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UMA HISTÓRIA QUE NÃO COMEÇOU COM O ADESIVO DE ZUCCO CONTRA MANUELA: UMA DÉCADA DE VIOLÊNCIA POLÍTICA CONTRA AS MULHERES (REPORTEGEM EM TRÊS CAPÍTULOS)



O caso do adesivo utilizado pelo deputado federal Luciano Zucco contra Manuela D'Ávila recoloca em debate uma questão que ultrapassa a disputa eleitoral no Rio Grande do Sul. Ao reconstruir a trajetória de ataques sofridos por uma das principais lideranças políticas gaúchas, esta reportagem mostra como a violência política de gênero se consolidou no Brasil e por que ela atinge todas as mulheres que ocupam espaços de poder. Ao mesmo tempo, a reconstrução histórica dos principais episódios da última década revela que os casos de maior repercussão nacional ocorreram em um ambiente de crescente radicalização política, no qual discursos de ódio, misoginia e violência simbólica passaram a ocupar espaço cada vez maior na disputa pública.



Por Alexandre Costa | esquinademocratica.com.br

O FATO É APENAS O COMEÇO DA NOTÍCIA

Há quase uma década, a rotina política de Manuela D'Ávila passou a conviver com um elemento que jamais deveria fazer parte da vida democrática: o medo.

Não o medo do debate político. Nem da divergência ideológica, inerente às democracias. Mas o medo produzido por ameaças, campanhas de desinformação, ataques misóginos, exposição de sua família, violência psicológica e tentativas permanentes de transformá-la em inimiga pública.


Muito antes de o deputado federal Luciano Zucco (PL), pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul, aparecer utilizando no peito um adesivo com o rosto da candidata ao Senado marcado por um círculo vermelho cortado por uma faixa diagonal e a inscrição "Anti-Manu", Manuela já havia aprendido que, para muitas mulheres brasileiras, disputar eleições significa enfrentar riscos que ultrapassam a própria política.


A fotografia registrada durante um ato político repercutiu imediatamente nas redes sociais e provocou manifestações de parlamentares, entidades de direitos humanos e organizações ligadas ao enfrentamento da violência política de gênero.


Ao comentar o episódio, Manuela afirmou que precisou explicar à própria filha o significado daquela imagem e o ambiente de hostilidade que ela representa. Segundo a assessoria de Luciano Zucco, o adesivo não fazia parte do material oficial da campanha e teria sido confeccionado por uma apoiadora ligada ao Partido Novo.


Independentemente de quem produziu o adesivo, o episódio recoloca uma pergunta que extrapola a disputa eleitoral gaúcha.


UMA PERGUNTA GUIOU ESTA REPORTAGEM

O episódio envolvendo Manuela D'Ávila serviu como ponto de partida para uma investigação mais ampla. Ao longo da apuração desta reportagem, o Esquina Democrática buscou compreender se a violência política contra mulheres constitui um fenômeno distribuído de forma semelhante em todos os campos ideológicos ou se, ao reconstruir os principais episódios da última década, seria possível identificar padrões recorrentes.


A opção metodológica foi simples. O primeiro critério foi não partir de conclusões e sim de fatos, da cronologia, das decisões judiciais, da legislação, das pesquisas acadêmicas e dos estudos produzidos por instituições públicas. Porém, o fundamental foi reunir relatos de mulheres que viveram essa violência. Ao final desse percurso, constatamos que os episódios de maior repercussão nacional — desde as ofensas sexuais dirigidas à deputada federal Maria do Rosário, passando pela misoginia contra a presidenta Dilma Rousseff durante o processo de impeachment, pelas agressões permanentes contra Manuela D'Ávila e pelo impacto do assassinato de Marielle Franco — encontram-se inseridos em um mesmo contexto histórico.


Esse recorte de tempo está marcado pela radicalização do discurso público, pela ascensão do bolsonarismo e pela banalização da violência dirigida especialmente contra mulheres que ocupam espaços de poder. Essa conclusão não decorre de uma premissa ideológica adotada previamente e sim do resultado de um questionamento. Como o Brasil chegou ao ponto em que uma das principais lideranças femininas do país passa anos convivendo com ameaças, campanhas de ódio e violência política sem que isso deixe de ser tratado como algo excepcional?


Responder essa pergunta nos fez voltar no tempo. Muito antes, inclusive, da eleição que elegeu Jair Bolsonaro presidente do Brasil.


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