OS RISCOS DA HUMANIDADE PERDER O PRÓPRIO HORIZONTE NA GUERRA DOS SATÉLITES
- Alexandre Costa

- há 21 horas
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por ALEXANDRE COSTA Entre a Lua e o lucro, a humanidade percorreu uma longa trajetória que começou como conquista científica e expressão da curiosidade humana, mas que hoje se transforma em um mercado dominado por megaconstelações e interesses privados; a passagem do sonho da exploração espacial para a lógica comercial desencadeia uma disputa global sem regulação, marcada por ocupação predatória e novos riscos que ameaçam a estabilidade do entorno terrestre e podem fazer a humanidade perder o próprio horizonte.
Nos acostumamos a olhar para o céu como se ele fosse infinito. Um lugar de sonhos, de ciência, de futuro. Mas hoje, esse mesmo céu está lotado — e silenciosamente perigoso. Entre a Lua e o lucro, existe uma disputa que poucos veem, já está em andamento e pode decidir o futuro da humanidade.
Uma matéria publicada dias atrás (19/2) pelo The Conversation, explica que no dia 30 de janeiro de 2026, a SpaceX apresentou um pedido à Comissão Federal de Comunicações dos EUA para lançar uma megaconstelação de até um milhão de satélites para alimentar centros de dados no espaço.
A matéria alerta para o risco de a baixa órbita da Terra se transformar em um ambiente instável e potencialmente catastrófico diante da corrida global para lançar megaconstelações de satélites. O ponto de partida é o pedido feito pela empresa SpaceX à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos para autorizar o lançamento de até um milhão de satélites destinados a alimentar centros de dados no espaço, em altitudes entre 500 e 2.000 quilômetros.
Atualmente, já existem cerca de 14 mil satélites ativos em órbita e mais de 1,23 milhão de projetos em diferentes estágios de desenvolvimento. Esses equipamentos, com vida útil média de apenas cinco anos, são projetados para substituição contínua, criando uma presença permanente e industrializada no espaço próximo à Terra.
Um dos efeitos mais imediatos é a transformação radical do céu noturno: satélites refletem luz solar ao amanhecer e ao entardecer, aumentando a poluição luminosa. Estimativas indicam que, em menos de uma década, um em cada 15 pontos de luz visíveis poderá ser um satélite em movimento.
Além do impacto visual, astrônomos alertam para interferências em observações científicas e emissões de rádio que comprometem pesquisas. Especialistas também apontam a ausência de um sistema global de gerenciamento de tráfego espacial, o que eleva o risco de colisões em cadeia — a chamada síndrome de Kessler. Com cerca de 50 mil detritos já catalogados em órbita, projeções indicam a possibilidade de uma grande colisão a cada poucos dias.
A matéria enfatiza ainda consequências culturais e ambientais. Povos indígenas e comunidades tradicionais podem perder referências fundamentais para navegação, transmissão de conhecimento e práticas espirituais baseadas no céu noturno. No campo ambiental, lançamentos consomem grandes volumes de combustíveis fósseis e danificam a camada de ozônio; no fim da vida útil, a queima de satélites na atmosfera deposita metais na estratosfera, com efeitos químicos potencialmente nocivos.
Do ponto de vista jurídico, embora empresas liderem os projetos, a lei espacial internacional atribui aos Estados a responsabilidade por danos causados por objetos espaciais, levantando dúvidas sobre como responsabilizar atores privados. Diante dessas lacunas, os autores defendem a criação de uma “Avaliação de Impacto do Céu Escuro”, um mecanismo para analisar, antes da aprovação, os efeitos cumulativos, científicos, culturais e ambientais das constelações. A proposta não visa barrar o desenvolvimento espacial, mas garantir decisões mais informadas, transparentes e socialmente justas, antes que as mudanças no céu noturno se tornem irreversíveis..
O CÉU QUE SEMPRE GUIOU OS HUMANOS
A história dos satélites começa em 1957, com o Sputnik, lançado pela União Soviética e considerado o marco inaugural da Era Espacial [2]. Seu sinal repetitivo atravessou a atmosfera e marcou o início de mudanças profundas: ciência, espionagem, tensão geopolítica e uma nova consciência sobre o planeta.
Quando o homem chegou à Lua, em 1969, a relação com o espaço mudou de escala. A missão Apollo 11 simbolizou não apenas a vitória dos Estados Unidos na corrida espacial, mas também a capacidade humana de ultrapassar limites tecnológicos e imaginativos [3].
Com o passar das décadas, o espaço deixou de ser apenas o palco de grandes feitos humanos. Tornou-se infraestrutura. Satélites passaram a garantir comunicação, navegação, previsão climática, agricultura de precisão, vigilância ambiental e sistemas de defesa. A Terra jamais voltou a funcionar sem eles.
A FRÁGIL HISTÓRIA DA ORBITA TERRESTRE
Linha do tempo essencial:
1957 — Sputnik inaugura a Era Espacial.1961 — Yuri Gagarin torna-se o primeiro humano no espaço.
1969 — A chegada à Lua redefine a ambição espacial.
1970–1990 — Expansão de satélites militares e comerciais.
1990–2010 — GPS, telecomunicações e meteorologia tornam o espaço indispensável.
