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MEU ENCONTRO COM PEDRO SEELIG, POR RAFAEL GUIMARAENS (*)


Quando sentei com as mãos sujas de tinta na mesa mais perto do poster de Ali McGraw e Ryan O´Neal, o ruído intermitente da locomotiva ainda percorria as planícies e os túneis do meu cérebro. A chegada da noite, num domingo qualquer de novembro de 77, aumentava a densidade do calor que soterrava as pessoas e suas vontades. Antes de chegar ao Love Story, estivéramos os três – eu, o Laerte (nosso guru) e o Marcelo - no DCE rodando panfletos não lembro sobre o quê, mas certamente contra a ditadura.


Não existia a barbada do corel, photoshop ou page maker. Panfleto se fazia com letraset destacando as chamadas e as palavras de ordem e textos datilografados em máquina elétrica recortado e colado logo embaixo. Então, um redigia, outro compunha as chamadas em letraset e o terceiro queimava a chapa e botava a funcionar o mimeógrafo a tinta, que tinha mesmo o som de locomotiva, movida a lenha e a ansiedade.


O Love Story ficava na João Pessoa, defronte ao Jornal do Comércio, e era um bar escuro, sem nada demais, a não ser a foto gigantesca do par romântico do filme – os dois abraçadinhos, sem saber que ela (ou será que foi ele?) sofria de leucemia. Em volta do poster, havia alguns cartazes duplo ofício de peças de Brecht e do Guarnieri encenadas no Arena, altos do viaduto da Borges, pelo próprio dono do bar, o Jesus, que, por conta deste meritório currículo artístico-político, considerávamos "dos nossos". Nem a sua desastrada aparição num comercial de TV de um remédio chamado Meia Massa foi capaz de manchar sua reputação. Era o bom e velho truque de uma simulação de enquete, em que o Jesus provava o tal remédio e enunciava o bordão: "me sinto um guri". Descobriu-se que o produto era fraudulento e o Jesus fez um teatro de que ia processar a empresa ("nem me pagaram o cachê"). Acho que não processou porra nenhuma porque a gente perguntava do caso e ele só ria.


Fora o Jesus e sua companheira, uma bela e tristonha ruiva que atendia no caixa e fazia a iluminação das peças, ninguém mais que costumava aparecer por ali podia ser considerado "dos nossos". Os habitués eram prostitutas, travestis, gigolôs, policiais e contraventores dos mais diversos calibres. Mas naquela noite quem brilhava era uma atriz do centro do país, cujo nome eu não lembro, que estava na mesa com o Altair Lima, galã de novelas do segundo time, mas, porra!, tinha feito o Hair!. O Hair!, cara! Ele conversava nervosamente com um gordo conhecido não sei de onde que suava o triplo de nós.


Nenhum de nós três estava com ânimo para conversar e, assim, sem ser interrompido por nada, a não ser alguns goles de cerveja, fiquei liberado para repousar minha atenção exclusivamente na deusa entediada que fumava um cigarro em slow motion. Bebemos várias garrafas de faixa azul. Elas chegavam à mesa com aquela crosta branca de gelo, mas acabavam sendo subjugadas pelo calor reinante, de forma que, já na metade do copo perdiam o atrativo e ali ficavam chocando. Quebrando o rotina, refugamos até o famoso carreteiro com feijão mexido temperado com salsa, que elogiávamos para conservar o folclore mas, na verdade, era uma bosta.


Quando a deusa levantou-se languidamente, seguindo os passos agitados do Altair Lima, foi como se o Love Story fosse eternamente condenado às trevas, o que, pensando bem, não deixa de ser a mais pura verdade. Logo após, saímos os três, cada um para um lado, mas não em busca do destino, como a cena mágica de "Nós que nos amávamos tanto", e sim para acabar logo com aquela noite insuportavelmente calorenta.


Peguei o ônibus - não tinha comprado ainda o Chevette 74 bordô, em quadro prestações de 127 cruzeiros - e desci na frente da Engenharia da UFRGS, cujo centro acadêmico era reduto dos reformistas, o que não vem ao caso. Atravessei a rua, dei uma olhada no Alaska através da vidraça. Ali estavam a Nega Lu, o Paulista, o Dreon, o Chico e a Bete, mais algum pessoal da Libelú e da Perspectiva. Lá de dentro, o Isaac fez um sinal indicando uma mesa, mas eu só abanei e rumei para casa.


