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REAJUSTE DO DIESEL FOI UMA “PAULADA” NO AGRONEGÓCIO, POR CARLOS WAGNER (*)


Ainda estão sendo calculados os números finais do impacto do preço do óleo diesel, a quase R$ 7 o litro, na próxima safra dos pequenos, médios e grandes produtores rurais do Brasil. O que se sabe até agora permite prever que “a paulada vai ser grande”, como definiu um médio produtor de soja de Palmeira das Missões, interior gaúcho. Acrescentando: “Não vai nos matar. Mas vai tontear”. Partindo do princípio de que todos nós precisamos nos alimentar, vem a pergunta. Por que esse assunto está fora das manchetes dos grandes noticiários? As escassas notícias que têm sido publicadas restringem-se à imprensa especializada. Talvez seja porque as entidades que defendem o agronegócio estejam em silêncio? Alguma coisa estranha está acontecendo, porque os agricultores, que têm fama de pensar com o bolso, sempre fazem um estardalhaço quando tocam nos seus lucros. E agora estão “matando no peito” os sucessivos aumentos do diesel. Nós temos que responder essa pergunta ao nosso leitor. Vamos aos fatos.

Uma propriedade rural, seja pequena, média ou grande, precisa de óleo diesel para funcionar como o corpo humano de sangue. Por quê? Elas produzem grãos, frangos, suínos e gado de corte e leiteiro. E todo o trabalho é feito por tratores, colheitadeiras, caminhões, geradores de energia elétrica (que entram em funcionamento quando falta luz), computadores e mais uma parafernália tecnológica. Antes de seguir vou repetir uma explicação que dou nas ocasiões em que falo sobre assuntos especializados. Não sou especialista em temas agrícolas. Sou um repórter investigativo que começou a trabalhar em 1979 e focou a sua carreira em conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras. Por conta disso, acompanhei de perto o povoamento das fronteiras agrícolas, como foram definidas as áreas pouco habitadas do interior do Brasil colonizadas por agricultores gaúchos e seus descendentes. Além de reportagens, contei essa epopeia em três livros chamados Brasil de Bombacha. Fiz a cobertura de conflitos agrários no Brasil e em países vizinhos. Publiquei os livros Brasiguaios: homens sem pátria e A Saga do João Sem Terra. Nessa trajetória andei pelos quatro cantos do interior brasileiro, uruguaio, argentino, paraguaio e boliviano. Tenho uma vasta rede de fontes entre os agricultores desses lugares. Feito o esclarecimento, volto à nossa conversa. Como os produtores se abastecem de diesel? Eles pegam nos postos de combustíveis na época que estão preparando a lavoura e pagam quando vendem a safra.

Esse esquema começou a ruir em 2016, quando o então presidente da Petrobras, Pedro Parente, implantou na empresa o sistema de regular os preços dos combustíveis aos praticados nos mercados internacionais, que são cotados em dólar. Claro que deu rolo. Em 2018, os caminhoneiros fizeram uma greve de 10 dias que causou um prejuízo de R$ 16 bilhões ao país – há matérias na internet. O então presidente da República, Michel Temer (MDB-SP), fez um acordo e colocou um fim à greve. O acordo não derrubou o sistema de paridade de preços implantado por Parente. Ele criou um mecanismo para o reajuste dos fretes que acompanha as mudanças de preços do diesel. E nossa cobertura foi focada nos caminhoneiros. Não podia ser diferente, eles colocaram os brasileiros de joelhos. Enquanto isso, o que acontecia entre os agricultores e os donos dos postos de combustíveis não mereceu nem sequer uma notícia de pé de página. Como eu já disse, o sistema deles funcionava assim: pegavam o óleo no início do plantio e pagavam meses depois, com a venda da safra. Pagavam o preço da época da compra do combustível. Caso houvesse variação no preço, ela era tão pequena que ficava como uma espécie de prêmio pela fidelidade do agricultor com o posto. Isso não existe mais. Acabou com a política de alinhamento dos preços dos combustíveis com o mercado internacional. Hoje, a maioria dos fornecedores de combustíveis exige pagamento à vista. Caso o pagamento seja na safra, o preço é o do dia do acerto. Essa mudança trouxe duas consequências. A primeira é que os agricultores passaram a aumentar o número de parcelas nos pagamentos a prestação de outros insumos, como peças de reposição, pneus e adubos. Outra mudança é que começaram a se endividar com os fornecedores de combustíveis. Um grande produtor de soja calculou que, para cobrir a elevação dos custos do diesel, a saca de soja deveria custar R$ 250. Em maio, a cotação oscila entre R$ 180 e R$ 190 por saca.

A Bancada Ruralista no Congresso tem reclamado. Mas não com a veemência necessária para chamar a atenção da imprensa. Até agora, a questão continua sendo tratada pelos noticiários especializados. Ainda não chegou ao grande público. Em parte, porque nós jornalistas temos uma ideia errada do que é o agronegócio. Ele não é um negócio apenas de grandes produtores de grãos e carnes. Não, envolve toda a produção agrícola, sendo que a agricultura familiar, formada por pequenas e médias propriedades, tem um papel importante na produção de frangos, suínos, leite e outros alimentos que abastecem as agroindústrias, que por sua vez geram milhares de empregos nas cidades do interior do Brasil. E exportam produtos com valor agregado. Mais um fator que devemos considerar. O agronegócio não tem um comando central que fale por todos. O que existem são grupos que montam associações sem representatividade entre os produtores, mas cujos dirigentes dão entrevistas como se falassem por toda a categoria. E conseguem espaço nos noticiários graças ao desconhecimento dos jornalistas sobre como as coisas funcionam. Conheci e conversei muito com a primeira geração de agricultores, que foram os pioneiros no que chamamos de agronegócio. A atual geração é muito mais preparada para lidar com os assuntos técnicos, econômicos e políticos. Conheço muitos deles. E o que me chama atenção é que sabem separar os negócios da política partidária. A uns cinco anos tive uma conversa muito interessante com um grande produtor de soja e gado de corte na cidade de Sorriso, no chamado Nortão do Mato Grosso, e ouvi dele uma frase que resumo assim: “Administrar uma propriedade agrícola, não interessa o tamanho dela, é sempre um negócio de alto risco, porque mesmo se tudo der certo, um problema climático inesperado pode botar tudo a perder”. Lembro o seguinte: sempre que nós jornalistas desconhecemos o que está acontecendo, como é o caso do impacto para os agricultores dos constantes reajustes no diesel, quem acaba pagando o pato são os nossos leitores.

(*) Carlos Wagner é jornalista, repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, em São Paulo. Atualmente, Carlos Wagner é responsável pelo site Histórias Mal Contadas.

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