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A ESPIRAL DA VIDA PELAS LENTES DE SAMUEL BECKETT, POR NORA PRADO (*)


Nesta semana conheci o novo espaço da Terreira da Tribo, que fica ali na Av. Santos Dumont na Zona Norte da cidade. Fui assistir à estreia presencial da sua mais nova produção Quase Corpos, Episódio 1: A Última Gravação, sobre A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett. Eu que fiquei fora de Porto Alegre durante mais de duas décadas e, ainda não tivera oportunidade de conhecer o novo espaço, fiquei encantada. Na sala de espera - galeria o público pode ver uma bela exposição de fotografias e objetos de espetáculos realizados por uma das mais longevas trupe de atuadores brasileiros. Há também mesinhas com cadeiras onde se pode sentar e conversar tomando chá ou café enquanto se aguarda o início da sessão. Nas prateleiras estão dispostos livros e DVDS com a trajetória, de quarenta e quatro anos, do Ói Nóis Aqui Traveis e algumas de suas encenações. Nota-se que tudo foi feito com capricho para acolher o público que retorna, aos poucos, depois de uma longa quarentena.


Ao entrarmos na sala, nos deparamos com um homem sentado sobre uma escrivaninha de madeira velha. Na sonoplastia chuva e vento intensificam a sensação de frio que o inverno gaúcho, naturalmente, provoca. O velho homem usa um gorro de lã preto, camisa branca, colete e calças pretas e um sapato branco grande que lembra os sapatos de palhaço. Ele está submerso em pensamentos numa atmosfera densa e sombria que se estenderá por todo o espetáculo. Ele confere as horas num relógio despertador portátil antigo, depois seleciona uma chave de um molho cheio de chaves e abre uma das gavetas da escrivaninha. Dela retira uma banana. Ele acaricia a banana, descasca, deixa a casca cair no chão, enfia abanana na boca e vai comendo até fim. Ele anda pelo espaço e em determinado momento escorrega na casca de banana. Dá um susto na plateia, mas, não chega a se espatifar no chão. Mais adiante, busca uma chave no molho de chaves, escolhe uma delas e abre outra gaveta. Retira dela outra banana. Acaricia a banana, descasca, joga a casca para o fundo da cena e, quando pensamos que ele vai abocanhá-la, como fez da outra vez, ele a guarda num dos bolsos da camisa. Há um leve humor ácido ao longo dessa sequência de ações repetitivas que certamente ele desenvolve há anos. Depois ele vai até a porta do lado direito do palco, abre, acende a luz do corredor e vai em direção a uma outra peça longe do olhar do público. Retorna trazendo um grande objeto embrulhado num pano preto. Ele o deposita sobre a mesa e retira o pano, revelando um gravador de rolo antigo. Momentos depois ele vai até a porta, novamente, abre, acende a luz do corredor e vai até o outro cômodo. Retorna com diversas latas com fitas de rolos e as coloca sobre a mesa. Fecha a porta. A partir daí começa a sua relação com o conteúdo da fita gravada por ele quando tinha 30 anos. Ele escuta e reage a cada momento da gravação, interrompendo quando se sente irritado ou vulnerável com o que escuta. Consulta um livro de anotações e lê o que contêm a fita. Ele tira a fita anterior e procura por outra determinada fita. Num súbito descontrole bate com o cotovelo sobre as pilhas de latas que caem no chão. Quando encontra a fita que estava procurando, ele a coloca no gravador. Encontra uma terceira chave do molho de chaves, abre a gaveta maior e retira dela uma base para apoiar um microfone com fio. Ele põe o microfone sobre a base, pluga no gravador e passa a gravar outras impressões. Para. Volta a fita e escuta. Retorna a gravação. Interrompe. Sai da sala e vai para o outro cômodo beber. Retorna e prossegue a narração.

Toda essa sequência de aparente banalidades, mostra a profunda solidão deste velho cuja vida profissional e amorosa foram um grande fracasso e pelo qual ele parece se arrepender de algumas escolhas feitas no passado. As ações, milimetricamente, compostas para mostrar esse cotidiano ritualizado e tedioso, revelam uma precisão de ourives por parte do intérprete, Paulo Flores. Talvez não com a idade do velho Krapp, mas, com uma carga de vida suficiente para dar credibilidade e expressividade à uma existência que não se realizou, plenamente, conforme a idealização da juventude. Paulo, na pele do velho Krapp, valoriza cada momento desta noite cinzenta na qual ele desfila uma vida que tem como saldo uma certa nostalgia e remorso, uma amargura e um desamparo de quem, talvez, não tenha se entregado completamente ao amor nem a grande obra literária da sua vida. Acompanhar cada momento dessa viagem existencial através dos silêncios eloquentes, do olhar e das ações deste velho homem nos remete a nós mesmos em nossa jornada, igualmente plena de promessas e sonhos, a maioria não realizados. Quantos talentos desperdiçados, potencialidades abortadas, escolhas equivocadas ao longo do caminho? Quanta vida desperdiçada em nome do medo, do preconceito, da covardia, da arrogância ou da própria ignorância de si mesmo? O mais trágico é perceber que Krapp está na última encruzilhada, não há muito que ele possa fazer a respeito de tantas frustrações. O tempo passou. A finitude da vida está cobrando o seu preço. A eminência do fim se mostra ainda mais assustadora porque o tempo que lhe resta é pouco. Angústia, dor, revolta, ódio, tristeza e ternura são sentimentos expressos por este ser à beira do abismo pessoal. Paulo Flores se entrega a essa gama afetiva como um náufrago de si mesmo em busca de uma salvação momentânea, uma fuga ou da aceitação da renúncia à vaidade diante da morte. Uma ode ao desencanto e o desamparo do qual nenhum de nós está livre.

Uma experiência inesquecível assistir o encontro do ator com o personagem mostrando que a maturidade artística pode nos levar para zonas profundas da condição humana.


Paulo Flores e a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveis faz jus a grande obra do dramaturgo Samuel Beckett que, tão bem, descreveu a desconexão do homem consigo mesmo, sua fragilidade e impotência diante da vida. Porto Alegre, 15 de junho de 2022.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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