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DE MARADONA A MESSI: DEVOLVAM AS MALVINAS À ARGENTINA, POR ALEXANDRE COSTA*



Eduardo Galeano costumava dizer que o futebol é muito mais do que um espetáculo esportivo. É um espaço onde povos projetam alegrias, frustrações, derrotas, esperanças e identidades. Poucos confrontos ilustram essa ideia com tanta intensidade como a disputa entre Argentina e Inglaterra, jogo que definiu o adversário da Espanha na Copa do Mundo de 2026.


A Argentina alcançou sua sétima final de Copa do Mundo depois das decisões disputadas em 1930, 1978, 1986, 1990, 2014 e 2022. A trajetória até o confronto decisivo de 2026 foi marcada por uma capacidade de superação difícil de encontrar em outras campanhas: vitória sobre Cabo Verde após prorrogação, reação diante do Egito, novo tempo extra contra a Suíça e virada sobre a Inglaterra, construída nos minutos finais de uma semifinal em que Messi participou dos dois gols argentinos. Não é comum que uma equipe atravesse tantas situações extremas e chegue à decisão sem transformar o sofrimento em parte de sua identidade coletiva.


Aos 39 anos, Lionel Messi também alcançou sua terceira final de Copa, depois do vice-campeonato no Brasil, em 2014, e do título conquistado no Catar, em 2022. Com isso, igualou-se a Cafu, presente nas decisões de 1994, 1998 e 2002, em uma marca que demonstra não apenas longevidade, mas a capacidade de permanecer decisivo em diferentes gerações do futebol. Contra a Inglaterra, quando o desgaste físico parecia limitar a Argentina, o camisa 10 encontrou energia e lucidez para produzir as duas assistências que conduziram a seleção à vitória por 2 a 1.


Nas horas que antecederam a partida, a vice-presidente argentina, Victoria Villarruel, elevou o tom da rivalidade ao relacionar o confronto à histórica reivindicação pelas Ilhas Malvinas. Filha de um veterano da guerra de 1982, ela classificou os ingleses como “piratas usurpadores”, afirmou que não se tratava de um jogo qualquer e declarou que a Argentina continuaria reivindicando o arquipélago “até o último suspiro”.


Nas arquibancadas e na memória coletiva de milhões de argentinos e britânicos, porém, continuará em disputa uma história que começou muito antes do apito inicial e que dificilmente terminará quando a bola parar de rolar.


A Argentina não enfrentou apenas a Inglaterra. Quando as duas seleções entraram em campo, a disputa revive a história que é muito anterior ao apito inicial, marcada pela ocupação britânica das Ilhas Malvinas, pela guerra de 1982 e por uma reivindicação de soberania que atravessa governos, ideologias e gerações. A guerra durou 74 dias e terminou com a vitória britânica, deixando 649 militares argentinos e 255 britânicos mortos. Quatro décadas depois, a reivindicação permanece como uma política de Estado e como um dos poucos temas capazes de atravessar as profundas divisões da sociedade argentina.


Em 1986, Diego Armando Maradona converteu essa memória em dois gols que entraram para a história. Um nasceu da mão que ele atribuiu a Deus; o outro, dos pés que atravessaram a defesa inglesa e produziram uma das imagens definitivas do futebol.


Quarenta anos depois, coube a Lionel Messi conduzir outra Argentina contra o mesmo adversário. Aos 39 anos, ele já não domina o jogo pela velocidade contínua, mas pela capacidade de compreender o tempo da partida, economizar movimentos, observar os espaços e escolher os instantes em que sua intervenção pode alterar o destino coletivo. Na semifinal de 2026, Messi participou diretamente da reação que levou a Argentina à vitória por 2 a 1, com duas assistências nos minutos finais.


Nesta Copa do Mundo, cada partida argentina foi uma batalha de superação. Messi transformou as limitações físicas impostas pela idade em inteligência, precisão e liderança, utilizando a caminhada e a aparente ausência para estudar o campo antes de acelerar nos momentos decisivos. Dados da competição mostram que, mesmo administrando o esforço, ele permaneceu entre os jogadores mais determinantes na criação de jogadas capazes de resultar em finalizações.


O futebol não devolverá as Malvinas à Argentina, assim como não eliminará a fome, não garantirá moradia, não recuperará salários nem interromperá as políticas que transferem para a maioria da população o custo do ajuste econômico. Entretanto, quando Messi conduz a bola, vestindo a camisa 10 da seleção do seu país, milhões de argentinos esquecem de tudo.


Maradona transformou o confronto de 1986 em uma reparação simbólica. Messi, 40 anos depois, nos mostra que a antiga reivindicação permanece atravessada na garganta dos argentinos.


Seja como for, em outra dimensão, os deuses do futebol parecem dizer ao mundo: Devolvam as Malvinas à Argentina!


Esse artigo foi escrito com a mão esquerda, utilizando um aplicativo de voz e com ajuda da minha querida Silvana.


Alexandre Costa é jornalista responsável pelo Esquina Democrática


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