A DÍVIDA DO BRASIL COM OS DESAPARECIDOS DA DITADURA - 1ª PARTE - FAZER OS OSSOS FALAREM
- Alexandre Costa

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POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA O que pode dizer um osso depois de permanecer décadas enterrado sem nome? Para a antropologia forense, muito. Características biológicas, lesões, tratamentos odontológicos, marcas de doenças e outras particularidades podem contribuir para devolver uma identidade aos restos mortais. Quando essas informações são confrontadas com documentos, registros médicos, depoimentos e exames genéticos, aquilo que durante décadas permaneceu identificado apenas por um número pode voltar a ter nome e história.
É esse trabalho que a exposição “Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado”, aberta em 14 de agosto no Centro MariAntonia da Universidade de São Paulo (USP), apresenta ao público. A mostra aborda práticas contemporâneas da antropologia forense relacionadas a contextos de violência em massa e violações de direitos humanos e estabelece uma ligação entre a investigação científica, a ditadura e um passado que ainda precisa ser revelado. [4]
A dimensão desse trabalho ultrapassa o laboratório. Identificar um desaparecido significa reconstruir parte daquilo que a repressão tentou ocultar e devolver a uma família a possibilidade de conhecer o destino de alguém que permaneceu durante décadas entre a morte presumida e a ausência material.
DA CRIANÇA LEVADA AO DOI-CODI AO HOMEM QUE PROCURA OS MORTOS
A trajetória de Edson Teles aproxima essas duas dimensões de maneira singular. Filho de Maria Amélia de Almeida Teles e César Augusto Teles, militantes do PCdoB presos em São Paulo em dezembro de 1972, Edson e a irmã, Janaína, ainda crianças, foram levados às dependências do DOI-Codi, onde seus pais estavam presos e eram torturados. Décadas depois, sua trajetória acadêmica e política passaria a estar diretamente ligada à defesa da memória, da verdade e da justiça. [3]
Hoje, professor da Universidade Federal de São Paulo e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), Teles participa de uma das frentes que procuram responder às perguntas deixadas pela estrutura repressiva.
A ciência pode determinar características biológicas, confrontar material genético e reunir evidências capazes de devolver uma identidade. Realizado tantos anos depois, entretanto, esse trabalho também revela os efeitos acumulados do tempo, da negligência institucional e das decisões políticas que retardaram a procura e a identificação dos desaparecidos.
Ao falar à Agência Pública, Teles chamou atenção para uma dimensão fundamental do desaparecimento: quando uma sociedade não consegue se despedir de seus mortos, os corpos passam a carregar múltiplos sentidos. Para ele, aquilo que emerge das valas revela a dimensão da dívida histórica brasileira com as vítimas da violência de Estado e expõe as insuficiências da democracia construída depois da ditadura. É a dívida que ele define como “praticamente impagável”. [3]
Essa dívida encontrou uma de suas expressões mais brutais em um cemitério da periferia de São Paulo.
ANTES DA VALA, PERUS JÁ HAVIA DEVOLVIDO UM DESAPARECIDO
A história do Cemitério Dom Bosco, em Perus, começou a revelar seus segredos antes da abertura da vala clandestina que se tornaria conhecida nacionalmente em 1990. Em 1979, familiares conseguiram localizar ali o sepultamento de Luiz Eurico Tejera Lisbôa, o Ico, desaparecido desde setembro de 1972 e enterrado sob o nome falso de Nelson Bueno. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) considera seu caso um divisor de águas e o registra como o primeiro desaparecido político brasileiro a ter o corpo encontrado, resultado de uma busca que se estendeu por sete anos. [5]
Nascido em Porto União, Santa Catarina, Luiz Eurico construiu parte importante de sua trajetória no Rio Grande do Sul. A família mudou-se para o Estado quando ele ainda era criança, e sua militância política passou pelo movimento estudantil gaúcho. Casou-se em 1969 com Suzana Keniger Lisbôa, que também militava contra a ditadura, e integrou a Ação Libertadora Nacional (ALN). Depois de um período no exterior, retornou clandestinamente ao Brasil e tentou reorganizar a organização no Rio Grande do Sul. [5]
A descoberta de seu paradeiro não resultou de uma revelação espontânea do Estado, mas da persistência dos familiares. Registros funerários e outras pistas permitiram chegar à identidade falsa de Nelson Bueno e demonstrar que Luiz Eurico havia sido sepultado em Perus. A denúncia foi tornada pública em 1979, no período em que o Congresso discutia a Lei da Anistia, expondo uma das contradições que acompanhariam a redemocratização: enquanto o país discutia reconciliação, familiares demonstravam que desaparecidos políticos haviam sido mortos e enterrados pelo Estado sob identidades falsas. [5][6]
A localização do sepultamento, entretanto, não encerrou imediatamente a história. O processo de recuperação dos restos mortais prosseguiu nos anos seguintes até que eles fossem trasladados para Porto Alegre, em 1982. Décadas depois, novas investigações também contestariam a versão de suicídio registrada durante a ditadura. [5][7]
O caso de Ico, que é irmão de Nei Lisboa, um dos músico mais conhecidos do Rio Grande do Sul, tornou-se, assim, um marco na luta dos familiares porque rompeu concretamente um mecanismo de desaparecimento que não consistia apenas em eliminar opositores, mas também em esconder os corpos, falsificar identidades e impedir que as famílias conhecessem seu destino.