2010–2020 — Empresas privadas entram na corrida com força inédita.
2020–2026 — A era das megaconstelações acelera: dezenas de milhares de novos satélites e milhões projetados.
Essa ocupação acelerada gera um risco crescente. A chamada síndrome de Kessler — uma reação em cadeia de colisões — pode tornar a órbita inutilizável por décadas [4].
O MERCADO ESPACIAL E A VIRADA CAPITALISTA DA ÓRBITA
A partir dos anos 2000, a presença privada no espaço aumentou drasticamente. Empresas passaram a controlar satélites destinados a internet global, monitoramento, segurança e vigilância. A chamada Nova Economia Espacial movimenta hoje trilhões de dólares.
Mas esse avanço ocorre sem coordenação global.
A economia espacial atual combina:
• interesses comerciais privados • decisões regulatórias nacionais • ausência de controle internacional • captura de órbitas estáveis por poucas empresas • riscos ambientais crescentes
O espaço deixou de ser um símbolo de cooperação científica e se tornou um campo de negócios com pouca transparência e quase nenhuma regulação.
QUEM REGULA O USO DO ESPAÇO?
A resposta é desconfortável. A governança internacional se sustenta principalmente no Tratado do Espaço Exterior de 1967 [6], criado em um mundo com pouquíssimos satélites. O documento:
• declara que o espaço é “patrimônio comum da humanidade”, • proíbe armas nucleares, • mas não regula satélites em massa, • nem prevê atividade comercial privada.
A União Internacional de Telecomunicações (UIT) regula apenas o espectro das frequências [5].
Já as decisões sobre megaconstelações são tomadas por:
• agências nacionais (como a FCC nos EUA),
• com impacto planetário,
• sem consulta internacional,
• sem avaliação ambiental global.
A ausência de governança é um dos maiores riscos para o futuro do espaço.
CONFLITOS, DISPUTAS E TENSÕES GEOPOLÍTICAS
Embora não haja guerra declarada no espaço, há conflitos reais, documentados por organismos internacionais e institutos de pesquisa:
• China e Estados Unidos trocaram acusações após testes de armas antissatélites que geraram grande quantidade de detritos perigosos [7].
• A Rússia denuncia que megaconstelações podem comprometer sua soberania tecnológica.
• Países do Sul Global afirmam que estão sendo excluídos do acesso ao espaço.
• Observatórios astronômicos registram prejuízos severos para a pesquisa científica.
• Órgãos internacionais debatem quem deve remover o lixo espacial — sem consenso.
Essas tensões configuram aquilo que especialistas chamam de guerra silenciosa na órbita terrestre.
O QUE A HUMANIDADE PODE PERDER
Os riscos apontados pelos pesquisadores incluem:
• interrupção global de telecomunicações • falhas em sistemas de GPS e logística • impacto em agricultura, energia e aviação • danos à meteorologia e às defesas nacionais • bloqueio da pesquisa científica • potencial inutilização da órbita por décadas
A órbita terrestre é finita e vulnerável. A negligência humana pode transformá-la em território hostil.
UM CÉU QUE REFLETE A TERRA
A trajetória entre Sputnik, a chegada à Lua e as megaconstelações privadas mostra que o espaço é, em última instância, um espelho da humanidade. Ele exibe:
• desigualdades globais • falta de regulação • corrida por lucro • ameaças ambientais • disputa por poder
O céu, que já foi símbolo de esperança e conhecimento, corre o risco de ser consumido pela mesma lógica predatória que marca a história terrestre.
Preservar a órbita é preservar o futuro.
FONTES
[1] The Conversation – “Órbita da Terra pode virar palco de uma catástrofe com o lançamento de milhões de satélites” – 19/02/2026Link: https://theconversation.com/orbita-da-terra-pode-virar-palco-de-uma-catastrofe-com-o-lancamento-de-milhoes-de-satelites-276368
[2] NASA – “Sputnik and the Dawn of the Space Age” – Acesso em 23/02/2026Link: https://history.nasa.gov/sputnik/
[3] NASA – “Apollo 11 Mission Overview” – Acesso em 23/02/2026Link: https://www.nasa.gov/mission/apollo-11/
[4] Agência Espacial Europeia (ESA) – “Space Debris and the Kessler Syndrome” – Acesso em 23/02/2026Link: https://www.esa.int/Safety_Security/Space_Debris
[5] União Internacional de Telecomunicações (UIT) – “Satellite Network Registration and Spectrum Management” – Acesso em 23/02/2026Link: https://www.itu.int/en/ITU-R/space
[6] ONU – Treaty on Principles Governing the Activities of States in the Exploration and Use of Outer Space – Acesso em 23/02/2026Link: https://www.unoosa.org/oosa/en/ourwork/spacelaw/treaties/outerspacetreaty.html
[7] RAND Corporation – “The Growing Threat of Anti‑Satellite Weapons” – Acesso em 23/02/2026Link: https://www.rand.org/pubs/research_reports/RR3100.html
CRÉDITO
Texto baseado em obra originalmente publicada sob a licença Creative Commons CC BY ND, com referências iniciais de Gregory Radisic e Samantha Lawler.
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