AS RESISTÊNCIAS E AS NOVAS-VELHAS BATALHAS POR JUSTIÇA E DEMOCRACIA
- Alexandre Costa

- 9 de mai. de 2022
- 3 min de leitura
por Alexandre Costa (*)

Já faz alguns dias que sinto necessidade de escrever sobre os fóruns das Resistências e da Justiça e Democracia. Antes, porém, é preciso dizer que, como jornalista, acompanhei as primeiras edições do Fórum Social Mundial (FSM), aqui em Porto Alegre. Passadas duas décadas das jornadas e dos encontros iniciados em janeiro de 2001, tanto o Brasil quanto o mundo não são mais os mesmos. O cenário político, social e econômico que separa o tempo entre estes fóruns indica um oceano de mudanças e transformações.
Além dos avanços tecnológicos, principalmente com o surgimento das redes sociais, a globalização de ontem reeditou novos desafios para o capitalismo de hoje. Por isso, as lutas, as bandeiras, os alertas, as denúncias e as tendências dos primórdios do FSM nos colocaram diante de um universo bem mais tenso e dramático.
Se antes as preocupações com a fome vinham da existência dos monopólios, hoje elas são muito maiores e mais graves. A barriga vazia agora está relacionado aos inúmeros atrasos deste Brasil repaginado. Um país que calçou coturnos e marcha para trás. A intolerância às diferenças, a idolatria às armas, ao torturador Brilhante Ustra e a ditos populares como “bandido bom é bandido morto”, demonstram o rebaixamento de valores essenciais à vida em sociedade.
Em comparação aos últimos 20 anos, avançamos nas lutas por igualdade de gênero e contra os preconceitos, o racismo e a homofobia. Porém, voltamos a conviver com novas formas de trabalho escravo e, de forma estrutural, banalizamos a “uberização” da vida e a violação de direitos.
No entanto, nada se compara aos ataques à democracia e as constantes ameaças ao futuro, à independência, à soberania e à liberdade dos brasileiros. Nem mesmo a pandemia e a morte de quase 670 mil pessoas ou o aumento absurdo dos desmatamentos, do comércio ilegal de madeira, da exploração de terras em áreas de reservas, do crescimento do garimpo ilegal e das guerras contra as tribos indígenas.
Em âmbito mundial, as batalhas por poder e pelo petróleo continuam, mas foram incorporadas a outras tantas. A reedição do colonialismo nos faz mergulhar em um mar de retrocessos, seja pela negação dos avanços da ciência ou pela industrialização da cultura, que despreza e destrói a identidade dos povos.
É deste mundo de hoje, ameaçado por uma terceira guerra mundial e pela implosão nuclear do planeta, que se estabeleceram os pilares das resistências. Muito da necessidade de escrever, que mencionei no início do texto, vem das reflexões diante dos horizontes das novas-velhas batalhas por justiça e democracia.
Diante desta realidade amarga, os encontros do final de abril em Porto Alegre (preparatórios ao FSM que aconteceu no México, de 1º a 6 de maio) nos devolveram a certeza de que nossos sonhos não serão destruídos pelo fascismo, pela intolerância, pelos preconceitos, pela ganância de sempre ou pelo negacionismo de agora.
Poderíamos estar satisfeitos com o protagonismo das mulheres, partindo do pressuposto que os encontros de Porto Alegre demonstraram o quanto avançamos em termos de pluralidade. No entanto, para além da pele branca, temos consciência de que os espaços para negras e índias ainda são desproporcionais à atual realidade e às suas próprias narrativas.
Como todos sabem, a caminhada é longa. Quem compreende a importância da força coletiva sabe que não se trata apenas de uma questão numérica ou de proporção.
Da mesma forma que o FSM brotou e cresceu em Porto Alegre, para depois se espalhar pelo mundo, os fóruns (das resistências, bem como da justiça e democracia) são sementes das novas utopias e dos novos sonhos de “um outro mundo possível”.
(*) Alexandre Costa é jornalista responsável pelo www.esquinademocratica.com.
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