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BRASIL DIANTE DO PODER DAS 'BIG TECHS' E DO COLONIALISMO DIGITAL

por Alexandre Costa | jornalista*

Com base em três artigos do Le Monde Diplomatique Brasil, o Esquina Democrática decidiu cruzar temas como soberania digital, crise do modelo de negócios do jornalismo e do mercado do tempo de tela. As informações reunidas nesta matéria tratam dos mecanismos de controle da informação, da legislação e regulação das plataformas, dos processos de manipulação da cognição em massa e da violação da soberania e da própria democracia no país. Enquanto o jornalismo perde receitas para as plataformas digitais, em pouco mais de uma década o Estado brasileiro gastou R$ 23 bilhões com Big Techs. Ano após ano, as gigantes das tecnologias consolidam o colonialismo digital que exercem em relação a países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Esta relação de dominação e dependência faz parte de um dos braços fortes do capitalismo e uma das mais potentes e silenciosas armas de interferência nos rumos políticos e econômicos e na democracia e na soberania das sociedades menos abastadas no mundo. É preciso ficar atento também à economia da atenção, que transforma dados pessoais e tempo de tela em mercadoria [1][3][5].

INFRAESTRUTURA DIGITAL: DEPENDÊNCIA E VULNERABILIDADE

Entre 2014 e 2025, o setor público brasileiro destinou cerca de R$ 23 bilhões a Big Techs como Microsoft, Oracle, Google e Red Hat, em contratos de licenças, serviços em nuvem e soluções de segurança [1]. Com esses recursos seria possível construir 86 data centers Tier 3 de 5 MW, capazes de hospedar sistemas críticos do Estado e garantir maior soberania sobre dados sensíveis [1]. Em 2024, apenas em um ano, o gasto foi de R$ 10 bilhões, valor que poderia financiar bolsas de pós-graduação para todos os mestrandos e doutorandos do país ou manter uma universidade do porte da UnB em pleno funcionamento por mais de quatro anos [1].


Ao optar por terceirizar sua infraestrutura digital, o Brasil não apenas contrata serviços, mas se insere em uma lógica de dependência que opera sob o Cloud Act, lei norte-americana de 2018 que obriga empresas de tecnologia dos EUA a fornecer dados às autoridades daquele país, mesmo quando armazenados fisicamente em outros territórios [1][2]. Assim, parte da infraestrutura administrativa, fiscal, previdenciária e educacional brasileira torna-se vulnerável a interferências externas, sem que o Estado brasileiro tenha controle ou sequer conhecimento de quando seus dados são acessados por autoridades estrangeiras.


JORNALISMO CAPTURADO: A PLATAFORMIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO

Pesquisas do Instituto Reuters, em parceria com a Universidade de Oxford, mostram que entre quem consome notícias online, 30% o fazem principalmente pelas redes sociais, enquanto apenas 22% acessam diretamente os sites dos veículos jornalísticos [3]. Em um cenário de concentração, cerca de 4,7 bilhões de pessoas são usuárias ativas de redes sociais, o equivalente a 59% da população mundial, e plataformas como Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube, TikTok e X formam um oligopólio global de circulação de informação [3].


Ao mesmo tempo em que reconfiguraram o fluxo informacional, essas empresas drenaram a principal fonte de receita do jornalismo – a publicidade – e passaram a financiá-lo seletivamente. Entre 2017 e 2022, Google e Facebook destinaram cerca de US$ 900 milhões para mais de 6,7 mil veículos e entidades jornalísticas no mundo, incluindo ao menos 424 organizações no Brasil [3][4]. Essa combinação de perda de receita própria e entrada de recursos condicionados das Big Techs aprofunda a vulnerabilidade econômica das redações, a dependência tecnológica e a assimetria de poder na definição do que circula no espaço público. O jornalismo de interesse público, que não atrai investimento das plataformas por não gerar engajamento massivo, fica ainda mais fragilizado.


ECONOMIA DA ATENÇÃO: A MERCANTILIZAÇÃO DA MENTE

Em um contexto de sobrecarga informacional, o recurso escasso passa a ser a atenção dos indivíduos, que se torna o insumo central de um modelo de negócios baseado na captura e monetização de dados comportamentais [5]. A United Nations Economist Network (UNEN) estima que a economia da atenção movimente valores na ordem de trilhões de dólares globalmente, sendo algo em torno de US$ 1,4 trilhão apenas nos Estados Unidos [5].


