BRASIL 2056 | POR JONAS TIAGO SILVEIRA*

Noite passada aconteceu algo muito estranho, um viajante do tempo apareceu, ele disse que precisava me alertar sobre o futuro e assim eu segui com ele até o Brasil de 2056.
Primeiro, que diferente do que eu esperava, a máquina do tempo não era um DeLorean como em De Volta para o Futuro e sim um Del Rey azul jamaica metálico. O viajante usava vestes estranhas, feito de algum material que fazia as cores das roupas mudarem conforme queria, mas me alertou que era preciso ver um anúncio a cada trinta minutos, ou as roupas se tornavam transparentes e expunham o usuário. O caminho através do tempo-espaço até o ano de 2056 não foi demorado, mas passamos por dois pedágios.
Quando chegamos, meu guia foi procurar roupas da época, para que eu conseguisse me misturar. Falei para ele que estava desprovido de dinheiro, mas ele me alertou que o plano real não existia mais e que o mundo inteiro usava a mesma moeda. Ele riu quando perguntei se era o dólar ou o euro, depois me explicou que tudo era pago com engajamento em mídias sociais, também conhecido como “CriaCoins”.
O cenário nas ruas não parecia tão diferente de um bairro menos desenvolvido dos dias atuais, com a diferença que era bem normal achar pessoas dançando naquele cenário. Meu guia me explicou que ali no futuro, as profissões mais populares eram Comentarista de treta ou Divulgadores de restaurantes secretos, mas que independente da carreira, todos tinham que fazer dancinhas de Tik Tok 3.0 por pelo menos quinze minutos por dia, para ter acesso ao CQC, no caso não o programa de televisão, mas o Cadastro Quase Único.
Outra dificuldade no futuro eram os nomes, descobri que 40% da população adulta se chamava Enzo Gabriel, enquanto 42% se chamava Valentina. Para driblar essa dificuldade, eles se chamavam pelos seus endereços na rede, como por exemplo, "Enzo Gabriel Arobba NoventaEseis". Os mais velhos perderam o título de terceira idade, eram chamados de “Geração Cringe” e agora viviam em asilos especializados, os únicos lugares no mundo onde ainda usavam a pontuação correta ao escrever e as palavras não eram abreviadas.
Foi em Brasília que ainda tinha esperança de ver instituições similares ao nosso tempo. A primeira parada foi diante da placa do STF, onde as letrinhas continuavam iguais, mas infelizmente o significado foi alterado. O Supremo Tribunal do Flop não trazia ministros com togas e sim com “outfits” patrocinados. As sentenças não se baseavam em nenhuma constituição, mas sim nos tais “reacts”. As sessões eram transmitidas ao vivo e o destino do julgado era decidido em uma enquete online. A pena não era em anos de prisão, mas sim em anos sem acesso a internet.
O congresso não me surpreendeu muito, descobri que a atual reforma tributária que colocaram em vigor foi aprovada porque o relator fez uma transição perfeita de vídeo e uma dancinha enquanto explicava a alíquota do IVA. Não achei tão fora dos padrões. As fachadas dos prédios públicos não tinham mais pintura tradicional; agora eram revestidas inteiramente de luzes LED RGB que mudam de cor conforme a taxa de juros que o Banco Central escolhia no dia.
A dificuldade na comunicação era constante, não existia “oi”, "por favor" e "com licença". Tudo é resolvido com termos como miau, flodar, tankar, skibidi e variações numéricas indecifráveis que até hoje eu não tenho a menor pista.
A alimentação foi bem complicada, o prato típico nacional era a "Marmita Fitness Gourmet em Pó", servida exclusivamente em copos térmicos de 1,2 litro que as pessoas carregam como se fossem órgãos vitais. Não me parecia tão saudável assim. Por falar em saúde, os médicos de 2056 não davam diagnósticos como os de hoje, cada paciente precisava participar de um episódio de reality show com médicos e residentes, para no fim ter sua análise, que não era a dos profissionais, mas sim a mais votada em enquete do público.
O futuro não nos livrou dos negacionistas, pelo contrário, em 2056, além dos antivacina ou terraplanistas, tem os antirealistas. Esse movimento acredita que Matrix foi um documentário filmado em tempo real e que eles estão presos em uma realidade falsa. Acreditam também que a única razão de não existir telefones fixos mais no mundo é para que as pessoas não possam sair da Matrix que nem no filme. Os antirealistas estão juntando assinaturas para fundar um partido e se juntar aos demais, o Partido dos Influenciadores, Partido dos Sobreviventes do Six-Seven e Os supremacistas Europeus de Santa Catarina.
A religião também era bem diferente, a Igreja do Santo Engajamento só não acabou com o Neopentecostalismo, porque a doutrina evangélica passou a ser empregada no exército brasileiro como forma de controlar as tropas. Na prática do Santo Engajamento, a comunhão não é feita com hóstia e sim com um gole de energético, mas para participar é preciso ver um anúncio e estar com a localização ativada.
A tecnologia teve alguns avanços, por exemplo na saúde, onde deixaram de lado todos os estudos de combate ao câncer e outros assuntos e focaram em mil novas formas de combater a impotência sexual masculina, todas elas também envolviam assistir algum anúncio durante o coito. As televisões praticamente não existiam, agora eram celulares de ao menos 24 polegadas. Sites de notícias ainda existiam, mas agora quando se ia ler o jornal online, uma IA já criava as notícias ao seu gosto pessoal e não de acordo com a realidade, uma tecnologia chamada apenas de Plin Plin.
O transporte estilo Uber seguia existindo, mas agora os carros não tinham motoristas e sim robôs. Infelizmente os robôs tiveram que assumir financiamentos dos carros, deixando de ser propriedades das empresas, para evitar uma nova crise econômica.
O último dia que passei lá foi tenso, primeiro fui assaltado e vi como a criminalidade mudou. Os assaltantes de rua não pedem mais carteira nem celular, eles te abordam com uma câmera apontada para a sua cara e te forçam a gravar um "Collab" constrangedor sob ameaça de te marcar como "Sem Sal" nas redes. Segundo, foi uma invasão na sede dos três poderes. O movimento dos antirealistas invadiu e instalou caixas de papelão pintadas de orelhão para tentar "desconectar da Matrix". Quem tentou usar só escutou o barulho de uma discagem de internet dos anos 90 em loop.
Antes de voltar, perguntei ao meu guia sobre a educação e ele me contou que disciplinas como Matemática foram substituídas por "Tráfego Pago I". Outras como História, agora consistiam em analisar tretas do passado no X (antigo Twitter), que era a nova enciclopédia desde que Elon Musk comprou as américas do sul e do norte da família Trump.
Após tantas informações, perguntei ao meu guia o que eu poderia fazer no passado para ajudar a humanidade a evitar aquele futuro terrível. Ele fez uma careta e disse: “Que futuro terrível? Eu só te trouxe aqui para que volte ao seu tempo e convença a CBF a demitir o Carlo Ancelotti antes da próxima copa”. Realmente, as prioridades não mudaram muito.
A viagem de volta foi silenciosa. *Jonas Tiago Silveira é escritor, músico e jornalista. 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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