Subi a Sarmento, atravessei a praça do Rosário (o cachorro fechava aos domingos) e segui pela Independência. Pensei em comer um xis no bar do Fernando Ribeiro, um cara que havia ganho o Musipuc com uma canção triste sobre solidão, mas não seguiu carreira. Abriu um bar na Independência, faliu e depois ninguém mais soube dele. Desisti do xis. De longe, vi um camburão da polícia estacionado uma quadra antes do apartamento onde morava com pai, mãe, dois irmãos, duas irmãs e não sei quantos gatos. Talvez a presença do camburão fosse a razão da ausência dos travestis que enfeitavam as esquinas da Indepê.


Eu caminhava para casa de camiseta laranja com uma retalhos pretos nos sovacos, calça lee, tênis e bolsa de couro a tiracolo, que me deixou até hoje com um ombro mais alto que o outro. Poderia estar pensando no primeiro mês de carreira como repórter, depois de um ano cuidando do arquivo da Cooperativa dos Jornalistas, recortando notícias de jornal, colando em pastas por assunto e buscando nelas subsídios para as matérias dos outros. Ou na minha incompetência para conseguir namoradas por timidez e por orgulho de não admitir a timidez. Ou na situação lá em casa, onde as discussões políticas com o pai estavam ficando insuportáveis e me obrigavam a retardar ao máximo o go home, xuliando que ele dormisse. Ou então na recente discussão política no Centro Acadêmico Arlindo Pasqualini, que eu presidia há alguns meses após uma vitória de 3 por 1 contra a direita, quando tiramos na reunião, por maioria apertada, a posição de proibir o uso de maconha pelos militantes, inclusive nas nossas festas, deliberação esta que não vinha sendo cumprida.


Mas, estava muito quente para pensar em coisas que exigissem demais do meu cérebro, onde a locomotiva começava a se afastar para algum destino longínquo. A bem da verdade, à medida em que chegava perto do camburão da Brigada, eu estava encasquetado com uma dúvida: era ele ou ela que tenha leucemia no filme.


Da Brigada, a gente não tinha muito medo, a não ser durante as passeatas como a gloriosa de 4 de agosto, na frente do Direito, aquela da menina com a bandeira no meio da gás lacrimogêneo, os estudantes correndo, excitados, avançando e recuando, fazendo a revolução nas ruas, adrenalina a mil, liberdades democráticas, soltem nossos presos, abaixo a repressão, mais arroz e mais feijão, greve geral derruba o general. E o Choque de capacete, casaco de lã, escudo, cassetete, soltando bombas de "efeito moral" que não tinham o menor efeito moral, a não ser irritação nas vistas.


Mas brigadiano (a gente ainda chamava de "pé de porco") só metia medo nessas horas. A gente temia, na real, era a polícia política, o Dops, os ratos infiltrados nas reuniões e nas mesas de bar, fotografando nossos atos públicos, vigiando e fazendo relatórios sobre nossas ações. Todo o cuidado com os ratos era pouco e a gente desconfiava dos desconhecidos que entravam no centro acadêmico, perguntando quando seria a próxima reunião ou meramente para ler as revistas no sofá e escutar na eletrola os discos do Tarancón e dos Rolling Stones.


Eu me arrastava pela Independência, pensando em amor e morte, chegando cada vez mais perto da Veraneio marrom e da movimentação de um grupo PMs em torno de alguns civis. Era meia noite, talvez meu pai estivesse dormindo, eu tinha que trabalhar cedo e aquela agitação em torno do camburão nada tinha a ver comigo.


A poucos metros de casa, o medo se materializou no corpo desengonçado de um PM que atravessou a rua segurando o cassetete junto à coxa, gritando "Pssit! Tu aí!". Parei, ele chegou perto e pediu: "Documento!".


Abri a fivela da bolsa e furunguei no seu interior. O coração bateu. "Hi, esqueci a carteira. Mas eu moro ali, ó, naquele edifício...". O brigadiano vacilou, olhou pra mim, pro prédio e pra bolsa e decidiu: "Vem comigo". Tentei dizer que não, pensei em correr, esbocei um grito, mas não fiz nada disso e atravessei a rua ao lado do cara fardado.


"Capitão, o moço aqui tá sem documento", ele disse para um cara alto, forte, com o rosto escalavrado e, na hora me pareceu, olhos de assassino, que assistia um subordinado apalpando a bunda de um mulatinho que apoiava as palmas da mão na parede.


