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POLÍCIA PRENDE CHEFE DA MILÍCIA DA GARDÊNIA AZUL, SUSPEITO DE TER ORDENADO ASSASSINATO DE MARIELLE


Almir Rogério Gomes da Silva, chefe da milícia da Gardênia Azul e do Morro do Tirol, foi preso nesta quarta-feira (28/7) pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco) da Paraíba, a pedido do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). A prisão ocorreu após o depoimento da viúva do miliciano Adriano da Nóbrega, Julia Mello Lotufo, que acusou o grupo miliciano de ser o mandante do assassinato da ex-vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, executados a tiros em março de 2018, no Rio de Janeiro. As organizações criminosas que comandavam o tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro durante décadas foram sendo ocupadas pelas milícias.


Segundo o delegado Diego Beltrão, que coordenou a operação, parte do grupo já havia sido preso no Rio, mas o chefe da milícia tinha conseguido fugir. A viúva do poderoso miliciano conhecido como Capitão Adriano, morto pela polícia na Bahia em fevereiro do ano passado, deu os nomes dos mandantes do assassinato da vereadora carioca e do seu motorista Anderson Gomes. As informações foram passadas a membros do Ministério Público do Rio de Janeiro no âmbito de seu acordo de delação premiada, assinado com promotores de justiça estaduais. Em regime de prisão domiciliar e usando tornozeleira eletrônica, Júlia isentou seu falecido marido de participação no caso que ganhou repercussão mundial.


De acordo com as declarações da viúva de Adriano aos promotores, a milícia que controla a comunidade Gardênia Azul teria procurado o seu marido para contar sobre os planos de execução de Marielle, que seria motivada pela atuação da vereadora não só em sua área de domínio, mas também na região de Rio das Pedras, atrapalhando os negócios do crime organizado.


Capitão Adriano teria rechaçado a ideia, segundo Júlia, não por empatia, mas porque acreditava que assassiná-la seria uma ideia absurda e arriscada, em decorrência da vítima ser uma parlamentar conhecida no Estado. Uma ação desse tipo poderia prejudicar ainda mais o faturamento da quadrilha. Os milicianos da Gardênia Azul teriam, então, cometido o crime sem a anuência do chefe, que logo após a morte foi tomar satisfação com os executores, uma vez que seu nome começou a aparecer entre os dos possíveis mandantes do assassinato. A milícia Gardênia Azul seria comandada pelo ex-vereador do Rio de Janeiro Cristiano Girão, que perdeu o mandato parlamentar na Câmara Municipal carioca, em 2010, após ser condenado a 14 anos de prisão, por liderar a temida quadrilha.

A PRISÃO

Almir, que estava sendo monitorado pelos agentes fluminenses e paraibanos, foi localizado no município de Queimadas e foi preso junto com um de seus cúmplices. O miliciano foi denunciado pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, juntamente com outros três acusados pela execução de Eliezio Victor do Santos Lima, em outubro de 2018. Os presos serão enviados para o Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (29/7). Almir também é suspeito de integrar uma milícia no bairro do Tirol, na área de Jacarepaguá. O delegado Dego Beltrão, da Draco, da Paraíba, afirmou que Almir teria cometido um outro homicídio, em junho deste ano, e talvez por isso tenha saído do Rio de Janeiro. Beltrão informou que Almir vai passar por uma audiência de custódia, ainda na quinta-feira.


GARDÊNIA AZUL Gardênia Azul é um bairro da zona oeste do município do Rio de Janeiro, localizado na Baixada de Jacarepaguá. Nele está localizada a casa-grande da Fazenda do Engenho D'água, fundada na época do Brasil Colônia e tombada pelo IPHAN, além do trecho inicia da Linha Amarela. Faz limite com Jacarepaguá, Anil, Freguesia e Cidade de Deus. Assim como acontece na guerra entre os líderes das organizações criminosas ligadas ao tráfico, nas milícias as disputas pelo poder são constantes.