A VALA DE PERUS E 1.049 RESTOS MORTAIS
Onze anos depois, em 4 de setembro de 1990, a abertura de uma vala clandestina no mesmo Cemitério Dom Bosco revelou restos mortais de 1.049 pessoas, enterradas sem identificação. O local havia sido utilizado durante a ditadura para sepultar indigentes, desconhecidos e também opositores políticos mortos pela repressão. [8]
A descoberta transformou Perus em um dos maiores símbolos materiais da violência de Estado e da ocultação dos mortos durante a ditadura. Mas retirar os ossos da terra estava longe de significar que as famílias finalmente receberiam seus parentes.
Os remanescentes passaram por diferentes instituições e enfrentaram condições precárias de armazenamento, sucessivas interrupções e problemas na condução dos trabalhos de identificação. A demora foi tamanha que, em 2009, o Ministério Público Federal ingressou com uma ação civil pública buscando a retomada efetiva das atividades de busca, localização e identificação. Posteriormente, o material foi destinado ao CAAF, da Unifesp, para a continuidade dos trabalhos. [9]
Em março de 2025, o governo federal chegou a realizar um pedido público de desculpas pela negligência na guarda e na identificação dos remanescentes ósseos de Perus. O reconhecimento institucional, décadas depois da abertura da vala, tornou explícito que a demora não poderia ser atribuída apenas às dificuldades científicas de um trabalho dessa natureza. [9]
Perus passou a carregar, portanto, duas histórias inseparáveis: a tentativa da ditadura de ocultar seus mortos e a dificuldade encontrada pela democracia brasileira para reconstruir, com a urgência necessária, aquilo que havia sido deliberadamente escondido.
QUANDO UM OSSO VOLTA A TER NOME
Apesar das décadas perdidas, a ciência conseguiu produzir respostas. Entre as identificações realizadas está a de Dimas Antônio Casemiro, militante do Movimento Revolucionário Tiradentes morto por agentes da repressão em abril de 1971. Seus restos mortais foram identificados em 2018, depois da retomada dos trabalhos sistemáticos sobre o material de Perus. [10]
Os avanços continuaram. Em abril de 2025, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos anunciou novas identificações produzidas pelo Projeto Perus com apoio de análise genética e cooperação internacional. O processo demonstrou como novas tecnologias podem responder hoje a perguntas que permaneceram abertas durante décadas. [10]
A identificação modifica a relação de uma família com o desaparecimento porque aquilo que permaneceu armazenado como material anônimo volta a corresponder a uma pessoa. Ao mesmo tempo, a análise forense pode ser confrontada com documentos produzidos pelos órgãos repressivos e contribuir para confirmar ou desmontar versões oficiais construídas para esconder as circunstâncias das mortes.
Fazer os ossos falarem significa, portanto, mais do que descobrir a quem pertenceram. Significa investigar como aquela pessoa morreu, onde seu corpo foi colocado, por que sua identidade foi ocultada e quais estruturas do Estado participaram desse desaparecimento. É nesse ponto que a antropologia forense encontra a investigação histórica, documental e judicial.
