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Prévias eleitorais e alianças no campo democrático progressista, por Benedito Tadeu César (*)

É urgente que as forças democráticas e progressistas estabeleçam estratégias eficientes para as eleições municipais do próximo ano. E é crucial que as articulações partidárias, para a união das forças democráticas e progressistas, ultrapassem o âmbito interno dos partidos. Elas devem ganhar as ruas e os veículos de comunicação, de forma a ampliar a mobilização e a participação popular na definição das candidaturas, na condução das campanhas e no exercício dos futuros governos e mandatos parlamentares.


Uma maneira de mobilizar a participação popular é realizando eleições prévias no interior de cada partido democrático e progressista, para escolha de seus candidatos ou candidatas. Posteriormente, os vencedores desta prévia serão submetidos ao que chamaremos de prévia geral, aberta a todos os interessados, independente de vinculação partidária, para definir a candidatura única dos partidos democráticos e progressistas.


Esta estratégia poderá produzir o entusiasmo e o engajamento de lideranças e integrantes dos movimentos sindicais e populares, profundamente fragilizados com o avanço, a partir de 2016, da extrema-direita e dos setores de direita a ela aliados.


As prévias serão a forma capaz, inclusive, de atrair e (talvez) empolgar parte da massa de eleitores, que desconhecem a importância da política sobre suas vidas. Aqueles que entendem que “todos os políticos são corruptos”, que acreditam que é a política a principal responsável pelos males e frustrações a que são submetidos, cotidianamente, e que, por isso, adotam atitudes de repúdio à política e seus assuntos.


Mais do que todos, são esses eleitores que precisam ser conquistados. Eles constituem, hoje, a maioria da população e do eleitorado brasileiro, e acabam atraídos por falsos outsiders ou se conformam com os oligarcas de sempre. Estes são os políticos que, à custa de recursos públicos, obtidos por meio de emendas parlamentares e do controle da máquina pública, destinam verbas aos seus municípios, e lhes concedem benesses passageiras.


A realização das prévias, e a unificação das candidaturas, possibilitará a construção de alianças políticas amplas, no campo democrático, sem que nenhum dos partidos venha a se sentir subjugado ao(s) mais forte(s) e/ou com maior número de filiados.


Adotar práticas desse tipo exigirá a disposição de reconhecer a equivalência de forças entre os participantes, o exercício do respeito às divergências, no esforço de construção dos consensos possíveis, e a suspensão momentânea dos embates sobre questões não prioritárias, das disputas e demarcações de territórios eleitorais.


Exigirá desprendimento dos que detêm cargos no interior dos partidos e nas diferentes esferas do poder público, costumeiramente, ciosos da necessidade de manter seus espaços e renovar seus mandatos. Posturas que são legítimas em tempos normais, mas muito perigosas quando se trata de enfrentar a extrema-direita e seus aliados.


Uma política de aliança exige que as semelhanças sejam valorizadas e as diferenças minimizadas, sem que nenhuma das partes renuncie a seus princípios, mas sem que nenhuma delas se imponha aos demais.


A pretensão de que as divergências sejam todas transformadas em consensos numa aliança política equivale à tentativa de submissão das demais forças políticas, pois quem pensa de forma semelhante se organiza no mesmo partido, enquanto as alianças se fazem entre os diferentes, unidos contra um adversário comum. 

 

Exigir que todos os partidos de uma aliança tenham o mesmo pensamento, as mesmas propostas e as mesmas práticas, na realidade, significa a intenção de cooptar os demais partidos para a constituição de um partido único, velho desejo de parte dos setores das esquerdas tradicionais.


O empenho de transformar os “mais fracos”, porque têm menos filiados ou detêm menor número de cargos eletivos, em “filiais” do partido “mais forte” é uma prática hegemonista. 

Sem a constituição de alianças democráticas e progressistas amplas, a extrema-direita e as forças de direita a ela aliadas continuarão o processo de conquista de eleitores e cargos eletivos no Brasil, consolidando as maiorias que já detêm nos poderes legislativo e executivo nos âmbitos, municipal, estadual e nacional.


No editorial de lançamento da campanha da Rede Estação Democracia, foi indicada, com dados estatísticos, a força da extrema direita e seus aliados hoje no país e foram apontadas consequências que advirão de seu crescimento. Relembrando, aqui, 81% das Prefeituras existentes no país, 74% dos Governos Estaduais e do DF, 53% da Câmara Federal e 65% do Senado encontram-se nas mãos dessas forças políticas.


Não é à toa que Lula tem se esforçado, desde o segundo turno das eleições de 2022 e durante todo este primeiro ano de governo, em fazer e ampliar alianças políticas. Elas são e serão a única forma de todas as forças democráticas e progressistas saírem do emparedamento em que se encontram e que tende a crescer ainda mais, caso amplas alianças democráticas não sejam construídas.


A constituição, hoje, de amplas alianças democrático progressistas não é um desejo, é uma necessidade urgente.


(*) Benedito Tadeu César é Cientista Político, professor aposentado da UFRGS, membro da coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e da Rede Estação Democracia (RED).


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