EXISTE UM ABISMO ENTRE O QUE O GOVERNO MELO DIZ E O QUE A COMUNIDADE ESCOLAR VIVE NA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DE PORTO ALEGRE
- Alexandre Costa

- há 7 horas
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por ALEXANDRE COSTA | WWW.ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR

Porto Alegre vive uma das mais graves crises de sua história recente na educação pública municipal. Não se trata de um problema pontual nem de falhas administrativas isoladas. O que está em curso é um processo estrutural de precarização, desvalorização dos trabalhadores, fragilização da democracia escolar e substituição do direito à educação por uma lógica de gestão baseada em números e propaganda.
Enquanto o governo do prefeito Sebastião Melo sustenta o discurso de melhora de indicadores e supostos avanços pedagógicos, a realidade cotidiana das escolas é marcada por prédios deteriorados, falta de profissionais, obras inacabadas, carência de materiais, sobrecarga de trabalho e crescente adoecimento dos servidores.
Precarização das escolas, arrocho salarial e violação à democracia fazem parte da realidade da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre
ESCOLAS PRECARIZADAS E COMUNIDADE DESCONTENTE
Relatos vindos de diferentes regiões da cidade apontam para um cenário recorrente: salas superlotadas, bibliotecas fechadas, laboratórios sem funcionamento, equipes incompletas e improviso permanente. O início do ano letivo de 2026 foi marcado por denúncias de escolas sem condições mínimas de funcionamento.
Não se trata apenas de infraestrutura. Trata-se da corrosão de um projeto histórico de educação pública que sempre teve na participação comunitária e na valorização dos trabalhadores seus pilares.
ARROCHO SALARIAL: UMA DÉCADA DE PERDAS
Segundo cálculos atualizados pelo Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa), a defasagem salarial acumulada dos servidores municipais chega a 35,60% até agosto de 2025, considerando perdas inflacionárias não repostas desde maio de 2016, mesmo após reajustes parciais concedidos em 2022 (10,06%) e 2023 (5,79%). [1][4]
Em abril de 2025, a Câmara Municipal aprovou um reajuste de 4,83% para os servidores do Executivo, parcelado entre setembro de 2025 e abril de 2026. [2][3] O percentual cobre apenas a inflação de 2024 e não recompõe as perdas históricas. Em outubro de 2025, a base governista rejeitou uma emenda à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 que buscava garantir a recomposição salarial acumulada da categoria. [4]
O contraste é gritante: enquanto professores e demais servidores acumulam perdas superiores a 35%, os subsídios do prefeito, vice-prefeito e secretários passaram a valer novos patamares a partir de 1º de janeiro de 2025, com o salário do prefeito chegando a R$ 34,9 mil, segundo dados divulgados pelo próprio sindicato. [4]
DISCURSO OFICIAL DE “RESULTADOS”
À frente da Secretaria Municipal de Educação desde 2025, o secretário Leonardo Pascoal (PL) sustenta publicamente a tese de que Porto Alegre vive uma “virada” na educação.
Em janeiro de 2026, a SMED publicou artigo institucional afirmando que 2025 foi um ano de planejamento, execução e entrega de resultados. [5] Em fevereiro de 2026, a Prefeitura divulgou avaliação própria apontando redução superior a 40% na defasagem de aprendizagem na rede municipal. [6]
A comunidade escolar contesta: índices não significam, necessariamente, aprendizagem real. Para professores e pais, há forte pressão por elevação de taxas de aprovação e adequação estatística, sem que isso venha acompanhado de investimentos estruturais, condições de trabalho e valorização profissional.
CONTROLE, CENTRALIZAÇÃO E ATAQUES À DEMOCRACIA ESCOLAR
Em novembro de 2025, reportagem da Matinal revelou que a SMED publicou errata em edital de habilitação de diretores, explicitando que a Secretaria pode escolher livremente direções entre os habilitados, sem obrigação de seguir ordem de classificação. [8]
A mudança foi criticada por fragilizar a gestão democrática e abrir margem para indicações políticas.
Em janeiro de 2026, reportagem do Sul21 trouxe denúncias de autoritarismo e pressões sobre direções escolares, com relatos de interferência direta da SMED no cotidiano das escolas. [9]
Sem democracia interna, não há escola pública forte.
