua mãe. Fantasmagorias que se levadas a sério causam um mal danado, sobretudo porque tiram a responsabilidade de quem pratica alguma guerra, alguma injustiça. Durante muito tempo, acreditou-se, em nome de deus, que negras, indígenas e mulheres eram inferiores e eram pousada do demônio. Atribui-se às lgbtqiapn+ um desvio, uma doença por simplesmente se acreditar nessas iniquidades. A isso tudo se pode denominar como ideologia do controle dos corpos, das subjetividades e das escolhas. Existe um abismo entre pensamento livre e autônomo e crença. A crença, a fé são nutridas e renovadas pelo medo. O deus dos neopentecostais, dos bispos evangélicos ricaços, do cristianismo é, como todos os deuses, fruto da fantasia. Contudo, ele se configura onipresentemente pelo temor que os fiéis são convencidos a sentir. É obrigatório acreditar e atemorizar-se. A dita salvação só pode ser individual porque a relação de pavor é íntima, o crente e o deus que lhe foi introjetado. Todavia, a conversão tem que ser de todos e, por isso, todo crente é um escolhido pelo senhor para esta tarefa divina. Decorre daí a indisposição destas igrejas com movimentos sociais e alternativas comunitárias comprometidas com ações para mudar e melhorar a vida de todas e todos, sem vínculos com a religião. A igreja católica, através dos jesuítas, franciscanos, dominicanos entre tantos, destruiu as experiências humanas coletivas e matriarcais africanas e ameríndias quando da invasão e colonização dos dois continentes. Hoje, mais do que nunca, em nome do senhor e de deus, se pode mentir, roubar, violentar, perseguir, destruir, jogar populações na miséria para construir o reino aqui mesmo para esperar a volta do salvador. Uma doidera, mas se acredita. O cristianismo, com sua nova roupa fascinante do cristofascismo, chutou o balde do nazareno e o próprio nazareno. Agora é a fé empreendedora que estende seus tentáculos a todos os âmbitos humanos e públicos, contaminando a educação, a cultura, a mídia, a política, a economia, a família, a religião, a justiça. Este é o projeto, já em curso, da teologia do domínio, na qual deus é o grande governador das nações. Todos os governos devem sujeitar-se à lei divina traduzida por pastores bilionários e seus exércitos de Cristo. É proibido saber e discordar, é obrigatório acreditar e ter medo. O lema usado pelo ex-presidente e golpista, Jair Bolsonaro, já antecipava isso: "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Não muito diferente de “Brasil, ame-o ou deixe-o”, slogan do período Médici, o mais violento, corrupto e covarde da ditadura. Essa junção de podres abençoados por um deus inventado para dar sustento divino à barbárie (como na época das invasões) é que faz com que tantos brasileiros, entre crentes e donos da má fé, apoiem a ignomínia e as facções representadas por Flávio Bolsonaro. Todas as mentiras e calúnias disseminadas pelo seu pai, pelos irmãos e pela caterva ao seu lado não são reconhecidas, ninguém pede desculpas porque são necessárias para construir o reino que virá. Provavelmente com os apóstolos do PCC e do CV. Os recortes que os implementadores da teologia do domínio fazem de trechos da bíblia são cuidadosamente escolhidos para convencer os crentes de que a riqueza, a meritocracia e o poder nas mãos de alguns são uma bênção de deus. O rei Davi foi um assassino e canalha. Contudo, foi o escolhido por deus. Algum bispo evangélico disse algo sobre Flávio Bolsonaro, usando o exemplo de Davi: era assassino, mas foi o escolhido. Toda a vileza está perdoada por esse deus e, em razão disso, o candidato fascista pode mentir, negociar com milicias, chafurdar com banqueiros ladrões, participar de orgias, ser um mal caráter. É preciso acreditar que deus está com ele. Não tem que saber. No chorume desta mediocridade, a derrota da empatia e da compaixão, valores do nazareno marginalizado. Os bolsonaristas não têm nenhum sentimento humano pelos 700 mil mortos na pandemia; nenhuma solidariedade com Marielle Franco, nada de nada, um vazio. A falência humana deste país.* * Paulo Gaiger é artista, cronista. CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA
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