O DIREITO DE ENTERRAR OS MORTOS
Para as famílias, existe ainda uma dimensão anterior a todas essas questões: o direito ao luto.
Sônia Haas conhece essa experiência a partir de uma ausência que atravessou praticamente toda a sua vida. Ao falar sobre João Carlos, sintetizou a crueldade do desaparecimento ao afirmar que “o luto do desaparecido não fecha nunca”, porque a família não dispõe da materialidade da morte, do enterro e da despedida diante do corpo. [1]
O Estado brasileiro reconhece João Carlos Haas Sobrinho como vítima da repressão, e documentos e testemunhos permitiram reconstruir parte das circunstâncias de sua morte. Seus restos mortais, porém, continuam desaparecidos.
A diferença entre a história de Luiz Eurico e a de João Carlos ajuda a revelar a dimensão concreta dessa dívida. A persistência dos familiares permitiu localizar Ico e sepultá-lo; a família Haas continua esperando pelos restos de João Carlos. Outras famílias permanecem diante da mesma ausência, entre elas a de Cilon Cunha Brum, outro gaúcho desaparecido na Guerrilha do Araguaia.
É por isso que o desaparecimento forçado produz efeitos que não terminam no momento da captura ou da morte. Enquanto o destino da vítima não é esclarecido e seus restos não são localizados, identificados e devolvidos, a violência continua projetando consequências sobre familiares e sobre a própria sociedade.
Essa característica estaria no centro da condenação internacional do Brasil no caso da Guerrilha do Araguaia. Antes de chegar a ela, porém, é preciso enfrentar outra questão: se valas foram abertas, documentos recuperados, testemunhos reunidos e agentes identificados, por que a Justiça brasileira avançou tão pouco na responsabilização pelos crimes cometidos durante a ditadura?
É nessa distância entre memória, verdade e justiça que começa o segundo capítulo.
FONTES PARA CHECAGEM
[4] CENTRO MARIANTONIA DA USP — EXPOSIÇÃO “FAZER FALAR OS OSSOS”O que comprova: abertura da exposição em 14 de agosto de 2026; proposta da mostra; relação entre antropologia forense, violações de direitos humanos, investigação científica e memória da ditadura.
[5] COMISSÃO ESPECIAL SOBRE MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS — LUIZ EURICO TEJERA LISBÔA
O que comprova: trajetória de Luiz Eurico; desaparecimento; militância; vínculo com o Rio Grande do Sul; busca de sete anos; sepultamento sob o nome Nelson Bueno; e registro oficial de seu caso como o primeiro desaparecido político brasileiro a ter o corpo encontrado.
[6] DOCUMENTAÇÃO SOBRE SUZANA LISBÔA E A LOCALIZAÇÃO DE LUIZ EURICO
O que comprova: participação dos familiares na procura; localização do corpo em 1979; sepultamento sob identidade falsa em Perus; e decisão de tornar a descoberta pública no contexto da votação da Lei da Anistia.
[7] INVESTIGAÇÃO SOBRE A MORTE DE LUIZ EURICO
O que comprova: trajetória política, desaparecimento, localização em Perus e posterior contestação da versão oficial de suicídio atribuída à sua morte.
[8] ARQUIVO NACIONAL — VALA CLANDESTINA DE PERUS
O que comprova: abertura da vala em 4 de setembro de 1990; existência de restos mortais de 1.049 pessoas; utilização do local para ocultação de mortos e presença de vítimas da repressão política.
[9] MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS E DA CIDADANIA — NEGLIGÊNCIA E RETOMADA DAS IDENTIFICAÇÕES
O que comprova: condições inadequadas de guarda das ossadas; ação civil pública do MPF em 2009; transferência do material para o CAAF/Unifesp; retomada dos trabalhos e pedido público de desculpas pela demora e negligência na identificação.
[10] CEMDP/MDHC — IDENTIFICAÇÕES DO PROJETO PERUS O que comprova: identificação de Dimas Antônio Casemiro em 2018; desenvolvimento do Projeto Perus; emprego de análise genética; parceria entre CEMDP, Unifesp/CAAF, Prefeitura de São Paulo e laboratório internacional; e continuidade das identificações.
Resultados e identificações do Projeto Perus — MDHC/CEMDP 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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