Plataformas coletam, processam e vendem dados que permitem a criação de "gêmeos digitais humanos", representações precisas de comportamentos e preferências que podem ser usadas para publicidade, segmentação política e manipulação de decisões [5]. A Assembleia Geral da ONU já reconheceu, em 2021, que o comércio de dados pessoais, entendidos como parte da integridade humana, sem consentimento adequado, constitui um dos grandes perigos contemporâneos [4][5].


Ao maximizar engajamento por meio de conteúdos virais, polêmicos e polarizantes, as plataformas produzem efeitos sociais, éticos e políticos profundos: erosão do controle dos indivíduos sobre seus dados, degradação da experiência online, radicalização, discurso de ódio e ataques às instituições democráticas, como evidenciado na invasão do Capitólio em 2021 e do Congresso Nacional em 8 de janeiro de 2023 [5].


UMA DISPUTA PELO FUTURO DEMOCRÁTICO

Ao integrar esses três planos, fica evidente que o Brasil está diante de uma disputa que ultrapassa o terreno econômico e técnico. Trata-se de uma guerra cognitiva em que infraestruturas digitais privadas – frequentemente articuladas a interesses geopolíticos, como mostra o conceito de "Meta-Trumpismo" – operam sobre a esfera informacional, as instituições e a própria formação da opinião pública [1][5]. A digitalização acelerada do Estado sem soberania tecnológica, a captura do jornalismo pelas plataformas e a economia da atenção orientada por um capitalismo de vigilância compõem um cenário em que a democracia é pressionada por fora e por dentro.


O Esquina Democrática considera que enfrentar esse quadro exige políticas públicas de soberania digital, regulação democrática das plataformas, mecanismos transparentes de financiamento do jornalismo de interesse público e ações de educação midiática e proteção da atenção como bem coletivo. Defendemos o direito da sociedade brasileira de decidir, de forma autônoma, sobre seus dados, suas infraestruturas e seus fluxos de informação.


Ao mesmo tempo, registramos a importância do trabalho realizado pelo Le Monde Diplomatique Brasil, que, ao publicar análises detalhadas sobre guerra cognitiva, crise do modelo de negócio do jornalismo e economia da atenção, oferece ao debate público brasileiro instrumentos conceituais e empíricos para compreender a profundidade e a complexidade dessa disputa [1][3][5]. Esta matéria se coloca como um desdobramento e um elogio a esse esforço editorial: a partir dos conteúdos ali produzidos, buscamos ampliar a reflexão crítica, situando o caso brasileiro no cruzamento entre soberania, direitos humanos, comunicação e poder informacional.



REFERÊNCIAS

[1] ROCHA, Isabela; MODANEZ, Camila. Meta-Trumpismo e guerra cognitiva – Para além das tarifas, a disputa está na cognição. Le Monde Diplomatique Brasil, 15 jul. 2025.


[2] ESTADOS UNIDOS. Clarifying Lawful Overseas Use of Data Act (CLOUD Act). Public Law 115–141, 2018.


[3] VIANNA, Rodolfo. Avanço das big techs e crise no modelo de negócio do jornalismo – Faces da mesma moeda. Le Monde Diplomatique Brasil, 25 abr. 2024.


[4] PAPAEVANGELOU, Charis. Funding Intermediaries: Google and Facebook's Strategy to Capture Journalism. University of Amsterdam. Dados citados em VIANNA, 2024 [3].


[5] NORONHA, Ana Carolina Cortez. Economia da atenção: muito além da preocupação econômica. Le Monde Diplomatique Brasil, 15 dez. 2025. Baseado em: UNITED NATIONS ECONOMIST NETWORK (UNEN). New Economics for Sustainable Development – Attention Economy.


LINKS DOS ARTIGOS UTILIZADOS

Meta-Trumpismo e guerra cognitiva – Para além das tarifas, a disputa está na cognição:


Avanço das big techs e crise no modelo de negócio do jornalismo – Faces da mesma moeda:


Economia da atenção: muito além da preocupação econômica:

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