O loiro dispensou o mulato e dirigiu-se a mim: "Não anda com documento, guri?". Eu: "Tenho aqui a carteirinha da PUC. Mas eu moro ali...". Ele virou-se para o soldado: "Vê o que tem nessa bolsa". Fiquei parado, assistindo o cara tirar coisas da minha bolsa e simultaneamente informar ao capitão: "Jornal Movimento... esse aqui não é um jornal comunista? Ué, o que a Regina Duarte está fazendo aqui na capa? Um livro Teoria e Ação... De política, capitão. Um caderno todo escrito a mão. Uma papelada em xerox..." O capitão interrompeu: "O que está escrito?". O PM: "Algumas coisas... Deixa eu ver na luz. Olha aqui... ‘A re-de-mo-cra-ti-za-ção do país passa pelo desmantelamento do aparelho repressivo’. Ôpa! Essa é conosco".


Os dois e mais os que estavam em volta formaram um pelotão de fuzilamento contra mim: "É material de pesquisa. Na verdade, eu nem concordo com algumas coisas..." Foi uma das frases mais babacas que eu pronunciei em toda a minha vida.


"Bota no camburão", disse o oficial.


Até cinco minutos atrás eu estava seguro, indo pra casa para dormir e depois acordar, ir pro trabalho e, à noite, estudar e fazer revolução no centro acadêmico. Agora eu estava curvado no banco escuro de uma Veraneio da Brigada, só com tiras de luz nos pés, que entravam pelas frestas na porta traseira. E quando mais eu pensava, mais possibilidades trágicas se escancaravam diante de mim. Vão me matar, vão sumir comigo, vou ser torturado, vou fraquejar e delatar meus camaradas. O pior: ninguém sabia que eu estava ali.


A viatura andava em alta velocidade. Eu sacolejava e batia a cabeça nas paredes a cada curva. Pra onde tão me levando? Um terreno baldio? Vão me fuzilar? Atar meus pés e me jogar no Guaíba como o Sargento Raimundo? Não, não fariam isso com um jornalista, um estudante, pô, um cara de classe média. Há dois anos tinham matado o Herzog e, antes dele, o Manoel Fiel Filho e deu a merda que deu, até demitiram o comandante do II Exército. Mas que ele, capitão, tá afim de me ferrar, isto tá.


Lá pelas tantas, a Veraneio parou e minha espinha ficou congelada, apesar de todo aquele calor. Desceram, falaram coisas que eu não distinguia. A camionete permaneceu estacionada por insuportáveis cinco minutos ou menos. Depois, voltou a andar com aquele motorzinho irritante de chevrolet e eu estranhamente me tranqüilizei, como tivesse ganho uma boa sobrevida.


Havia um problema. Ninguém sabia do meu paradeiro. Poderiam fazer o que quisessem comigo. Talvez o mulato me reconhecesse quando minha foto saísse no jornal Onde? Na coluna dos desaparecidos? Não, meus camaradas saberiam que era caso político. Iam estampar fotos nos jornais, nos ônibus, nos postes e o mulato ia me reconhecer. "Eu vi esse cara ser preso pela Brigada". Não era provável. O cagalhão estava em pânico e, quando foi liberado, quase beijou as botas do capitão.


Eu suava e pensava num modo de deixar pistas, algum vestígio que pudesse facilitar a minha busca. Mas o quê, se eu só estava com a roupa do corpo, camiseta, jeans, tênis e... meias! As meias! Pretas com um desenhozinho bordado, ganhas num amigo secreto há uns dois natais. Minha salvação!


Na escuridão da viatura, iniciei uma operação delicadíssima. Tirei os tênis e depois as meias. Recoloquei os tênis e comecei a enfiar uma das meias pelas frestas minúsculas da porta traseira do camburão. As mãos tremiam, a meia não descia e eu tive que usar a haste dos óculos para empurrá-la meia fresta afora.


Na primeira, deu certo. Repeti a operação, já com mais know how. Quando metade da segunda meia já estava do lado de fora, o camburão freou e meu coração acelerou. Além da posse de material altamente subversivo, eu ia ser pego na tampinha deixando pistas para o meu resgate, o que equivalia a uma confissão de culpa, um prato cheio pro capitão que queria me ferrar.


Com surpreendente destreza, puxei a meia de volta, tirei um tênis com o bico do outro, enfiei a meia e calcei novamente o tênis, tudo isto em tempo recorde, impressionante para a situação em que me encontrava. Assim, quando abriram o camburão, só faltava atar os cadarços.


