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Protesto dos agricultores europeus é usado para atacar as leis ambientais do Brasil, por Carlos Wagner*


Aqueles que se organizaram para lutar pelo desmonte das leis ambientais do Brasil estão aproveitando a barulhenta greve dos agricultores europeus para fazer as suas pregações negacionistas em relação ao futuro do planeta caso nada for feito para deter o crescimento da poluição. Nas conversas com jornalistas, eles estão dando ênfase à reclamação dos produtores europeus, em especial dos franceses, contra o alto custo e as limitações impostas à atividade agropecuária pelas leis ambientais da União Europeia (UE), o bloco político e econômico que reúne 27 países que somam 447 milhões de habitantes, 6% da população mundial. O alto custo e as restrições impostas aos agricultores europeus é uma entre as mais de 30 pautas. O recado que aqueles que lutam pelo desmonte das leis ambientais estão passando é simples: “Olhe aí, nós estamos falando que as leis ambientais custam muito caro”. O que não estão dizendo, e os repórteres não se deram conta, é que não são os agricultores europeus e brasileiros que pagam esses custos de produção. Por um motivo simples: eles são repassados para os preços dos produtos, portanto, quem paga a conta são os consumidores.


Há outro motivo, que por sinal é muito importante. A luta pelo meio ambiente é antiga, sangrenta e grandiosa, por defender a continuação do mundo como o conhecemos. Cito dois mártires: Chico Mendes, seringueiro e sindicalista que defendia a Floresta Amazônica do avanço dos pecuaristas. Em 1988, foi tocaiado e morto a tiros na porta da sua casa, em Xapuri, pequena cidade no interior do Acre. Tinha 44 anos de idade. E a religiosa americana Doroty Stang, defensora da Amazônia contra os grileiros de terra. Em 2005, aos 73 anos, foi morta com seis tiros por pistoleiros contratados por grileiros em Anapu, município do interior do Pará. Tudo que relatei significa que o agricultor que não se adaptar às regras ambientais está fora do jogo. Os organizadores da luta pelo desmonte da legislação ambiental são os parlamentares da bancada ruralista no Congresso. A Bancada do Boi, como era conhecida antigamente, é coordenada pelo deputado federal Pedro Lupion (PP-PR). Ao apostar no desmonte das leis ambientais, a bancada ruralista está dificultado a vida dos agricultores brasileiros e facilitando a dos seus concorrentes, os agropecuaristas americanos e europeus. Escrevi sobre o assunto em junho de 2023 no post Bancada ruralista deu na bandeja a cabeça do agronegócio aos seus concorrentes estrangeiros.


Ao que falei acima, eu acrescento que o agronegócio brasileiro está vivendo um momento muito delicado da sua existência, que é a sucessão familiar. Os velhos, também conhecidos como pioneiros, estão passando os negócios para os filhos. É exatamente nesse momento que os grandes conglomerados industriais e de outros setores econômicos entram na jogada, tentando adquirir as propriedades rurais. Há um trabalho articulado de bancos, comerciantes e prestadores de serviços para convencer os herdeiros a não vender as suas fazendas para os grandes conglomerados. Se isso acontecesse, as propriedades passariam a ser administradas à distância. Portanto, haveria o esvaziamento populacional e do fluxo comercial de dezenas de cidades que cresceram ao redor das propriedades. Venho acompanhando essa história da sucessão desde a década de 90. Além de inúmeras reportagens, publiquei dois livros sobre o assunto: O Brasil de Bombachas – As novas fronteiras da saga gaúcha (1995) e De Pai para Filho na Migração Gaúcha (2019). Vou fazer uma lembrança que julgo necessária. O agronegócio de que falo não é aquele que, de maneira incorreta, os meus colegas se referem como sendo uma atividade exclusivamente de grandes produtores de soja, algodão, cana-de-açúcar ou carnes. A realidade não é essa. O agronegócio compreende grandes, médios e pequenos produtores espalhados pelo território nacional. Geralmente, os pequenos, além de grãos, produzem também carnes (suínos, aves e peixe), leite e frutas. Eles abastecem as agroindústrias, que por sua vez geram milhares de empregos nas cidades do interior. Sempre que tenho oportunidade tento esclarecer quem são os produtores que formam o que chamamos de agronegócio.


Claro, é do jogo. O pessoal que se organizou para desmontar as leis ambientais tenta vender o seu peixe para os jornalistas. Eles não são os únicos. Fazem parte de uma longa fila de representantes de setores políticos, econômicos, empresariais e outros que adoram camuflar no meio dos seus depoimentos para a imprensa mensagens sobre os seus objetivos. Já foi muito fácil identificar essas mensagens antes misturá-las à reportagem. Hoje é mais difícil, porque o número de jornalistas nas redações reduziu-se drasticamente. E a carga de trabalho aumentou consideravelmente. Em consequência, existe a chance real do depoimento de um lobista ser publicado no jornal, desde que não seja um tremendo absurdo. As principais manchetes sobre o movimento dos agricultores europeus referiam-se à exigência de não permitir o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. O acordo envolve o comércio de mercadorias, em especial produtos agropecuários. E vem sendo discutido nas últimas duas décadas. Todos os envolvidos sabem que as chances dele ser aprovado sempre foram mínimas. O assunto que merecia mais atenção da imprensa local era a reclamação dos europeus de concorrência desleal com os produtos brasileiros, porque as nossas leis ambientais são menos rígidas do que as deles. E que as existentes são desrespeitadas. Citam o caso da venda ilegal de madeiras da Floresta Amazônica. Para arrematar a nossa conversa. Na sua lida diária, os repórteres cometem erros de informação. Faz parte. O importante é admiti-los e corrigi-los. Erro é uma coisa. Sacanagem é outra, um assunto para a polícia. O que não existe é perdão para repórter ingênuo.



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