A HORA DO ENCANTO DA ESTRELA, POR NORA PRADO (*)
- Alexandre Costa

- 16 de mai. de 2022
- 3 min de leitura

O espetáculo musical, A Hora da Estrela – O Canto de Macabéa, sobre o pungente romance de Clarice Lispector, adaptado e dirigido por André Paes Leme e, com o notável trio de atores Laila Garin, Claudia Ventura e Claudio Gabriel, é simplesmente deslumbrante. Mas não por qualquer grande efeito cenográfico ou pirotécnico, embora não lhe faltem qualidades nestes quesitos, mas por um despojamento e criatividade, ímpares, a serviço do grande texto de Clarice e suas anônimas e desamparadas personagens. Especialmente, Macabéa, sua frágil heroína, que denuncia nosso decadente sistema social e político enraizado na casa grande e senzala, cujas vítimas dessa engrenagem, perversa, seguem cada dia mais pobres e sem perspectiva de mudança.
A escolha de Clarice por retratar essa miséria e perdição humana, na figura esquálida, delicada e submissa de Macabéa se dá, não só pelo horror desta tragédia cotidiana, onde milhões de brasileiros são moídos diariamente pelo estado opressor, omisso e desumano como também um grito por liberdade e justiça, ainda que de modo indireto e poético, característico da autora, numa das mais belas e comoventes obras da grande literatura brasileira. Seu texto é ressaltado pela dramaturgia de quem conhece o ofício teatral com maestria, bem como uma direção primorosa que valoriza a composição das personagens, a utilização de apenas mesas e cadeiras numa cenografia enxuta, simples e ágil, embalados por letras de canções que potencializam o subtexto e arrebatam a plateia se encaixando perfeitamente à narrativa.
Laila Garin compõe sua Macabéa com notável talento, ressaltando aspectos sutis dessa moça tão miserável e solitária quanto sensível e engraçada, alienada até de si mesma, numa cisão fundadora apta para sobreviver a humilhação, maus tratos e desgraças. Irretocável, eu diria, desde a abertura quando nos fala pela voz de Clarice-autora-atriz, passando por Macabéa, até a impressionante intérprete cujo domínio vocal nos toca de modo absoluto, elevando o nível da intepretação a temperaturas e zonas imprevisíveis. Com as composições precisas de Claudia Ventura, que faz a Tia mau humorada e sádica, a companheira de escritório e a impagável cartomante, assim como a excelente performance de Claudio Gabriel na pele do namorado, Olímpico, o elenco se apropria da história em perfeita harmonia com o trio de músicos para contar a saga desta nordestina desgarrada de tudo e todos que vai ao encontro de si mesma, ainda que de modo oblíquo e trágico.

É chocante perceber que, do pouco que havia mudado para melhor em nosso país, tenhamos voltamos no tempo e retrocedido tanto em termos de valores e comportamento, espelhando a brutalidade e omissão da década de setenta, não por acaso, dos nossos horrendos anos de chumbo, que infelizmente 30% dos apoiadores do inominável, ainda desejam e clamam por uma intervenção militar. É, pelo menos, reconfortante nos reconhecermos no palco como parte de uma sociedade que não compactua com esse estado de coisas. Que abomina este abismo social, político e cultural entre as classes e que pretende retomar o rumo perdido em 2016 por um golpe que ainda nos ronda neste ano eleitoral decisivo para o país. Tudo isso perpassa a nossa espinha, arrepiada, durante quase duas horas de espetáculo que voa como um pássaro de asa quebrada. É fascinante perceber a força da arte, testemunhar o nascimento de uma grande estrela brasileira encarnando brilhantemente Macabéa, sublime criação de Clarice.
O canto doloroso, mas resistente de Macabéa, funciona não só como uma válvula de escape ou denúncia contra essa barbárie em que nos encontramos, mas também como um combustível poderoso para nos unirmos a favor da vida e pela liberdade. Uma obra de arte legítima em todos os seus meandros que nos convida a refletir sobre o que precisa, urgentemente, ser mudado, o que desejamos enquanto nação para o futuro breve e para as futuras gerações. Só poderemos nos considerar, realmente, um país com dignidade e soberania quando Macabéa for apenas uma personagem de Clarice Lispector e, não mais, milhões de brasileiros analfabetos, famintos, obedientes e invizibilizados diariamente.
Uma peça de Teatro não muda o mundo, mas pode mudar o ponto de vista das pessoas e transformá-las para melhor. Pessoas, essas sim, podem mudar o mundo, no caso do Brasil, isso é mais do que uma necessidade é um compromisso e uma missão.
Porto Alegre, 16 de maio de 2022.
(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.
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