DINHEIRO DA EDUCAÇÃO NO BANCO DOS RÉUS
Em 19 de fevereiro de 2026, a Polícia Civil concluiu sete inquéritos da Operação Capa Dura, que apura suspeitas de irregularidades em contratações realizadas pela SMED em 2022. [10]
Foram registrados 48 indiciamentos envolvendo 34 pessoas, por suspeitas de fraude em licitações, contratações irregulares e organização criminosa. [10][11]
As investigações envolvem compras de livros, jogos pedagógicos e laboratórios educacionais que somam dezenas de milhões de reais. [10][11]
A REUNIÃO FORA DA AGENDA E O NÚCLEO POLÍTICO DO CASO
Segundo o Matinal Jornalismo, o prefeito Sebastião Melo recebeu, no Paço Municipal, empresários do ramo de materiais didáticos e vereadores da sua base pouco antes da compra de livros que somou mais de R$ 43 milhões pela SMED, via adesão a atas de registro de preços (“carona”), especialmente do Estado de Sergipe. [12]
Entre os participantes estava o então vereador Pablo Melo (MDB), filho do prefeito. Pablo Melo passou a ser investigado por seu papel na mediação de interesses e teve seu gabinete alvo de busca e apreensão. [12]
As investigações indicam que representantes de empresas que posteriormente se tornaram fornecedoras da SMED participaram do encontro. [12]
Até o momento, a Polícia Civil não indiciou diretamente o prefeito, e Melo afirma não ter participado dos processos de compra. [10][12] Isso não autoriza afirmar crime por parte do chefe do Executivo, mas autoriza e exige aprofundamento das apurações sobre possível influência política indevida.
DUAS CPIs, DOIS CAMINHOS
Em 2023, a Câmara Municipal instalou duas CPIs sobre as compras da SMED. [14]
Uma delas buscou aprofundar a investigação, aprovando oitivas de testemunhas ligadas a contratos e compras. [15]
A outra apresentou relatório final que, embora reconhecesse falhas administrativas, não concluiu pela existência de irregularidades graves, sendo criticada por entidades e sindicatos como um documento que blindou politicamente o governo. [16]
DO LEGISLATIVO À POLÍCIA: UMA LINHA DE CONTINUIDADE
Denúncias jornalísticas, disputas políticas, CPIs e, por fim, investigação policial: o que começou como suspeita transformou-se em caso policial de grande porte, com dezenas de indiciados. A fase policial está encerrada. Agora começa a fase decisiva.
UM CHAMADO À SOCIEDADE, AO MP E À JUSTIÇA
Cabe ao Ministério Público analisar os inquéritos, oferecer denúncias quando houver elementos e aprofundar as investigações. Cabe ao Judiciário garantir julgamento técnico, independente e transparente. O que está em jogo não é apenas a responsabilização de indivíduos, mas a defesa do direito à educação pública.
Cada real desviado, mal utilizado ou direcionado significa menos livros onde realmente são necessários, menos merenda de qualidade, menos professores, menos aprendizagem.
EM NÚMEROS
35,60% de defasagem salarial acumulada até ago/2025. [4]
4,83% de reajuste aprovado em 2025, parcelado até 2026. [2][3]
7 inquéritos concluídos na Operação Capa Dura. [10][11]
34 pessoas indiciadas. [10][11]
Mais de R$ 43 milhões em compras de livros sob suspeita. [12]
A CRISE NÃO É ACIDENTE
A crise da educação municipal não é acidente. É resultado de escolhas políticas.
O Esquina Democrática se posiciona: educação é direito, não negócio; educação é política pública, não é marketing; educação é democracia!
FONTES
[3] https://manuais.procempa.com.br/books/manuais-do-cidadao-previmpa/page/pagamentos-2026-e-reajustes-salariais
[4] https://simpa.org.br/emenda-que-garante-reposicao-salarial-dos-municiparios-e-rejeitado-pela-base-do-governo-melo/
[5] https://prefeitura.poa.br/smed/noticias/artigo-educacao-que-planeja-executa-e-entrega-resultados
[6] https://prefeitura.poa.br/smed/noticias/avaliacao-aponta-que-porto-alegre-reduziu-defasagem-escolar-em-mais-de-40
[7] https://prefeitura.poa.br/smed/noticias/publicado-decreto-que-trata-sobre-proibicao-do-uso-de-celular-em-escolas-municipais
[8] https://www.matinal.org/reportagem/smed-corrige-edital-e-afirma-que-escolhera-diretores-de-escolas/
[9] https://sul21.com.br/noticias/educacao/2026/01/ou-anda-conforme-a-gente-quer-ou-nao-vai-ficar-ex-diretora-relata-pressoes-da-smed/
[10] https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/02/19/inqueritos-sobre-fraude-na-educacao-em-porto-alegre-sao-concluidos-com-34-indiciados.ghtml
[11] https://sul21.com.br/noticias/geral/2026/02/policia-civil-indicia-34-pessoas-apos-concluir-investigacoes-de-possiveis-fraudes-na-smed/
[12] https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/reportagem-matinal/melo-recebeu-empresarios-antes-da-compra-suspeita/
[13] (cobertura GDI/RBS sobre materiais empilhados)
[15] https://www.camarapoa.rs.gov.br/noticias/cpi-da-educacao-aprova-oitivas-de-testemunhas-ligadas-a-compras-e-contratos-da-smed
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