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TEXTO DA ANA CAÑAS É A HOMENAGEM DO ESQUINA DEMOCRÁTICA ÀS MULHERES QUE LUTAM E RESISTEM


A primeira vez que vi a Ana Cañas foi em vídeo no YouTube, um dueto em que ela e o ex-Titãs Nando Reis fizeram na canção “Pra você guardei o amor“, lançado em 2009. Me chamou a atenção a voz e a beleza daquela mulher. Desde então, passei a admirá-la. Mas me tornei seu fã durante as atividades de 1º de maio de 2018, em Curitiba, nas manifestações pela liberdade do ex-presidente Lula. Naquela noite, Ana Cañas apresentou Viverei, música que dedicou ao ex-presidente. Enquanto passava o som com sua banda, ela se aproximou do público e algumas pessoas me pediram que tirasse fotos. Aproveitei e também registrei o nosso encontro. Desde então, acompanho suas redes sociais. No sábado, Ana Cañas publicou um texto no seu facebook. Decidi postar o seu relato neste 8 de março, em homenagem às mulheres que lutam e resistem.



DEPOIMENTO DE ANA CAÑAS

Eu tive bulimia.


Durante muitos anos eu comia e vomitava.


Quando eu olho pra essa menina da foto eu vejo uma dor profunda e velada.


Também vejo o medo que essa menina sentia por estar tão vulnerável na sua órbita como ser humano que tudo que eu posso fazer hoje é acolher e abraçá-la.

Eu sofri um assédio muito jovem e durante muitos meses, não consegui contar pra ninguém.

Eu guardei essa violência comigo e, no meu silenciamento, passei a colocar pra fora os alimentos que ingeria.


Não foi uma bulimia pelo peso, por emagrecimento.


Foi emocional.


Foi uma dor que transcendeu inúmeros aspectos da minha vida.


E foi por ser mulher e ter o meu corpo ameaçado pela voracidade sexual e imoral de um homem que eu tive que aprender a lidar ainda muito cedo com as questões intrínsecas que envolvem "ser mulher".


Levei muitos anos para me curar dessa disfunção tão destrutiva.


Dessa doença.


Dilacerada pela vergonha e até pela culpa que carreguei muitos anos.


Culpa por ser uma adolescente que usava shorts.


E na minha dor e no meu medo, eu própria me violentei.


Porque a bulimia é terrível.


Ela te desestrutura e fere de maneira abissal.


Conto isso porque amanhã celebramos o dia da mulher.


E ser mulher ainda é ter que lidar com violência.


Com abusos, assédios, estupro.


Conto isso para que possamos refletir sobre a sociedade que vivemos.


Sobre o acolhimento que precisa ser feito quando alguém sofre e carrega uma dor profunda.


Não é fácil voltar pra esse passado, mas é necessário.


Hoje, enxergo a força que precisei ter para superar isso.


Sozinha.


Mas hoje eu também sei que não estou sozinha.


Sei que muitas mulheres passam, passaram ou (infelizmente) passarão por isso.


E romper o silêncio é uma das formas mais eficazes de combate à violência.


Nos fortalece e rompemos estruturas de opressão.


O silêncio é um alicerce potente da violência.


Que tenhamos coragem para enfrentar de cabeça erguida todo o mal que recebemos, sem causá-lo.


Que possamos viver numa sociedade onde uma mulher seja sempre respeitada e, nunca, oprimida ou violentada.


É isso que desejo, do fundo do coração.


Um beijo com todo amor.


Ana Cañas

 
 

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