A INDEPENDÊNCIA É O MAIOR PATRIMÔNIO E O MAIOR DESAFIO DO JORNALISMO
- Alexandre Costa

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Atualizado: há 17 minutos

A saída de Leandro Demori do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) ultrapassa uma disputa interna e recoloca no centro do debate um dos maiores desafios da comunicação brasileira: como preservar a autonomia editorial diante das pressões econômicas, políticas e institucionais que cercam o jornalismo independente.
Por Alexandre Costa | Esquina Democrática
Todos defendem a liberdade de imprensa até o momento em que uma reportagem contraria interesses políticos, econômicos ou ideológicos. É justamente nesse instante que o jornalismo deixa de ser um discurso abstrato para ser colocado à prova. A independência editorial não se mede por slogans institucionais, campanhas publicitárias ou declarações de princípios. Ela se revela quando jornalistas e veículos de comunicação precisam escolher entre preservar sua autonomia ou ceder às conveniências de quem, direta ou indiretamente, exerce alguma forma de poder.
O recente desligamento do jornalista Leandro Demori da direção de Jornalismo do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) trouxe novamente essa discussão para o centro do debate público. As versões apresentadas por Demori e pela direção da empresa diferem quanto às razões da saída. O jornalista afirma que sua demissão ocorreu após divergências sobre cortes na estrutura de Jornalismo. O fundador do Instituto, Eduardo Moreira, sustenta que a decisão decorreu da necessidade de reorganizar financeiramente a empresa diante do aumento dos custos operacionais e da redução da capacidade de investimento.
Independentemente de qual versão prevaleça, o episódio revela uma realidade que ultrapassa o ICL. Ele expõe as dificuldades enfrentadas por praticamente todas as iniciativas de comunicação que buscam produzir jornalismo com autonomia editorial em um cenário de crescente concentração das plataformas digitais, transformação dos modelos de financiamento e aumento das pressões sobre quem se propõe a fiscalizar o poder.
A demissão de Leandro Demori talvez seja um dos episódios mais simbólicos do jornalismo brasileiro recente porque evidencia um dilema que atravessa praticamente todos os projetos de comunicação independente. Como financiar redações, reportagens investigativas, equipes especializadas e estruturas profissionais sem abrir mão da autonomia editorial?
A pergunta está longe de ser simples.
Produzir jornalismo custa caro. Reportagens exigem tempo, deslocamentos, equipes, documentos, apuração rigorosa, revisão jurídica e capacidade de enfrentar processos judiciais cada vez mais frequentes contra profissionais da imprensa. Ao mesmo tempo, os modelos tradicionais de financiamento entraram em crise, enquanto as grandes plataformas digitais passaram a concentrar audiência, publicidade e distribuição de conteúdo.
Se até um dos maiores projetos de mídia independente do país enfrenta dificuldades para manter sua estrutura jornalística, a questão deixa de ser apenas empresarial. Ela passa a dizer respeito à própria qualidade da democracia brasileira.
Uma sociedade que valoriza o jornalismo apenas quando concorda com ele corre o risco de descobrir tarde demais que a informação independente é um patrimônio coletivo. Não porque seja infalível. Mas porque continua sendo um dos poucos instrumentos capazes de fiscalizar governos, empresas, instituições e qualquer outro centro de poder.
PRÊMIO RUBENS PAIVA - MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA
Diante das pressões econômicas, políticas e institucionais que cercam o jornalismo, um dos grandes desafios da imprensa no mundo inteiro é preservar a autonomia editorial. A verdadeira função social da imprensa é servir ao interesse público. Desde o início da nossa trajetória, em setembro de 2025, seguimos esse princípio. No dia 28 de agosto (data da Anistia de 1979) -, o Esquina Democrática receberá o Prêmio Rubens Paiva – Memória, Verdade e Justiça (2026), na modalidade Meios de Comunicação e Comunicadores, da Associação de Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Rio Grande do Sul (AEPPP-RS), no Plenarinho da Assembleia Legislativa.
A compreensão que temos é de que a homenagem não é um ponto de chegada, mas o reconhecimento de um trabalho construído diariamente com poucos recursos, muito esforço e uma convicção que nunca esteve em negociação: produzir jornalismo comprometido com a democracia, os direitos humanos, a justiça social e, acima de tudo, com o interesse público.
O Prêmio Rubens Paiva consolida o trabalho de 21 anos e faz com que o Esquina Democrática redobre a sua responsabilidade em relação aos conteúdos que produz e reproduz.
PRESERVAR A AUTONOMIA
O Esquina Democrática nunca escondeu sua posição no campo democrático e progressista. Defendemos a democracia, os direitos humanos, o fortalecimento dos serviços públicos, a soberania nacional e a redução das desigualdades sociais. No entanto, compartilhar valores não significa abrir mão da autonomia crítica.
Quando a conveniência política passa a determinar o conteúdo de uma reportagem, a escolha das pautas ou os limites da crítica, o jornalismo deixa de servir à sociedade para servir a interesses particulares.
A distinção que tanto nos orgulha não elimina as dificuldades de quem escolheu ser livre e independente. Pelo contrário, reforça o dever de continuarmos exercendo um jornalismo capaz de investigar, questionar, contextualizar e informar sem se transformar em extensão de governos, partidos, empresas, organizações ou lideranças políticas.
INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA NÃO SIGNIFICA LIBERDADE
Existe uma ideia bastante difundida de que a independência jornalística se resume a dispor de recursos financeiros. Embora essa seja uma dimensão importante da autonomia editorial, a experiência cotidiana demonstra que a realidade é bem diferente e muito mais complexa.
Quem produz jornalismo independente sabe que as pressões não se limitam ao mercado ou aos governos. Elas também podem surgir nos ambientes políticos, sociais e institucionais com os quais o veículo compartilha afinidades. É justamente nesses momentos que a autonomia editorial é colocada à prova.
Acreditamos que a credibilidade do jornalismo nasce exatamente da capacidade de preservar a independência diante de qualquer forma de poder, inclusive quando se manifesta entre aqueles que compartilham objetivos semelhantes. Nosso compromisso é com a apuração rigorosa dos fatos, com a contextualização das informações e com o direito da sociedade de ter acesso a um jornalismo livre, responsável e comprometido com o interesse público. Para o Esquina Democrática, a independência é o maior patrimônio e o maior desafio do jornalismo.

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