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TRAGÉDIA EM QUATRO ATOS - ATO I: O PREDADOR (BASEADO EM FATOS REAIS), POR PAULO GAIGER (*)


Lizi me deixou... ou melhor, ela me expulsou de casa. Repito, para que fique bem claro e pra que vejam o tamanho da sacanagem: Lizi, essa mulherzinha ridícula, me expulsou de casa, mandou eu voltar pra casa da minha mãe. Quando isso aconteceu, já estávamos juntos há quase dois anos. A gente se conheceu numa festa e aí rolou a maior química. Tava sendo legal e a gente resolveu juntar os trapos. Eu tinha pressa. Queria uma mulherzinha para cuidar de mim, fazer o almoço, me esperar bem bonita na cama. E a Lizi se encaixava nos meus sonhos de uma mulher perfeita, a mãe de meus filhos. Íamos sempre juntos nos rolés, nas baladas, no shopping, tudo era muita paixão. No começo, eu que sou homem, tive que me adaptar para conquistá-la. Tipo assim: se ela gostava de ir ao cinema, eu, que não tava nem aí, dizia que também gostava. Se ela gostava de trabalhar, estudar e vinha com aquele blábláblá de ser independente, eu fingia paciência, ouvia e concordava com a besteirada. Se ela tinha um amigo viado, eu engolia seco, encolhia o punho e disfarçava tratando educadamente a bicha louca. Era um jogo, um investimento. Eu dizia todos os dias pra ela: você é o amor da minha vida. Mas lá pelas tantas, não consegui mais fingir ser o que eu não era. Homem que é homem não muda! A gente cansa dessas bobagens de mulher. Eu queria uma esposa de verdade. Não fui mais ao cinema, proibi o viadinho de entrar em nossa casa, comecei a seduzir a Lizi para que engravidasse e largasse dos estudos e do trabalho de motorista de aplicativo. Advertia que era um trabalho perigoso. Lugar de mulher é em casa, eu lhe dizia, em segurança. Mas a Lizi, tudo pelo contrário, a cada dia parecia mudar, pelo menos eu sentia isso. Teimosa, burra que dói. Me dizia que não era hora de ter filhos, que cada um tinha que ter a sua vida, que a situação do país era instável e todo esse papo furado. Então, comecei a desconfiar que ela tinha um caso. Lembrei de um amigo que tolerava tudo: podiam cortar o seu salário, ridicularizá-lo no serviço, estuprar sua filha, obrigá-lo a calar a boca e ficar de joelhos, mas adultério, não! Isso ele não tolerava. Ele dava seus pulos de cerca porque todo o homem faz isso. Mas se a mulher faz, aí não, nenhum homem aguenta um par de chifres. Daí, e eu concordava com ele: só matando. Ele me representava. Todo os dias eu cobrava da Lizi: por que chegou a esta hora? Por que não quer fazer sexo comigo? Por que vou ter que jantar a comida requentada do almoço? Por que tu ganhas mais que eu? Por que tu não para de falar com teus amiguinhos no WhatsApp? Por que deixou esse viadinho entrar em casa se eu já disse que não quero? Quem te deixou ir ao cinema? Eu te amo. Tens que fazer o que é melhor para nós, eu dizia. Não adiantou de nada o meu carinho. Até que a minha mão estalou na cara dela. Um, dois, três vezes socos pra colocá-la nos trilhos e saber quem manda. Ela ficou enfurecida, chamou a mãe dela, os amigos e me correu de casa. Então eu disse que iria matá-la para ela deixar de ser besta. Ela foi na delegacia da mulher, fez o B.O., exame de corpo de delito e eu fui preso. Cacete. Proibiram de me aproximar dela depois que saí. Lizi foi uma cadela mal-agradecida. Ficava imaginando ela pegando passageiros do aplicativo, levando de cá para lá, baixando as calcinhas no banco do carro, fazendo boquete. Eu tinha certeza. Meus chifres cresciam. Isso eu não tolerava. Eu era homem, ora bolas. Nenhuma ordem judicial ia me parar. Conhecia o posto de gasolina em que ela costumava encher o tanque. Esperei ela de tocaia. No dia em que apareceu, rapidamente entrei no carro e lhe apunhalei uma dezena de vezes sem que a vaca pudesse reagir. Ficou uma sangueira. Fui preso novamente. Mas mostrei para o mundo que sou um homem!


(*) Paulo Gaiger é Professor do Centro de Artes da UFPel.

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