CAPÍTULO 1 — DO ASSASSINATO DE MARIELLE ÀS MILÍCIAS: AS CONEXÕES QUE MARCAM A TRAJETÓRIA DE FLÁVIO BOLSONARO
Atualizado: há 7 horas
O assassinato da vereadora revelou a atuação de grupos criminosos ligados ao poder político no Rio de Janeiro. Anos depois, homenagens a policiais, nomeações em gabinete e negociações de emendas parlamentares colocam a trajetória do candidato à Presidência sob escrutínio.
POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR

Na noite de 14 de março de 2018, quando Marielle Franco foi assassinada no centro do Rio de Janeiro, o Brasil perdeu uma das vozes políticas que emergiam das periferias para questionar a violência policial, o racismo, as desigualdades e o poder de grupos armados sobre comunidades inteiras. O motorista Anderson Gomes também foi morto. O crime, inicialmente cercado por perguntas sobre seus executores e mandantes, expôs uma estrutura de interesses que ultrapassava a ação de pistoleiros e alcançava setores da política fluminense. [3] [4]
Oito anos depois, o Supremo Tribunal Federal condenou os irmãos Domingos e João Francisco, conhecido como Chiquinho Brazão, como mandantes do assassinato. A decisão de fevereiro de 2026 reconheceu a atuação de uma organização criminosa associada à exploração de territórios, negócios imobiliários clandestinos e influência política. [4]
A história de Marielle também conduz a uma questão que merece investigação: quais eram as relações entre políticos eleitos, agentes da segurança pública e personagens associados às milícias do Rio de Janeiro?
Entre os nomes que aparecem nesse cenário está o do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República em 2026. Durante sua passagem pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Flávio homenageou policiais que posteriormente seriam associados a investigações sobre milícias. Também empregou familiares de um deles em seu gabinete. Mais recentemente, uma assessora do senador foi identificada em negociações de emendas parlamentares com um integrante da organização criminosa condenada no caso Marielle. [5] [7]
Essas relações não comprovam participação de Flávio Bolsonaro no assassinato de Marielle, crime pelo qual ele não foi condenado nem identificado como participante nas decisões judiciais examinadas. Mas constituem fatos de interesse público que precisam ser conhecidos e contextualizados. [5] [7]
MARIELLE PODERIA TER DISPUTADO AS ELEIÇÕES DE 2018?
Marielle chegou à Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 2017, depois de conquistar 46.502 votos nas eleições de 2016, tornando-se a quinta vereadora mais votada da cidade. Mulher negra, nascida e criada na Maré, socióloga e defensora dos direitos humanos, representava uma renovação política que encontrava apoio entre movimentos sociais, organizações feministas e setores progressistas. [1]
Sua projeção já ultrapassava os limites da Câmara Municipal.
Em março de 2018, Marielle era considerada pelo PSOL para integrar, como candidata a vice-governadora, a chapa de Tarcísio Motta ao governo fluminense. A possibilidade foi noticiada por diferentes veículos de imprensa e confirmada em declarações de pessoas próximas à vereadora. [1] [2]
Esse dado é relevante porque demonstra que Marielle possuía perspectivas concretas de ampliar sua atuação política nas eleições daquele ano.
Entretanto, a pesquisa realizada para esta reportagem não encontrou levantamento de intenção de voto que apontasse Marielle como favorita ao Senado ou como adversária eleitoral direta de Flávio Bolsonaro.