Eu estava diante do Palácio da Polícia, permitindo que me empurrassem porta adentro. Quando me fizeram subir as escadas, foi como se eu enxergasse a caveira da morte, com seu capuz e sua foice gargalhando para mim. Eu sabia que no segundo andar ficava o Departamento Ordem Política e Social, o DOPS, sigla que significa luzinha na cara, tortura, cassetete no rabo, choque elétrico nas bolas, pau-de-arara, afogamento, perguntas, gritos e gemidos.


Dos três caras que estavam na ante-sala, o que me pareceu mais esperto estava indo embora e, por isso mesmo, ficou levemente irritado com a chegada da comitiva. O capitão entregou a ele minha bolsa cochichou um pouco, trocou risinhos cúmplices e foi embora. O cara sumiu por um corredor com a minha bolsa. Os outros dois assistiam um filme e conversavam sobre pescaria. Lá pelas tantas, em deles me olhou com desprezo e disse, como se fosse uma obviedade: "Pode sentar".


Sentei. O cara voltou lá de dentro sem a bolsa e fez um sinal para que eu o acompanhasse por uma porta lateral. Numa peça pequena, com piso de lajes, ordenou que eu tirasse a roupa. Tentei dizer que não entendia o que estava acontecendo, mas ele não deu conversa. "Que é isso nas mãos?". Respondi: "Estourou uma caneta", e me senti ridículo. Tirei a camiseta, os tênis, as calças e ele fixou nos meus pés, um com meia e outro sem. "Tenho frieira", expliquei sem que ele perguntasse e essa foi outra das coisas mais babacas que eu disse na vida.


Depois de examinar os bolsos das minhas calças, permitiu que eu me vestisse. Voltamos à ante-sala. Ele pegou sua leva-tudo e disse aos outros dois: "Localiza o delegado, o material está na minha sala". "Certo, comissário", responderam, em côro. "Boa noite", os três disseram e eu pensei: "Merda de noite".


Fiquei ali por mais de duas horas, assistindo um filme na TV, O Ladrão Que Veio para o Jantar, curiosamente com o Ryan O’Neal e, finalmente, lembrei na cena final do Love Story: ele no cemitério, todo mundo chorando no cinema. Então, ela é que tinha leucemia e morreu disso. Os caras ainda falavam de anzóis, carretilhas, tipos de peixe e, de tempos em tempos, um deles rodava o dedo várias vezes no disco de num telefone preto, esperava, mas não ninguém respondia. Na quarta tentativa, comentou: "Deve ter mulher no meio".


Eu me sentia no corredor da morte, aguardando que providenciassem o carrasco. Decorava juras de inocência, mentalizava álibis convincentes e jurava pra mim mesmo que não entregaria nenhum camarada, mesmo sob a tortura mais brutal.


Lá pelas tantas, na milionésima tentativa, o telefone respondeu. O policial de plantão fez um relato que eu escutava de forma fragmentada. Estudante... Brigada... material subversivo... comissário... e, finalmente, positivo!


Quando pôs o telefone no gancho, olhei para ele ansioso, aguardando o veredito.

"Tá dispensado, mas esteja aqui amanhã às 13 horas. Se não vier, a gente te busca". Respondi, tentando aparentar serenidade. "Às 13? Claro, estarei aqui".


Fui caminhando lentamente mas, à medida que descia as escadas, saía do prédio e caminhava para algum lugar longe dali, minhas pernas adquiriam velocidade. Ainda me passou pela cabeça que estivessem tramando aquelas simulações de fuga seguidas de fuzilamento. Quando peguei o taxi, já estava correndo.


No dia seguinte, após uma noite mal dormida em que misturei a alegria de ter ressuscitado e a angústia de que a coisa toda continuaria, cheguei ao DOPS pontualmente às 13 horas, protegido pelo advogado Krieger de Mello, indicado pelo sindicato para me acompanhar.


Ele, no entanto, só deu um longo e afetuoso abraço num delegado negro do DOPS e resumiu sua ajuda em quatro palavras e um tapinha no ombro: "Quando sair, me liga".


Fui levado para uma sala, onde entrou, depois de mim, um escrivão de polícia, com uma lista de perguntas escritas á mão. Sentou na máquina, emparelhou duas folhas de ofício intercaladas com papel carbono e iniciou as perguntas.


