2025: O ANO EM QUE O PASSADO COBROU A CONTA
- Alexandre Costa

- 31 de dez. de 2025
- 8 min de leitura

O Esquina Democrática fez um balanço crítico de 2025: um ano marcado por contradições profundas, disputas abertas e pela permanência de conflitos históricos que o Brasil insiste em não resolver.
Este material não nasce da pressa nem da obrigação ritual de “fechar o ano”. Nasce da necessidade de compreender um período histórico que recusou explicações simples. 2025 não foi um ano comum — e não pode ser tratado como tal. Foi um ano de fraturas expostas, disputas abertas e contradições que deixaram de caber nas fórmulas tradicionais da análise política e econômica.
Mais do que uma retrospectiva, o especial de fim de ano articula economia, democracia, memória, política institucional, movimentos sociais e cenário internacional. O material segue o compromisso com o jornalismo independente, crítico e comprometido com a defesa dos direitos e das liberdades.
Em 2025, o país registrou avanços econômicos relevantes — como queda do desemprego, aumento da renda e controle inflacionário — ao mesmo tempo em que viveu uma das mais intensas crises políticas desde o fim da ditadura.
A condenação e prisão de Jair Bolsonaro, o avanço de projetos de anistia no Congresso, a captura do orçamento público, a reorganização da extrema direita e a retomada das mobilizações populares compõem um cenário em que o passado não apenas retorna, mas cobra seu preço. O golpe, tratado por muito tempo como exceção ou delírio, revela-se processo. A democracia, longe de estabilizada, mostra-se campo permanente de disputa.
O especial amplia o olhar para além das fronteiras nacionais. A guerra em Gaza, a COP30 na Amazônia, o poder das big techs e a crise do sistema internacional atravessam o debate sobre soberania, direitos humanos e futuro democrático. Em um mundo em colapso, compreender 2025 torna-se condição para compreender o que vem adiante.
O Brasil não atravessou 2025: foi atravessado por ele. O ano não pediu licença, não ofereceu conciliação e não aceitou esquecimento. ENTRE O PASSADO E O FUTURO O passado — esse cadáver mal enterrado da história nacional — levantou-se para cobrar o preço da impunidade, das transições interrompidas e da crença persistente de que o tempo, sozinho, resolve o que a política se recusa a enfrentar. 2025 não foi um intervalo. Foi uma convocação.
Os números, pela primeira vez em muito tempo, pareceram promissores. O desemprego atingiu o menor nível da série histórica, a renda média alcançou patamares inéditos, a inflação deixou de ser o fantasma cotidiano das famílias. Mas a matemática não explicou o país. Nunca explicou. A estabilidade econômica, vendida por décadas como antídoto para o conflito social, mostrou-se insuficiente diante de um sistema político estruturado para impedir que crescimento se converta em justiça.
Enquanto os gráficos subiam, a política descia aos porões. O julgamento, a condenação e a prisão de Jair Bolsonaro romperam um tabu histórico: no Brasil, chefes do poder raramente pagam por crimes cometidos contra a própria democracia. Ainda assim, a responsabilização veio cercada de limites e reações. O golpe não foi sepultado; foi empurrado para outra forma. Mudou de linguagem, trocou fardas por ternos, ocupou gabinetes, escritórios de lobby e plenários parlamentares. Em 2025, ficou claro: o golpe não acabou — ele se adaptou.
O Congresso Nacional deixou de disfarçar sua vocação. Já não atuou apenas como arena de negociação, mas como um projeto de poder orientado à contenção da vontade popular. Blindou elites, capturou orçamento, bloqueou políticas públicas e tentou reescrever o passado recente por meio de anistias e reduções penais. O voto passou a ser tratado como ruído. A democracia, como obstáculo. Governar, como concessão indesejada.
Mas a história não se move apenas nos palácios. Em 2025, a rua reaprendeu a falar — e a ser ouvida. Depois do silêncio imposto pela pandemia, da fragmentação e do medo, movimentos populares reconstruíram unidade e voltaram a disputar o sentido da política. O plebiscito popular, a centralidade da pauta da escala 6×1, a defesa da justiça fiscal e da taxação dos super-ricos não foram apenas bandeiras. Foram instrumentos pedagógicos, capazes de traduzir conflitos estruturais em linguagem cotidiana. A política voltou a caber na vida real.
O mundo, por sua vez, deixou de ser pano de fundo. A primeira COP realizada na Amazônia escancarou o paradoxo brasileiro: potência ambiental governada por estruturas extrativistas. A guerra em Gaza expôs o colapso moral do sistema internacional. As big techs, aliadas a projetos autoritários, demonstraram que o poder já não se limita a Estados e exércitos. Em 2025, soberania passou a significar algo mais urgente: quem decide, quem controla, quem lucra e quem paga o preço.
