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Um Gigante Solto na Avenida, por Paulo Gaiger*

 “Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr” (Epitáfio – Titãs)

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Revistas que tratam de bem estar, forma física e saúde, programas de televisão sobre vida saudável, médicos, profissionais do desporto, nutricionistas, psicólogos, o ministério da saúde e a organização mundial da saúde recomendam a cada um de nós que devemos todos reservar momentos de nosso dia para cuidar de si, para cultivar as amizades, dedicar-se ao encontro familiar, fazer sexo, cuidar da alimentação, ter tempo para o lazer, ler um livro, ir ao cinema, namorar, fazer ginástica e lagartear. As recomendações para termos uma vida melhor e feliz, entretanto, vão perdendo o sentido e se distanciando de nosso horizonte na medida em que a carga de trabalho vai preenchendo quase que inteiramente o nosso nem tão santo dia. Em nosso querido país bonito por natureza, a CLT ainda reza pelas 44 horas semanais. Fica difícil arranjar tempo para construir e desfrutar da boniteza. Para a grande parte dos brasileiros, é despertar antes dos quero-queros e ir para a cama depois da Cinderela, já desfeita e esgualepada. A força volitiva para realizar algo diferente, que rompa com a rotina massacrante, termina no simulacro de lazer habitual no sofá à frente da televisão. Ou a televisão já está no quarto do casal para passar o tempo e perder a vida. Em algum telejornal, a jornalista dirá para o casal sonolento e deserotizado: “é importante fazer ginástica, ir ao teatro, estar com a família, passear, cuidar-se. Trabalhe menos, evite o estresse e tenha uma vida saudável”. É, meu Patrão Velho, trabalhamos demais e não nos resta tempo para pensar que poderia ser diferente e melhor. Coagidos pela tropa de choque do desemprego, da eficiência, das metas e do consumo, não temos um espacinho sequer para refletir sobre a razão pela qual estamos trucidando a nossa vida. Não temos tempo livre nem para pensar sobre nós mesmos. E se o temos, o que fazemos quando livres das obrigações laborais e domésticas? Um bico, uma especialização, televisão e videogame, um cigarrinho, um trago, uma torcida organizada para soltar os cachorros? Achamos até natural usarmos o fim de semana para ir ao supermercado. No domingo, então? Por favor! Algo vai mal! Em que esconderijos da economia, da política e do trabalho calaram o direito à vida como ela poderia ser vivida? Fomos convencidos de que o tempo livre é tempo perdido, improdutivo, como uma afronta e uma ameaça ao progresso de um país miserável, sob o discurso de que os interesses empresariais, oligárquicos e do Estado, coincidem com os interesses do bem comum. É como tosa de porco: muito alarido e nada de lã. O Diário Popular trouxe a notícia terrível de que o deputado Nilson Leitão, do PSDB/MT, quis incluir na reforma trabalhista a remuneração por qualquer espécie, isto é, igualzinha ao trabalho escravo, por boia e cama, sem salário. Também batia na porta a ideia abjeta de passar a jornada para 12 horas diárias por “motivos de força maior”. Era provável que cidadãos de bem estivessem vibrando com a obscenidade! A reforma trabalhista a ser gestada no ventre seco do governo Temer pode parir um monstro e disseminar a injustiça como valor patriótico, uma subtração significativa e indesculpável de sonhos, direitos e conquistas de um país que poderia ser, mas que nunca será enquanto oligarquias e suas quadrilhas estiverem no poder. O gigante pela própria natureza esmaga seu próprio povo e o sonho de uma vida melhor com os coturnos de sua plutocracia. A jornalista do telejornal foi demitida!

 

(*) Texto publicado no livro “Não vá ao supermercado nos domingos” (ed. Traços&Capturas – 2019).

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