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TEMPO RUIM PARA OS MILITARES NO GOVERNO BOLSONARO, POR JORGE BRANCO

Pesquisa do Poderdata, publicada em 20 de agosto de 2021, revela uma erosão da imagem dos militares entre as brasileiras e os brasileiros. Segundo os dados colhidos entre 16 e 18 de agosto, 52% dos entrevistados consideram a presença de militares das Forças Armadas no governo “ruim” para o país. Já em maio, a onda de pesquisa havia captado uma insatisfação com os militares na magnitude de 45% dos entrevistados.

A matéria do Poder 360 diz textualmente que “a taxa dos que avaliam a presença dos militares negativamente é o recorde registrado pela divisão de pesquisas do Poder360 – aumento de 15 p.p desde maio de 2020, quando o PoderData fez essa pergunta aos entrevistados pela 1ª vez. Também é a 1ª vez que esse percentual alcança a marca dos 50%.”


O protagonismo de um general de exército na ativa, à frente do Ministério da Saúde durante o auge do desastre da política negacionista de Bolsonaro em relação à pandemia, está na base desta depreciação do papel dos militares na condução da política do país. Contudo, certamente, não é a única contribuição.


Tido por alguns líderes políticos como um “militar equilibrado”, Hamilton Mourão, general do exército, na reserva, e vice-presidente do Brasil, se afundou no fracasso da operação militar na Amazônia legal. Iniciada em maio de 2020, denominada sucessivamente de Operação Verde Brasil e Verde Brasil 2 e, em seu estertor, de Operação Samaúma, consumiu quase meio bilhão de reais e mostrou-se um fracasso. Sem ter por base uma política de desenvolvimento sustentável para a região, a intervenção militar era, na prática, apenas uma ação policial de garantia da lei e da ordem, GLO no jargão militar. Obviamente, não foi capaz de reduzir as queimadas, tampouco o garimpo ilegal.


Outros fatos envolvendo patentes militares menores, como o episódio de tráfico de drogas em aviões presidenciais, de responsabilidade da Força Aérea Brasileira, ou das compras irregulares de vacina, contribuíram no conjunto da obra para essa erosão do apoio na opinião pública.


A presença de militares no governo Bolsonaro não se deve a razões de Estado. Aquela ideia de que militares, em função de seu papel constitucional, devem participar permanentemente de estruturas estatais – no sentido da sua interferência em assuntos de soberania e defesa nacionais – não sustenta tampouco descreve o papel e tamanho da presença dos militares no governo. Sua presença expressa uma adesão política de dois ‘atores’ militares distintos: graduados e suboficiais tragados na onda antipetista e antidemocrática, aberta com a ascensão da extrema direita no Brasil a partir de 2013, formam a base no “nível de rua” do bolsonarismo; e setores do alto oficialato vinculados às experiências de GLO e doutrinas de guerra híbrida incentivadas pela política expansionista dos EUA. O pesquisador Piero C. Leirner[1] afirma que esses generais vinculados à doutrina das operações militares em terreno urbano, “desde o começo desencadearam uma guerra híbrida, visando a tomada do governo” e foram capazes de mobilizar o conjunto do alto escalão das Forças Armadas.


As opções políticas de Bolsonaro se mostraram desastrosas. No contexto de uma crise econômica sem precedentes, a criminosa atuação na crise sanitária com emergentes denúncias de descasos, corrupção e incompetências, corroeram grande parte da base de apoio e da simpatia popular por Bolsonaro. Se tornou visível e evidente para a população que os militares estão profundamente envolvidos com Bolsonaro, não só no compartilhamento da ideologia antidemocrática, mas na gestão concreta do governo.


Para esse grupo de generais que sonhou alto com a restauração da hegemonia havida durante a ditadura militar, o resultado não poderia estar pior.


[1] LEIRNER, Piero C. Da campanha à conquista do Estado: os militares no capítulo da guerra hibrida brasileira. IN: MARTINS FILHO, João Roberto. Os militares e a crise brasileira. São Paulo: Alameda, 2021.

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