Este balanço não oferece conforto. 2025 terminou sem pacificação porque não poderia terminar de outra forma. A democracia brasileira sobreviveu, mas sangrou. O país avançou, mas carregando pesos antigos. O passado cobrou a conta — e ela não foi quitada. 2025 não encerrou um ciclo. Rasgou o véu. O que veio à tona não pode mais ser desdito. O futuro, agora, não é promessa: é disputa aberta.
O BRASIL EM NÚMEROS: AVANÇOS REAIS, DISPUTAS REAIS
Os indicadores econômicos de 2025 ofereceram um contraste evidente com o ambiente político do país. O desemprego atingiu o menor patamar da série histórica, a renda média dos trabalhadores alcançou níveis recordes e o emprego formal voltou a crescer de maneira consistente. Em termos objetivos, houve melhora concreta na vida de milhões de brasileiros.
Esse desempenho não foi fruto do acaso. Ele se apoiou na retomada do papel do Estado como indutor da economia, na ampliação do crédito, no investimento público e em políticas voltadas à recomposição do mercado interno. A formalização do trabalho, ao ultrapassar a marca de dezenas de milhões de carteiras assinadas, fortaleceu a arrecadação, ampliou a proteção social e ajudou a sustentar o ciclo de crescimento.
No campo da inflação, 2025 marcou um alívio importante, sobretudo nos alimentos. A queda expressiva de preços em itens básicos, associada a políticas de abastecimento, recomposição de estoques e incentivo à agricultura familiar, revelou algo frequentemente negado no debate público: inflação não é fenômeno natural, mas resultado de escolhas políticas. Quando o Estado atua, o mercado não “se autorregula” — ele responde.
A reforma do Imposto de Renda sintetizou esse deslocamento de paradigma. A isenção para quem ganha até R$ 5 mil e a ampliação da cobrança sobre rendas muito altas introduziram, ainda que de forma limitada, o princípio da progressividade no centro da disputa política. Não se tratou apenas de uma medida fiscal, mas de uma afirmação simbólica: justiça tributária é tema de maioria social.
👉 Por que bons números não significam pacificação social?
Porque crescimento sem redistribuição de poder não desmonta privilégios. Em 2025, os avanços econômicos coexistiram com uma ofensiva política das elites contra qualquer mudança estrutural. Os números melhoraram; o conflito se intensificou.
O GOLPE CONTINUA: BOLSONARO, JULGAMENTO E REAÇÃO DAS ELITES
A condenação e a prisão de Jair Bolsonaro marcaram um ponto de inflexão na história política recente. Pela primeira vez, um ex-presidente foi responsabilizado criminalmente por liderar uma tentativa de ruptura democrática. O julgamento reconheceu oficialmente aquilo que vinha sendo tratado como exagero retórico: houve um projeto de golpe, com articulação política, apoio civil e participação militar.
Ainda assim, o processo revelou limites profundos. A responsabilização foi seletiva e tardia. Setores inteiros das Forças Armadas permaneceram protegidos, assim como agentes civis que financiaram, incentivaram ou legitimaram a aventura autoritária. O golpe foi condenado, mas suas estruturas permaneceram amplamente intactas.
No Congresso Nacional, a reação foi imediata. Projetos de anistia, de redução de penas e de blindagem institucional avançaram como tentativa de reescrever o passado recente. A disputa deixou de ser apenas jurídica e passou a ser abertamente histórica: quem define o significado do golpe, quem controla a memória e quem paga o preço.
A articulação internacional do bolsonarismo expôs outro aspecto do conflito. A atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, pressionando por sanções e retaliando o próprio país, revelou que o projeto autoritário não reconhece limites de soberania. Tarifas, sanções e ameaças diplomáticas passaram a ser instrumentos de chantagem política.
👉 Golpe encerrado ou golpe em mutação?
2025 deixou claro que golpes não terminam com a queda de seus líderes. Eles persistem enquanto suas bases sociais, econômicas e institucionais permanecem ativas.
O CONGRESSO COMO PROJETO DE PODER ANTIPOPULAR
Ao longo de 2025, o Congresso Nacional consolidou-se como o principal foco de bloqueio democrático. A derrubada de medidas fiscais, a captura crescente do orçamento e a resistência sistemática a políticas de interesse público revelaram um Legislativo cada vez mais dissociado da vontade popular expressa nas urnas.
A ofensiva legislativa não foi episódica. Projetos como o PL da Anistia, o PL da Dosimetria e diferentes PECs de blindagem compartilharam um mesmo objetivo: proteger elites políticas, econômicas e militares das consequências de seus atos. O Parlamento deixou de funcionar como contrapeso democrático e passou a operar como trincheira.