UNIÃO DA MILÍCIA E DO TRÁFICO

No início de 2021, após um acordo com milicianos que atuam no Quitungo, em Brás de Pina, o conjunto de favelas na Zona Norte passou a englobar uma comunidade dominada por paramilitares. Policiais que atuam no Rio de janeiro afirmam que o chamado "Complexo de Israel", que abrange as comunidades Vigário Geral, Parada de Lucas, Cidade Alta e Quitungo, passou a ser comandado pelo tráfico e pela milícia, em um sistema de sociedade. A região foi batizada por criminosos que se dizem evangélicos e proíbem a prática de religiões afro-brasileiras nas comunidades.


CRIMES E EXPLORAÇÃO

No final de janeiro deste ano, 15 pessoas foram presas em uma ação contra milicianos na Gardênia Azul, na Zona Oeste, e no chamado "Complexo de Israel". O objetivo da ação, além de prender os criminosos, era interromper o funcionamento de comércios e serviços ilegais que geram lucro para as quadrilhas. Entre os crimes investigados, estão cobranças irregulares de taxas de segurança e de moradia; instalações de centrais clandestinas de TV a cabo e de internet; armazenamento e comércio irregular de botijões de gás e água; parcelamento irregular de solo urbano; exploração e construções irregulares e outros crimes ambientais; comercialização de produtos falsificados; contrabando; descaminho; transporte alternativo irregular; estabelecimentos comerciais explorados pela milícia e utilizados para lavagem de dinheiro, entre outras ilegalidades.


LUCRO

A milícia, liderada por Wellington da Silva Braga, o Ecko, começou a agir na Gardênia Azul em janeiro deste ano. Os soldados do paramilitar mais procurado do Rio invadiram a comunidade, após uma briga com o antigo comparsa Danilo Dias Lima, o Tandera. Em junho deste ano, o jornal O Dia divulgou o mapa elaborado pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) com as a áreas de atuação da milícia, que detém mais de 60 pontos de exploração e cobranças ilegais de taxas de segurança e permissão de funcionamento. Os policiais estimam que a milícia lucra cerca de R$ 1 milhão por mês na Gardênia Azul. De acordo com agentes da Draco, mais de 40 milicianos armados circulam pela comunidade constantemente, sempre vestidos com roupas escuras, colete a prova de balas, touca ninja e portando fuzis. A milícia monitora toda a movimentação na Gardênia. Os valores cobrados pelos paramilitares varia de acordo com o tamanho do comércio. Enquanto algumas vítimas pagam R$ 50 mensalmente, outras chegam a pagar R$ 140, conforme documentos apreendidos pelos policiais contendo uma série de informações relacionadas à contabilidade da organização criminosa. Além da cobrança da taxa de segurança, os milicianos também monopolizaram a venda de cestas básicas, de gás e do "gatonet".

LIAGAÇÕES PERIGOSAS

Em setembro de 2020, a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) cumpriram mandados de busca e apreensão contra suspeitos de envolvimento com a milícia que controla a comunidade de Gardênia Azul, na zona oeste da cidade do Rio. Naquela ação, a Polícia buscava informações para tentar solucionar os assassinatos do ex-policial militar André Henrique da Silva Souza e da companheira dele Juliana Sales de Oliveira, em 2014. Os assassinatos foram motivados por uma disputa territorial entre milicianos.


RONNIE LESSA

Um dos investigados pelo duplo homicídio, segundo a Polícia Civil, é o policial militar reformado Ronnie Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco e o motorista dela, Anderson Gomes. Na ocasião, o MPRJ não divulgou mais detalhes devido ao sigilo das informações. PESQUISA De acordo com pesquisa publicada em outubro de 2020, dos 163 bairros da capital fluminense, 41 deles estão sob o domínio de grupos paramilitares. Até o ano passado, as milícias tinham sob seu poder 58,6% da superfície territorial da cidade. Atualmente, quase 2,5 milhões de cariocas vivem sob os olhos dos milicianos. Das 148 comunidades no Rio, 96 delas estão divididas entre o tráfico de drogas e a milícia. Outras 52 estão sob disputa. A pesquisa foi realizada em parceria entre o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF), o datalab Fogo Cruzado; o Núcleo de Estudos da Violência da USP; a plataforma digital Pista News e o Disque-Denúncia.

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