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Blecaute e censura - Paulo Gaiger

 

No obtuso universo do governo catarinense, os livros são um perigo para crianças e adolescentes que frequentam suas escolas, quando, na verdade, o grande perigo é o próprio governo. Portanto, sem reconhecer o óbvio, censura os livros, os retira das bibliotecas. É provável que o governador do PL, muito próximo ao ex-presidente imbecil, alimente os sonhos de poder queimar livros em praça pública assim como o fizeram alguns de seus prováveis heróis nazifascistas inspiradores. Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força, são os lemas do regime totalitário de Oceania, do 1984, de George Orwell, mas que de modo similar almejava construir a família bolsonarista e, assustadoramente, rumo ao escárnio, Santa Catarina dá seus primeiros passos. Do que cremos que nos livramos? Há muito ainda que fazer, refazer, inventar. A educação está em frangalhos, nas famílias e nas escolas. Provavelmente, encontraremos pais, docentes, pastores, padres e estudantes que aplaudiram a decisão do governo catarinense. Um regime totalitário, a persecução e a censura geram alienação, sonolência, conforto, ausência de responsabilidade, vazio de empatia, total falta de amor. Por isso é fácil e sedutor. Silêncio, obediência e trabalho. Calem, prendam e matem os despertos e descontentes. No caderno DOC/ZH de 16 e 17 de setembro deste ano, o jornalista e compositor Robson Barenho trouxe a história da censura que caiu sobre a sua canção Romance Campesino por causa da palavra “tesão” (Ano inteiro, a mesma cena; de currais, jardins, paióis; a tesão por Madalena; atenção pra os girassóis). Parceria com Talo Pereyra, fora selecionada para o Festival Ciranda da Canção de Taquara, de 1983. Eu fui o intérprete e meu irmão, Júlio Gaiger, o advogado que conseguiu a liberação da canção para o festival e, posteriormente, para o disco. São 40 anos deste lamentável acontecimento. Naquele mês de setembro, de pesadelo da censura e submetidos a uma ditadura militar que, felizmente, já caminhava para o seu final, o que impressionou foi a omissão da gravadora Continental e, de certo modo, a passividade da direção do festival que chegou a sugerir a troca da palavra “tesão” por “obsessão”. Nenhum sentido, nem naquela época, nem agora. Significados e sentimentos completamente diferentes. Durante os 21 anos de ditadura foram milhares de casos de censura, prisão e tortura em todo o país, incluindo as artes e a imprensa. Em outros festivais da canção nativista, houve casos em que a censura também mostrou as garras. A gauchada andava meio anestesiada, temerosa ou muito focada em classificar sua música para o disco e para a premiação. Suspeito que devia ter coisa no mate que causava dormência e alheamento porque não lembro de haver algum movimento de solidariedade aos artistas censurados, protesto ou mobilização contra a tirania da censura. Vejam que um servidor público (agora é um governador), burocrata alçado ao máximo poder e com porte de arma determinava se o livro, poesia, composição, teatro, filme ou a notícia podia ou não ser veiculada. Ele decidia o que nós deveríamos saber, ver, ouvir e ler. Talvez com cortes ou trocando tesão por obsessão. País da obscuridade, 21 anos de blecaute e ignorância sobre si mesmo. Antes da Ciranda, em 1982, também em um mês de setembro, a censura bateu sobre uma composição minha selecionada para o Festival de Música Popular Brasileira promovido pelo Restaurante Vinha D’Alho. Amantes da noite porto-alegrense dos anos oitenta irão lembrar deste lugar acolhedor. “De te amar” trazia um tema homoafetivo, insuportável para os burocratas com porte de arma e pagos com o dinheiro público. Vergonha! Achei a letra com o carimbo “Vetada” quando buscava todo o material do processo referente ao Romance Campesino que eu havia guardado. Uma canção, um filme, um livro, uma pintura são expressões que revelam reflexões e um trabalho íntimo do autor ou da autora, que vão muito além da obra em si. É no encontro entre o espectador e a obra, na experiência estética única que o corpo arrepia, os olhos se enchem e a mente desperta. Sobretudo, a tirania e a censura nos retiraram a experiência estética, o direito a sentir, a pensar, a transformar. Deitados eternamente em berço sonolento! A censura, tal como a conhecemos de um período em que qualquer pensamento poderia terminar na prisão e numa sala de torturas, ponderávamos que não existisse mais, embora sempre tenha sido lembrada e afagada nestes quatro anos de regime bolsonarista. Nos tempos que correm, o governador de SC, o MBL e algumas igrejas fazem esse papel sujo blasfemando e ameaçando livros, museus e exposições de arte. Condenam artistas e intelectuais e, talvez, gostariam, no fundo, de reavivar a inquisição. Fogo nessa gente, deve sonhar algum pastor. Quase que o Brasil reelege um déspota, que em seu primeiro mandato já sinalizava a censura, a perseguição, a corrupção encoberta por orações, a homofobia, o racismo, a misoginia, a tirania e a ponta do fuzil em nossos olhos como modus operandi. Se Bolsonaro tivesse sido reeleito, o Brasil seria mais do que Santa Catarina: censura, terror e medo. Disso, por enquanto, escapamos, mas não estamos livres. A tirania e a censura são coisas de covardes e de gente anestesiada que podem ser nossos vizinhos!

 

(*) Paulo Gaiger é artista, cronista, Prof. da UFPel \ Autor de A METÁFORA DAS FLORES (Ed.Viseu).

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