Esse movimento aprofundou a crise do presidencialismo de coalizão. Governar deixou de ser negociação e passou a ser enfrentamento permanente. O voto popular foi relativizado; o orçamento, privatizado; a democracia, administrada como risco.
👉 Democracia bloqueada: quem decide o país?
Em 2025, a pergunta deixou de ser retórica.
A RUA VOLTA A PUXAR A POLÍTICA
Depois do refluxo imposto pela pandemia, 2025 marcou a retomada da ação coletiva. Movimentos populares reconstruíram unidade, superaram a fragmentação e voltaram a disputar o espaço público com capacidade de iniciativa. O Plebiscito Popular foi símbolo desse processo. Ao colocar no centro da agenda temas diretamente ligados à vida cotidiana — escala 6×1, imposto de renda, taxação dos super-ricos —, os movimentos reintroduziram a política como experiência concreta. Não se tratou apenas de pressão institucional, mas de pedagogia social.
As mobilizações mostraram que governar “a frio” tornou-se inviável. A rua voltou a puxar a política, reabrindo um campo de disputa que parecia interditado.
👉 Governança quente versus política de gabinete
A democracia voltou a exigir presença, conflito e participação.
DEMOCRACIA, MEMÓRIA E DIREITOS HUMANOS
O ano também reativou debates históricos mal resolvidos. O STF voltou a discutir os limites da Lei da Anistia, impulsionado por casos emblemáticos como os de Rubens Paiva e Vladimir Herzog. A ditadura deixou de ser apenas passado distante e reapareceu como questão jurídica, política e moral. O jornalismo seguiu sob ataque. A criminalização da imprensa, a violência política e as tentativas de deslegitimação do trabalho jornalístico revelaram que informar continua sendo atividade de risco em contextos autoritários.
No presente, as violações de direitos humanos persistiram: racismo estrutural, violência de gênero e criminalização da pobreza seguiram produzindo vítimas. A democracia mostrou, mais uma vez, sua seletividade.
O MUNDO EM 2025: GUERRA, CLIMA E PODER CORPORATIVO
A guerra em Gaza expôs o colapso do sistema internacional e a criminalização do jornalismo em zonas de conflito. O silêncio das potências revelou o esvaziamento do discurso humanitário. A COP30, realizada na Amazônia, colocou o Brasil no centro do debate climático global. Houve avanços simbólicos e reconhecimento do protagonismo indígena, mas a transição energética seguiu inconclusa, e os combustíveis fósseis permaneceram intocados.
As big techs, por sua vez, consolidaram-se como atores políticos globais. O lobby contra regulações democráticas mostrou que o poder corporativo opera acima das fronteiras nacionais.
👉 Quem governa o mundo: votos ou algoritmos?
2025 NÃO COMEÇOU EM JANEIRO (E NÃO TERMINA EM DEZEMBRO)
Parte dos conflitos de 2025 nasceu antes. A pandemia deixou traumas não resolvidos. O golpe de 2016 segue como origem estrutural da instabilidade política. O ano funcionou como ponto de inflexão, não como conclusão.
O que ficou: avanços econômicos, responsabilização inédita, retomada da ação popular.
O que não passa: a impunidade estrutural, o poder das elites, a fragilidade democrática.
O país mudou, mas não se reconciliou consigo mesmo.
2026: RISCOS, DISPUTAS E ALERTAS
As eleições de 2026 se aproximam sob tensão. A extrema direita segue reorganizada, agora combinando poder econômico, digital e internacional. A democracia dependerá da vigilância permanente do Judiciário, da rua e da imprensa independente. Não haverá garantias automáticas.
O jornalismo crítico seguirá sendo peça central: preservar a memória, investigar o poder e disputar sentidos.
O FUTURO NÃO ESTÁ DADO
O Esquina Democrática não produz retrospectivas neutras, nem celebrações automáticas. Nosso método parte do jornalismo independente, crítico e comprometido com os direitos humanos, com a memória histórica e com o interesse público. Isso implica recusar tanto o otimismo oficial quanto o catastrofismo conveniente. Implica, sobretudo, assumir que a democracia é um campo de conflito — e que compreender esse conflito é mais importante do que buscar consensos artificiais.
Este balanço não pretende encerrar debates. Pretende organizá-los. Não busca unanimidade, mas compreensão histórica. E parte da convicção de que só é possível disputar o futuro quando se encara o presente sem ilusões e o passado sem amnésia.
O Brasil entra em 2026 sem certezas, mas com escolhas claras diante de si. A democracia não está assegurada, mas também não está derrotada. O futuro não é herança. É disputa.
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