Foram dezenas de indagações, desde a forma como conseguira o material, até sobre o que achava de algumas expressões (especialmente aquela sobre o fim do aparelho repressivo), se eu pertencia a algum grupo, quem eram meus amigos. Nenhuma pergunta sobre o Centro Acadêmico. Eu ia respondendo da forma mais vaga e inocente possível, imprimindo a cada frase o tom de que tudo aquilo não passava de um engano. A coisa demorava porque o cara poderia até ser um bom tira, mas era um péssimo datilógrafo e mais de uma vez me pedia para soletrar alguma palavra menos usual.


Por vezes, ele saía da sala e voltava com uma nova lista de perguntas. A tarde seguia por aí, lenta, sacal, aborrecida. Até que ele entrou na sala. Quer dizer, primeiro, entrou o perfume, depois o homem magro, mais baixo que eu pensava, cabelo grisalho repartido no meio, moderno na época, mas hoje absolutamente ridículo. Pedro Carlos Seelig, o símbolo da repressão no Rio Grande do Sul, o mais frio, eficiente e covarde torturador de que se tem notícia nestes pagos.


Na época, ainda era um mito. Só aparecia em fotos distantes e desfocadas e nos relatos dolorosos de dezenas de homens e mulheres por ele torturadas. Quando entrou, eu soube imediatamente de quem se tratava. Literalmente, tremi nas bases.


Olhou para mim com desprezo e mostrou um desenho numa das páginas do meu caderno de anotações: "Que mapa é esse?". Era um mapa que tinha desenhado semanas antes, com base nas informações de um camioneiro, para chegar a uma cidadezinha na fronteira norte do estado chamada Porto Soberbo, onde eu tinha feito uma matéria sobre o cultivo da citronela, uma planta que serve de matéria prima para a produção de perfumes. Certamente, a mente paranóica da repressão via naquele mapa mal feito um plano subversivo ou um futuro foco de guerrilha. Não contive um esboço de sorriso com tal absurdo que ele, naturalmente, percebeu: "Tá rindo de quê?"


Comecei a contar a história da citronela, mas ele interrompeu: "Olha pra mim quando fala.


Que idade tu tem, seu merda? Teu pai sabe que tu anda metido nessas coisas?". "Metido em quê", eu ia dizer, mas calei. Seelig me olhava fixo, esfregava um lábio no outro e flexionava os dedos das mãos. Baixei os olhos e me senti o maior covarde da face da terra.


Ele saiu e não mais entrou. O escrivão faz mais umas perguntas que eu respondi de forma triste e desanimada. Sobrevivi sem seqüelas físicas ao encontro com o temível Pedro Seelig, o Pedrão, ao contrário de tantos apanharam, sofreram castigos hediondos e desapareceram um suas mãos. Ao chegar à noite na faculdade, fui tratado como um verdadeiro revolucionário, que enfrentou a repressão e o medo e que estava ali, afinal a luta continua. Mas, por estranho que pareça, havia um incômodo de que eu não tinha a menor importância e me soltaram como se eu fosse um nada. Nem sabiam que eu era o presidente do CAAP. Talvez nem ficha tenham feito. Que bosta!


Quando era criança, odiava os provalecidos, aqueles gordos ou grandes que se aproveitam de sua força física para se impor aos menores e mais fracos, humilhá-los, tomar seus chicabons e suas bolinhas de gude. Os provalecidos eram as figuras mais desprezíveis nas lembranças da nossa infância e nos mordíamos de impotência diante deles, de seus socos nas costas e de suas gargalhadas prepotentes.

Os torturadores são provalecidos que se valem dos instrumentos de destruição física e aniquilamento moral, para alimentar o sadismo e a perversão que povoam suas mentes doentias e vazias de humanidade. Pedro Seelig é um deles. E os regimes ditatoriais se valem dos torturadores para implantar sua ordem doente e vazia de humanidade.

Esse é o jogo.


(*) Rafael Guimaraens é jornalista e escritor.

4 comentarios




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Excelente relato Rafael, o encontro com Pedro Selig é inesquecível. Que o diabo mantenha seu discípulo nas profundezas.

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Antonio Matos

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Belo relato, para relembrar aos militantes da época e "dar conhecimento" aos chegados após 77. Minha memória sobre Seelig realça para 1978 no sequestro dos compas uruguaios Lilian e Universindo acontecido na Azenha.

Antonio

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