A distinção é necessária. Uma liderança em ascensão pode representar uma ameaça aos interesses políticos e econômicos estabelecidos sem necessariamente disputar a mesma eleição que outro candidato. No caso de Marielle, a investigação criminal identificou uma motivação relacionada à sua atuação parlamentar e aos interesses territoriais dos grupos envolvidos no assassinato. [3]
O PODER DAS MILÍCIAS E A DISPUTA PELO TERRITÓRIO
As milícias do Rio de Janeiro desenvolveram um modelo de domínio territorial que combina violência armada, exploração econômica e influência política. Em regiões sob seu controle, esses grupos passaram a explorar atividades como venda irregular de terrenos, construção de imóveis, transporte alternativo, serviços clandestinos de segurança e cobrança de taxas de moradores e comerciantes. A atuação política tornou-se parte desse sistema, permitindo interferência sobre decisões administrativas, regularização de terras e disputas eleitorais. [3]
Segundo a Procuradoria-Geral da República, os irmãos Brazão mantinham relações com milícias que exploravam negócios ilícitos e buscavam ampliar seu controle sobre áreas da Zona Oeste carioca. A atuação parlamentar de Marielle contrariava interesses econômicos e políticos dessas organizações, especialmente em questões relacionadas à ocupação do solo e à regularização fundiária. A condenação dos mandantes, portanto, colocou no centro do caso uma questão fundamental: o assassinato de uma representante eleita estava relacionado à defesa de interesses criminosos que dependiam da articulação entre poder econômico, controle territorial e influência política. [3] [4]
AS HOMENAGENS DE FLÁVIO BOLSONARO A POLICIAIS POSTERIORMENTE LIGADOS ÀS MILÍCIAS
Um dos personagens mais conhecidos dessa história é Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), posteriormente apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime. Em 2003, quando exercia mandato de deputado estadual, Flávio Bolsonaro apresentou uma homenagem a Adriano. Em 2005, o ex-policial recebeu a Medalha Tiradentes, uma das principais honrarias concedidas pela Alerj, por iniciativa do parlamentar. A entrega ocorreu quando Adriano estava preso. [5]
Flávio também homenageou Ronald Paulo Alves Pereira, policial militar que, anos depois, seria investigado por sua participação no assassinato de Marielle e Anderson Gomes. [4] [5]
Em fevereiro de 2026, Ronald foi condenado pelo STF por seu envolvimento no planejamento do crime. [4] [5]
O fato de essas homenagens terem ocorrido antes das condenações e de parte das investigações é uma informação indispensável para compreender a cronologia. Entretanto, elas demonstram que personagens posteriormente identificados em investigações sobre organizações criminosas haviam recebido reconhecimento político do então deputado estadual.
Flávio Bolsonaro sustenta que as homenagens ocorreram quando os policiais eram reconhecidos por suas atividades profissionais e rejeita a interpretação de que representem apoio ao crime organizado. [5]
A MÃE E A EX-ESPOSA DE ADRIANO EMPREGADAS NO GABINETE
A relação com Adriano da Nóbrega não se limitou às homenagens.
Raimunda Veras Magalhães, mãe do ex-policial, e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, sua então esposa, foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. As duas apareceram posteriormente nas investigações sobre o suposto esquema de recolhimento de parte dos salários de assessores parlamentares, conhecido como rachadinha. [5]
Segundo informações reunidas pelo Ministério Público e divulgadas pela imprensa, Danielle realizou transferências que totalizaram pelo menos R$ 150 mil a Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Parte dos valores teria passado por contas relacionadas a Adriano da Nóbrega. [5]
Fabrício Queiroz afirmou, em janeiro de 2019, que havia sido responsável pela indicação das duas mulheres para trabalhar no gabinete. [6]
As investigações sobre as rachadinhas sofreram reveses judiciais decisivos. Provas foram anuladas por tribunais superiores, e o procedimento acabou encerrado sem condenação de Flávio Bolsonaro. O senador sempre negou a existência do esquema. [5]
O caso será examinado detalhadamente no segundo capítulo desta série.
O ELO MAIS RECENTE: EMENDAS PARLAMENTARES E UM CONDENADO NO CASO MARIELLE
Oito anos depois do assassinato de Marielle, uma nova investigação trouxe à tona relações entre o gabinete de Flávio Bolsonaro e um integrante da organização criminosa identificada pela Justiça. Em setembro de 2026, reportagens da Folha de S.Paulo, do Estadão e da CNN Brasil revelaram que Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora do senador, havia negociado a liberação de emendas parlamentares com Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe. [7] [8]
Calixto foi condenado pelo STF, em fevereiro de 2026, a nove anos de prisão por integrar a organização criminosa ligada aos irmãos Brazão. A condenação não foi por participação direta nos homicídios. [4]
As conversas investigadas ocorreram em 2023 e 2024, antes da condenação, e foram encontradas pela Polícia Federal no telefone de Calixto. [7] [8]
O contato da assessora estava identificado no aparelho como "Fafá Flávio Bolsonaro". Nas mensagens, Calixto solicitava ajuda para obter recursos destinados ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), localizado na região da Taquara, área de influência política dos irmãos Brazão. O senador destinou R$ 199 mil a um projeto de futebol desenvolvido pela entidade. A Polícia Federal identificou indícios de irregularidades e possíveis desvios de recursos. Outros repasses, que elevariam o montante relacionado à organização a aproximadamente R$ 600 mil, também passaram a ser examinados. [7] [8]
A investigação indica que a assessora atuava como interlocutora entre Calixto e o gabinete parlamentar. Isso não demonstra, por si só, que Flávio Bolsonaro conhecesse eventuais irregularidades ou tivesse participação em desvios. Em resposta às reportagens, o senador afirmou que os repasses seguiram a legislação e os critérios técnicos do Ministério do Esporte. Sustentou também que a responsabilidade pela execução dos recursos cabe à entidade beneficiária e que possíveis irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos competentes. [7] [8]
O episódio acrescenta uma dimensão contemporânea às relações políticas investigadas: não se trata apenas de homenagens concedidas duas décadas atrás, mas de negociações de recursos públicos realizadas por integrantes do gabinete de um senador com uma pessoa posteriormente condenada por integrar organização criminosa.
