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"DOUTOR ARAGUAIA" E O DEBATE SOBRE A RECONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA E O FUTURO DA DEMOCRACIA

há 1 hora
4 min de leitura

POR ALEXANDRE COSTA | WWW.ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR


Documentário apresentado no Cine Bancários, na noite de segunda-feira (28/9), resgata a história do médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho, morto na guerrilha do Araguaia, e provoca debate sobre temas relacionados à ditadura militar.


Lançado em novembro de 2024, o filme de 88 minutos, reconstrói a trajetória do médico de São Leopoldo formado pela UFRGS, onde foi presidente do centro acadêmico da Faculdade de Medicina, e da União Estadual dos Estudantes (RS). Perseguido pelo serviço de inteligência do III Exército desde 1964, João Carlos se instalou na beira do Tocantins. Em 1967, estava no sul do Maranhão, na cidade de Porto Franco, abrindo um consultório para atendimento à população pobre da cidade e a moradores de cidades vizinhas. Dirigido por Edson Cabral e roteirizado por Sônia Haas, o documentário mostra o caminho do médico gaúcho que foi um dos primeiros militantes a chegar à região do Araguaia, em julho de 1969 [2][3].


Após a exibição de Doutor Araguaia foi realizado um debate com a participação de Sônia Haas, irmã do médico gaúcho; do procurador da República Enrico de Freitas, do Ministério Público Federal (MPF) e do historiador Raul Carrion (PCdoB). A atividade foi coordenada pelo presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) Dr. Juca [1], Carlos Daniel Vieira, que é estudante de Medicina, e ressaltou o orgulho de representar uma entidade que carrega no seu nome uma homenagem ao Doutor Juca.


PROCESSO DE ENRAIZAMENTO

Raul Carrion abriu o debate, citando o documento "Guerra Popular: o caminho da luta armada no Brasil", do Comitê Central do PCdoB, publicado em janeiro de 1969, que define o foquismo como "concepção voluntarista" e "puramente militar" da revolução [6]. Para o historiador, a Guerrilha do Araguaia nada tinha de "foco": os primeiros militantes chegaram à região em 1966, seis anos antes do início dos combates, num processo de enraizamento junto a posseiros, pequenos comerciantes e caçadores — entre eles, segundo ele, João Amazonas, Maurício Grabois e o próprio Haas [13].


"NÓS VENCEMOS"

Para Carrion, a guerrilha foi "a forma mais elevada de resistência" aos 21 anos de autoritarismo. Na sua avaliação a guerrilha não saiu derrotada, pelo contrário, foi uma ação importante na acumulação de resistência que levaram à derrota eleitoral da ditadura militar em 1974 e à campanha das Diretas Já. E citou o próprio Haas: "nenhum sacrifício será em vão" [13].


TRANSIÇÃO OU TRANSAÇÃO?

Um dos temas mais instigantes do debate se deu a partir da visão de que a Lei da Anistia, aprovada em 28 de agosto de 1979, não foi uma transição e sim uma transação imposta pela correlação de forças e que é responsável pela impunidade aos crimes cometidos pelos agentes do estado. No plano jurídico, o procurador da República Enrico de Freitas lembrou que o STF ainda não julgou a tese de que o desaparecimento forçado é crime permanente — tese acolhida no voto do ministro Flávio Dino, cujo julgamento foi interrompido em fevereiro de 2026 [11][12].


O procurador citou o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), no valor de R$ 36,3 milhões, firmado em setembro de 2020 pela Volkswagen do Brasil com o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) e o Ministério Público do Trabalho (MPT). Foi o primeiro do gênero no país e se deu em função da cumplicidade da Volkswagen do Brasil com a repressão e a participação de empresas na ditadura [10][13]. Enrico de Freitas lembrou que o próprio Ministério Público da época da guerrilha "participava dos falsos processos contra os militantes"; e que após a Constituição de 1988, tornou-se "uma instituição de luta por direitos humanos" [13].


A BUSCA CONTINUA

Sônia Haas devolveu o debate ao ponto de partida: a procura incansável pelo corpo dos desaparecidos. Ela relatou que há mais de meio século a família mantém um processo contra a União e que foi necessário recorrer a instâncias internacionais. “A certidão corrigida veio, mas os restos mortais continuam desaparecidos. Sempre foi difícil, até mesmo de ser ouvida. Sempre precisamos gritar muito", explicou, criticando inclusive a atual gestão do governo federal. “Até quando esse governo que se diz de esquerda vai protelar isso?”, questionou Sônia, afirmando que não existe vontade política para resolver esse assunto" [13].


