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RECONHECER O DESCONHECIDO CORPO, POR NORA PRADO (*)


A morte é sempre uma surpresa desconcertante. Para além da dor do desgosto ou tristeza profunda que ela traz, para quem fica, também borra a percepção do que emanava aquele corpo enquanto estava vivo. A subtração definitiva da energia que animava o corpo não existe mais e não há nada que possa ativar a chama que dava colorido e personalidade a ele. A estreita combinação entre a matéria e energia, que antes habitara aquele ser, e tornava determinada pessoa graciosa, divertida, séria ou agressiva, subitamente, se esvai deixando o corpo à deriva. Desprovido de personalidade, desencantado e estranhamente desconhecido, mesmo para quem lhe fora íntimo. Esse descompasso rítmico entre energia e matéria torna o processo do velório uma das coisas mais cruéis e dolorosas, porque velamos e nos despedimos de quem, na verdade, não existe mais. Há apenas uma pálida carcaça que, antes, fora animada pela energia. E como o corpo, a matéria leva mais tempo para decompor-se, é natural que a gente sinta esse estranhamento de estar diante de um desconhecido.


Foi assim com meu pai, alguns amigos e todos os mortos de quem eu tive coragem de me despedir no velório. Uma tentativa vã de reconhecer no corpo morto a essência do que um dia fora vivo. Isso serve também para os animais. No último domingo tive uma experiência sui gêneris. Saímos de casa de manhã cedo, por volta das 09:00 horas, porque uma empresa faria a descupinização do local. Retiramos as nossas duas gatinhas, Jujuba e Lolita, e o gato Nonô para que não fossem intoxicados pelo veneno forte desse processo. Eu e o meu filho, Aramis, fomos para a casa da minha mãe, Gabriel foi pintar a casa antiga, e minha filha, Valentina, estava na casa de uma amiga.


No começo da tarde fui informada, pelo whatsapp do grupo da nossa rua, de que cachorros de um determinado vizinho tinham matado mais um gatinho. Fiquei apreensiva pelo meus. Embora o nosso jardim e quintal sejam amplos, nada garante que um gato não pule a cerca para visitar as redondezas. Mais um detalhe: o gato ou gata morto era ruivo. Gelei, na hora, e decidi tomar um uber imediatamente para casa para saber se meus gatinhos estavam bem. Já havia se passado mais de três horas, tempo suficiente para podermos entrar em casa com segurança e foi o que fizemos. Logo ao chegarmos no jardim, Jujuba saiu de um canteiro de folhagens onde se protegia do calor intenso. Ao entramos pela porta da cozinha demos de cara com Nonô descendo do telhado. Segui chamando pela Lolita, minha gatinha cor de fogo, mas sem sinal de onde ela estava. Fui até a casinha de cachorros, para onde ela costuma fugir para se refrescar do calor, mas nada. Liguei para Marcia, minha vizinha, e quem tinha dado a notícia da morte do felino no nosso grupo da rua. Enviei fotos da Lolita rezando para que não fosse ela a vítima. Márcia me passou o contato do seu vizinho e dono dos cachorros. Liguei para ele que me disse que o gatinho estava dentro de uma caixa aguardando que o dono ou dona viesse reconhecê-lo e levar o bichinho. Fui a pé até a sua casa, não sem, antes, prevenir o meu filho de que uma desgraça poderia ter acontecido com a Lolita.


Meu vizinho abriu o portão da sua casa e em seguida me trouxe uma caixa de papelão estreita e alta. Abri e vi um gato maior do que seria a Lolita e com uma cara que não era a dela. Também estranhei a cor do pelo. Era muito mais claro e desbotado do que o pelo luminoso e cor de fogo da minha gatinha. Disse não. Não é a minha Lolita. E ainda lhe mostrei a foto dela. Mas ele insistiu comparando as estrias do pelo da área da cabeça e me fez ver que eram praticamente idênticas. Achei que era maior que a gata, e vi que os seus olhos, levemente abertos, não eram da mesma cor verde dela, mas, cinza azulados. Principalmente o pelo não tinha nada a ver com a da Lolita. Meu vizinho insistiu, tentando me fazer ver as semelhanças entre o gato morto e o retrato e dizendo que teve que molhar os cães para que soltassem o gato, por isso o pelo estava diferente. Me falava como se eu estivesse negando a realidade e, quando cai em mim, desatei a chorar. Ele procurou me acalmar e me acompanhou até o portão. Não dei mais que três passos, me virei, subitamente, e lhe perguntei: Só para saber, que horas foi isso? Ele respondeu: As seis horas da manhã. Quando eu levantei com os cachorros latindo e disputando o gato, ele já estava morto. Deduzi: Mas então esta não é a Lolita. As seis horas os meus gatinhos ainda estavam dentro de casa só foram sair para o quintal às 09:00 horas. Dei meia volta, devolvi o corpo do gato desconhecido e voltei para casa com alívio e esperança em meu coração. Chegando ao jardim, abri a torneira da mangueira e direcionei o jato de água para dentro da casinha do cachorro. Imediatamente um raio cor de laranja disparou de lá de dentro. Era Lolita reencarnada que saltava como uma lebre fugindo da água.


Abracei a minha gatinha, aliviada e plena de emoção. Fiz uma nova foto e enviei ao grupo, agradecida por minha Lolita estar viva, mas rezando para que o dono ou dona do gatinho morto fosse localizado.


Isso prova o quanto somos vulneráveis e influenciáveis diante da morte. Caso a Lolita não tivesse aparecido, provavelmente, teríamos enterrado e chorado por uma gatinha “impostora” numa história de erros digna dos melhores folhetins.


Escrevo essa crônica com o coração pesado e triste, pois, ontem faleceu um grande amigo da nossa família e pai de minhas amigas, Lisa e Mariana Gertum Becker, o querido Betinho Becker. Ginecologista e obstetra, médico conceituado e muito bem-quisto pela sua clientela e admirado pelos seus pares pela competência e ética, teve uma vida plena na carreira e na vida pessoal. Casado com a professora de línguas, Roseli Gertum Becker, e pai de cinco filhos, Bettina, Clarissa e Fritz, além da Lisa e Mariana, Betinho, tinha um espírito aventureiro e uma inquietação que o tornava uma companhia agradável e sempre bem-vinda. Lembro-me dele e a família chegando na casa dos meus pais dentro de uma Kombi na nossa casa das Três Figueiras. Um acontecimento! Lógico que eu queria entrar na Kombi do Betinho e viajar com a quela trupe animada e divertida até a Bahia, numa das inúmeras viagens que eles fizeram. Betinho foi um dos homens mais lindos da sua geração, caso tivesse enveredado pelo caminho do teatro e cinema, como Lisa, certamente teria sido um galã de arrancar suspiros da mulherada e despertar inveja nos homens. Mas ele se encaminhou para cuidar da saúde feminina e ajudar a trazer ao mundo os filhos delas. Sua dedicação como médico e ser humano será lembrado por todos que tiveram o prazer e o privilégio da sua companhia e amizade.

Não posso deixar de me sentir inconformada de saber que ele, também não tem mais a energia que o distinguia, Betinho, homem sensível, amoroso e meigo quando estiver sendo velado na sua última despedida de corpo presente. Sim, enterraremos o seu corpo, mas a sua alma já partiu e voa livre pelos céus em direção do Paraíso.


Porto Alegre, 10 de março de 2022.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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