ATOR DE O REI DO GADO REENCONTRA LÍDER SEM-TERRA E PROVOCA REFLEXÃO SOBRE AGRO E REFORMA AGRÁRIA
- Alexandre Costa

- há 2 dias
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Reportagem exibida pelo Globo Rural revisita a novela de Benedito Ruy Barbosa e ajuda a recolocar em perspectiva uma pauta historicamente demonizada, mas central para compreender o Brasil rural.

por ALEXANDRE COSTA | jornalista
No domingo, 1º de fevereiro de 2026, o programa Globo Rural exibiu uma reportagem que, por alguns minutos, aproximou memória televisiva e realidade social no campo brasileiro. O programa mostrou o reencontro do ator Jackson Antunes com João Ladeira e sua família, apresentados como a referência real que recebeu atores da novela O Rei do Gado para que conhecessem, de perto, a vida de quem lutava por um pedaço de terra para plantar e viver.
A ponte com a teledramaturgia é direta. O Rei do Gado, novela escrita por Benedito Ruy Barbosa e exibida originalmente pela TV Globo entre 1996 e 1997, tornou-se um marco cultural ao levar para o horário nobre o conflito agrário brasileiro. A trama expôs disputas históricas pela terra, a concentração fundiária, a violência no campo e a organização de trabalhadores sem terra, temas que até então raramente ocupavam espaço central na televisão aberta.
Na novela, o personagem Regino, interpretado por Jackson Antunes, condensava a experiência coletiva de famílias acampadas e assentadas que buscavam transformar terra em trabalho, alimento e dignidade. A reportagem do Globo Rural não se propôs a quantificar resultados nem a fazer um balanço estatístico, mas apresentou um contraste significativo: décadas depois, aquela família aparece com moradia ampliada e uma rotina marcada por trabalho e renda, sinalizando os efeitos de longo prazo do acesso à terra associado à permanência no campo.
É a partir dessa cena que a pauta ganha densidade analítica. Por que o Brasil insiste em tratar o agronegócio e a reforma agrária como campos antagônicos, se o campo real é formado por uma combinação complexa de cadeias produtivas, mercados, cooperativas, agricultores familiares e grandes produtores? A polarização simplificadora costuma substituir dados por estigmas e afastar do debate público uma política estrutural.
Os números ajudam a recolocar o tema em seu devido lugar. Segundo o Censo Agropecuário 2017, do IBGE, a agricultura familiar responde por 76,8% dos estabelecimentos agropecuários do país. Esses estabelecimentos ocupam 23% da área total, concentram 67% do pessoal ocupado no campo — cerca de 10,1 milhões de pessoas — e são responsáveis por aproximadamente 23% do valor da produção agropecuária. Trata-se de um segmento decisivo para o abastecimento interno e para a sustentação econômica de milhares de municípios.
Os assentamentos da reforma agrária, política pública sob responsabilidade do Incra, integram esse mosaico rural. Estudo divulgado pelo próprio instituto, com base em metodologia construída em parceria com o IBGE, indica que, em 55% dos municípios analisados, o Valor Bruto da Produção médio dos estabelecimentos da reforma agrária foi maior ou igual ao dos estabelecimentos vizinhos. Em 49% dos municípios, as receitas agropecuárias médias também foram maiores ou equivalentes.
Esses dados não autorizam romantizações. A experiência mostra que a produtividade dos assentamentos depende diretamente de políticas públicas concretas: acesso à terra regularizada, crédito, assistência técnica, infraestrutura, estradas, água, energia, agroindustrialização e canais de comercialização. Sem esse conjunto, qualquer projeto rural — assentado ou não — tende à vulnerabilidade.
O pano de fundo histórico reforça a dimensão da pauta. Em audiência pública realizada em junho de 2024 na Câmara dos Deputados, números apresentados pela presidência do Incra indicavam cerca de 9,3 mil projetos de assentamento criados desde a redemocratização, abrangendo aproximadamente 88 milhões de hectares e beneficiando cerca de 913 mil famílias. Trata-se de uma política de Estado marcada por avanços, paralisações e disputas permanentes sobre critérios, orçamento e qualidade dos assentamentos.
Nos últimos anos, a reforma agrária voltou a registrar ações institucionais formais. Em março de 2025, o Incra anunciou a entrega de mais de 12 mil lotes em 138 assentamentos, distribuídos em 24 estados. Em janeiro de 2026, o Ministério do Desenvolvimento Agrário divulgou um pacote de R$ 2,7 bilhões destinado a crédito, habitação e apoio produtivo, e o governo federal decretou novos imóveis como de interesse social para fins de reforma agrária.
Nesse contexto, o reencontro exibido pelo Globo Rural funciona como um disparador de reflexão — não como um marco político. Ele recoloca em perspectiva uma discussão que foi empurrada para a margem do debate público: a terra como base material de trabalho, alimentação, cidadania e democracia. O Brasil pode seguir sendo uma potência agroexportadora e, ao mesmo tempo, enfrentar a concentração fundiária e fortalecer a produção de alimentos e a vida no campo. O antagonismo não é entre agro e reforma agrária, mas entre um modelo concentrador e outro que reconhece a função social da terra.
EM NÚMEROS
· 01/02/2026 – Globo Rural: reencontro de Jackson Antunes com João Ladeira e família, referência à preparação de atores de O Rei do Gado.
· 1996–1997 – O Rei do Gado: novela exibida pela TV Globo que levou o conflito agrário ao horário nobre.
· Censo Agropecuário 2017 (IBGE):– 76,8% dos estabelecimentos são de agricultura familiar– 23% da área total (80,9 milhões de hectares)– 67% do pessoal ocupado no campo– 23% do valor da produção agropecuária
· Estudo Incra/IBGE (2023):– 55% dos municípios com VBP médio dos assentamentos maior ou igual ao dos vizinhos– 49% com receitas agropecuárias médias maiores ou equivalentes
· Audiência pública na Câmara (2024):– 9,3 mil projetos de assentamento– 88 milhões de hectares– 913 mil famílias beneficiadas
· Incra (2025): 12.297 lotes entregues em 138 assentamentos, em 24 estados
· MDA (2026): pacote de R$ 2,7 bilhões para políticas de reforma agrária
FONTES
Globo Rural; Memória Globo; IBGE (Censo Agropecuário 2017); Incra; Agência Câmara de Notícias; Ministério do Desenvolvimento Agrário.
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