A MEMÓRIA PARA O FUTURO

O encontro acontece num momento em que a memória da ditadura retorna ao cinema: "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, conquistou o primeiro Oscar do Brasil em 2025, e "Honestino", de Aurélio Michiles, estreou nos cinemas em agosto de 2026 [7][8][9] — às vésperas de um primeiro turno eleitoral que os próprios debatedores descreveram como decisivo para o futuro do país.


O que o debate no Cine Bancários mostrou é que a disputa não é apenas sobre o passado: é sobre qual narrativa da ditadura — e de sua impunidade — vai orientar o presente. A família de João Carlos Haas Sobrinho segue sem os restos mortais e o Brasil ainda não julgou ou puniu torturadores e assassinos pelos crimes bárbaros cometidos durante os anos de chumbo.



Fotos: Alexandre Costa FONTES PARA CHECAGEM [1] ✅ Cartaz oficial do evento (arquivo da reportagem) — local, data, horário, debatedores, coordenação e financiamento. [2] ✅ Portal do Cinema Gaúcho — Cinemateca Paulo Amorim: ficha técnica do filme.  https://www.cinematecapauloamorim.com.br/portaldocinemagaucho/2355/doutor-araguaia-a-historia-de-joao-carlos-haas-sobrinho [3] ✅ IHU Unisinos (08/11/2024): entrevista com Sônia Haas — trajetória, perseguição em 1964, chegada ao Araguaia em 12/7/1967.  https://ihu.unisinos.br/categorias/645798-doutor-araguaia-retrata-vida-e-morte-de-joao-carlos-haas-sobrinho [4] ✅ Memorial de Mortos e Desaparecidos Políticos: biografia, morte em 30/9/1972, Relatório Arroyo, condição de desaparecido político. https://memoriasdaditadura.org.br/personagens/joao-carlos-haas-sobrinho [5] ✅ Brasil de Fato (05/12/2025): família recebe certidão de óbito corrigida após 53 anos.  https://www.brasildefato.com.br/2025/12/05/familia-de-medico-gaucho-morto-pela-ditadura-recebe-certidao-de-obito-corrigida/ [6] ✅ Marxists Internet Archive: "Guerra Popular: o caminho da luta armada no Brasil", CC do PCdoB, janeiro de 1969. https://www.marxists.org/portugues/tematica/1969/01/luta.htm [7] ✅ Agência Brasil (10/10/2025): filme "Honestino", de Aurélio Michiles, estreia no Festival do Rio. https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2025-10/filme-honestino-emociona-em-estreia-mundial-durante-festival-do-rio [8] ✅ Estadão (12/08/2026): "Honestino" chega aos cinemas em 13/08/2026.  https://www.estadao.com.br/cultura/cinema/honestino-retrata-historia-de-lider-estudantil-morto-pela-ditadura-todo-mundo-tem-um-pouco-dele [9] ✅ Agência Brasil (03/03/2025): "Ainda Estou Aqui" vence o Oscar de melhor filme internacional.  https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2025-03/ainda-estou-aqui-vence-oscar-de-melhor-filme-estrangeiro [10] ✅ MP-SP (23/09/2020): TAC Volkswagen — R$ 36,3 milhões por cumplicidade com a repressão. https://mpsp.mp.br/w/volkswagen-assina-acordo-com-minist%C3%A9rio-p%C3%BAblico-sobre-repress%C3%A3o-na-ditadura [11] ✅ ConJur (13/02/2026): STF interrompe julgamento sobre aplicação da Lei de Anistia a crimes permanentes; voto de Flávio Dino.  https://conjur.com.br/2026-fev-13/stf-interrompe-julgamento-sobre-aplicacao-de-lei-de-anistia-para-crimes-permanentes [12] ✅ STF Notícias (11/03/2026): processos sobre desaparecimento forçado serão julgados em sessão presencial. https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/processos-sobre-desaparecimento-forcado-de-pessoas-na-ditadura-militar-serao-julgados-em-sessao-presencial CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA

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