O QUE OS FATOS REVELAM — E O QUE AINDA NÃO FOI ESCLARECIDO
A trajetória de Flávio Bolsonaro reúne episódios distintos que não devem ser tratados como se constituíssem uma única investigação criminal. As homenagens a Adriano da Nóbrega e Ronald Paulo Alves Pereira ocorreram durante seu mandato na Assembleia Legislativa. A contratação de familiares de Adriano integrou o contexto investigado no caso das rachadinhas. Já as negociações de emendas com Robson Calixto ocorreram quando Flávio exercia mandato no Senado. [5] [7]
Esses acontecimentos possuem documentação própria, datas diferentes e consequências jurídicas distintas. O que os aproxima é a presença de personagens associados a organizações milicianas em episódios da trajetória política do senador. A existência dessas conexões, entretanto, não autoriza concluir que Flávio Bolsonaro tenha integrado uma milícia ou participado do assassinato de Marielle Franco. Não foram identificadas provas materiais que sustentem essas conclusões nas fontes examinadas. [4] [5]
A questão jornalística é compreender como essas relações foram estabelecidas, quais interesses estavam envolvidos, o que era conhecido pelos agentes políticos em cada momento e quais respostas foram apresentadas quando os fatos se tornaram públicos.
Marielle Franco foi assassinada porque sua atuação política contrariava interesses de uma organização criminosa, conforme a acusação acolhida no julgamento dos mandantes. A condenação dos irmãos Brazão demonstrou a gravidade da associação entre poder político, controle territorial e atividades ilegais. [3] [4]
Examinar as relações documentadas de outros políticos com integrantes desse universo não significa atribuir a eles a responsabilidade pelo crime. Significa investigar um sistema de poder cuja influência ultrapassou governos, partidos e mandatos. É nesse contexto que a trajetória de Flávio Bolsonaro merece ser examinada.
O senador que agora disputa a Presidência da República construiu parte importante de sua carreira política no mesmo estado em que essas estruturas criminosas ampliaram sua influência. As homenagens, as nomeações e as negociações de recursos públicos são fatos documentados. A interpretação de seus significados políticos e a eventual existência de responsabilidades criminais exigem provas específicas.
O esclarecimento dessas relações é uma questão de interesse público, especialmente quando envolve alguém que pretende exercer a Presidência da República.
FONTES PARA CHECAGEM
As referências abaixo sustentam as informações centrais da reportagem, com indicação específica do que cada documento comprova.
[1] O Dia — Marielle era cotada para vice-governadora (15/03/2018). Documenta a possibilidade de Marielle integrar a chapa de Tarcísio Motta.
[2] BBC/UOL — Entrevista com Anielle Franco (20/03/2018). Registra o relato da irmã sobre a projeção política de Marielle.
[3] STF — Acusação da PGR e motivação do assassinato. Apresenta os interesses territoriais, econômicos e políticos apontados como motivação do crime.
[4] STF — Condenação e penas dos réus (25/02/2026). Comprova as condenações, os crimes reconhecidos e as penas aplicadas.
[5] Folha — Relações do clã Bolsonaro com suspeitos de envolvimento no crime organizado. Documenta as homenagens a Adriano da Nóbrega e o emprego de familiares no gabinete.
[6] Brasil de Fato — Queiroz e as indicações para o gabinete (22/01/2019). Registra a declaração de Fabrício Queiroz sobre as contratações.
[7] Folha — Assessora negociou emendas com Robson Calixto (21/09/2026). Documenta as mensagens, os recursos destinados e a posição da defesa.
[8] CNN Brasil — Investigação da PF sobre emendas (22/09/2026). Apresenta os indícios examinados pela Polícia Federal e os esclarecimentos do senador. CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA
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