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PL do estupro une tias católicas e neopentecostais, por Moisés Mendes*


A definição do projeto de criminalização do aborto como PL do estupro pode ter produzido a maior lacração das esquerdas desde a ascensão do bolsonarismo. O carimbo PL do estupro tem síntese, tem alcance e efetividade para abalar as trincheiras adversárias.


Sim, mas e daí? É provável que daí não resulte muita coisa, além da perspectiva de derrota do fascismo nessa questão específica. Se é que haverá derrota.


Logo depois do fracasso da tentativa de abertura das praias aos farofeiros milionários de Neymar e de Flavio Bolsonaro, é possível que uma coisa não se some à outra para potencializar os danos na extrema direita.


Conter o projeto de ocupação das áreas de marinha e embaralhar o PL do estupro são vitórias importantes. Mas podem ser pontuais, com efeitos restritos aos dois casos.


Se o projeto de lei do estupro for contido, mas não resultar em nada mais além disso, podemos nos preparar para a próxima tentativa das mesmas facções de emplacar alguma coisa no Congresso, no contexto de um ano de eleição.


O próximo movimento pode, entre tantos, ser o avanço do projeto que tenta revogar a união homoafetiva, que anularia a decisão do Supremo, de 2021. A união civil entre quaisquer pessoas, e não só entre quem se define como homem e mulher, é alvo de projeto que já tramita na Câmara.


São pautas que se somam à guerra à maconha, para que a caçada a consumidores de drogas amplie o encarceramento de negros e podres. E essas agendas não são, como muitos ainda pensam, coisa de evangélicos.


O PL do estupro, a revogação da união homoafetiva e a criminalização de consumidores de qualquer quantidade de maconha são também parte da luta de vastos contingentes de católicos.


São eles, os que são ou se dizem fiéis da igreja de Francisco, muitos dos tios e tias do zap encarregados de ressuscitar o bolsonarismo, depois da derrota na eleição e no golpe de 8 de janeiro.


Tios e tias militantes católicos da velha direita absorvida pela extrema direita são de uma geração pré-Malafaia. São dissidentes da igreja engajada às causas sociais. Ressentidos da classe média assustada com a ascensão dos pobres nos governos de Lula e Dilma.


É preciso considerar, mesmo que com algum sofrimento, que a provável derrota imposta aos defensores do PL do estupro pode vir a ser um fato de curto alcance e apenas isso. Sem o poder de provocar outros abalos.


Mesmo que pela primeira vez as esquerdas tenham vencido com certa folga o enfrentamento na internet, talvez não tenha sido nada mais além disso. É muito no mundo virtual, mas também é pouco no mundo real.


Se o PL do estupro for engavetado, é provável que nada se altere entre os defensores meio vacilantes da ideia de que estupradores devem ser tratados com certa condescendência, em nome do Deus que orienta o fundamentalismo religioso.


Um fundamentalismo de evangélicos e de católicos, sem distinções relevantes, como ficou claro na pesquisa sobre o perfil do público na aglomeração de 25 de fevereiro na Paulista.


Segundo o Monitor do Debate Político no Meio Digital da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), da USP, dos que foram ouvir Silas Malafaia, 43% se declararam católicos, 29% disseram ser evangélicos, 10% eram espíritas/kardecistas e 7% de outras religiões.


Sabe-se que o PL do estupro tem sustentação parlamentar na representação neopentecostal no Congresso, mas sua base social de lastro religioso é muito mais ampla. Mesmo que sondagens de institutos nas redes sociais revelem uma presumida rejeição da maioria da população ao projeto.


Os sentimentos do ultraconservadorismo estão muito além do que revela o ativismo das redes sociais, até porque dessa vez as vozes do bolsonarismo perceberam que ficou complicado explicitar na internet posições pró-estupro.


Muitos defenderam o PL do PL nas sombras, mas sem muito alarde, porque a batalha estava sendo perdida. O gesto de Cássia Kis, que gravou um vídeo divulgado pelo Centro Dom Bosco em favor do PL do estupro, no mesmo dia em que a CNBB fazia o mesmo, expressa a posição de milhões de tias católicas.


Cássia Kis é fundamentalista católica, e o Dom Bosco é um núcleo ultraconservador dessa gente. Mas não se enganem. Não é preciso ter o ativismo da atriz, nem vínculos com a entidade que divulgou o vídeo, para pensar o que ela pensa.


Cássia Kis é uma tia que dá a cara a bater na internet há muito tempo. Outras tias silenciosas, com seus véus de santinhas paroquiais, estão agindo analogicamente nos cantinhos das igrejas do interior. Muitas são fãs de Michelle.


O PL do estupro, a anistia aos manés de 8 de janeiro e o fim da união homoafetiva são defendidos por uma romaria invisível de tias rezadeiras de Aparecida.



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