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Alpargatas, por Paulo Gaiger*

Os anos vão imprimindo rotinas e manias na vida da gente. No entanto, muitas vezes, somos nós mesmos e não o tempo. Já dizia meu falecido avô que, lá pelas tantas, se negava a sair da cama sem calçar as alpargatas que tinham de estar bem justapostas, uma ao lado da outra. Nem um milímetro pra lá, nem um milímetro pra cá. O velho dizia que tudo isso era perda de tempo e energia, mas que ele não tinha como enfrentar um capricho que ele inventou e se foi cristalizando como algo absoluto, na falta de coisa melhor. Um dia, a minha avó esqueceu de ajeitar as alpargatas e o velho foi se levantar só no final da tarde, depois que a Esmeraldina ouviu seus gritos de socorro. Daquela vez, o seu café da manhã começou às seis da tarde. Pobre do velho, quase enfartou. Xingou a minha avó que esquecera de colocar as alpargatas do jeito que ele determinara. Ela se riu, meu marido ficou curto das ideias? Virou bobo depois de velho? Meu avô reconhecia a bobagem com a qual peleava todas as manhãs. Quase sempre, depois del desayuno, o via na varanda tomando os ares do nascer do sol, o bom oxigênio, a música da natureza, a orquestra da brisa, pássaros e do ribeirão lá de baixo. Meu avô se parecia a uma entidade da própria natureza. Quando se dava conta da minha presença, um pirralho de pouco mais de um metro, ele me dizia que a vida tinha que ser assim, sempre em movimento, carinhosa, pausada, respeitosa, como uma milonga. Mas eu me prendi a esta frescura, me disse. Não sei o que fazer para me livrar. Passaram-se mais de ano de sofrimento pela penitência que se auto infligiu. Até que em uma manhã de tempo feio, garoa, frio e vento, o surpreendi na cozinha, descalço, à frente do fogão à lenha, esquentando a água para o mate. Me olhou com um olhar de felicidade: estou livre. Não calcei as alpargatas e, quando levantei, joguei um pé em cada canto. Nem quero mais saber. Foi difícil, meu neto. Parecia um carrapato grudado, uma tênia nas tripas, um pesadelo em vigília, uma sarna infernal, uma cruz... Já viu aquela gente crente que inventa moda, que se submete a um martírio em vida para alcançar sei lá o que depois da morte? Pois eu estava assim. A gente fica meio cego. E até faz mal para os outros. Veja quantas vezes xinguei a tua avó? Buenas, quando ela meu viu saindo da cama sem as alpargatas, disse detrás de um sorriso: voltou à vida, meu velho? É, meu neto, é preciso bagunçar um pouco a existência, não é? Tu mesmo, com a tua vitalidade de moleque... dia a dia muda o meu olhar. Isso é bom. Muito melhor que a frescura que eu me impus e que me fixava no mesmo tempo e lugar. A flexibilidade é mais bonita e forte do que a rigidez. As árvores que tombam na tempestade, são aquelas que não sabem se mover. Teimam em suas vaidades, orgulho, ideologia, crenças. Se o meu abraço fosse rígido, só poderia abraçar um corpo, talvez somente o meu próprio. Seria muito triste. Pessoas vestindo armaduras, não conseguem beijar. Meu avô me deu um abraço de urso. E ficou assim até a chaleira começar a chiar. Ficamos quase toda a manhã no calor do fogão, ouvindo o cair da chuva no telhado, o vento contra as portas e janelas e, detrás de tudo, um silêncio de uma poesia aveludada que me botava a meditar, a divagar, a admirar. Meu avô me ensinou de que é no silêncio que a gente aprende a admirar, a observar, a sentir as coisas. Nossa vida corrida não nos dá tempo para o silêncio, para ficarmos meditando ou com o pensamento lá. A criatividade e a bondade vêm daí, me dizia. Nesse tempo que nos damos e em que pensamos na nossa vida, no que fazemos. Meu avô antes de morrer, me falou ao ouvido: nunca faça negócios em que te peçam para colocar na mesa a liberdade, o tempo, a natureza e a vida das pessoas. Morreu tranquilo e com o calor dos abraços.



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