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PEDIDO DE PERDÃO

por Nora Prado (*)

Eu te peço perdão pelos meus antepassados portugueses que arrancaram teus ascendentes da África à força, separando famílias inteiras e os embarcando nos navios negreiros inferno flutuante, escravizados como bichos.


Eu te peço perdão pelas humilhações no Porto do Valongo onde os negros eram comercializados por senhores de engenho interessados nos mais fortes, obedientes e com dentes cintilantes.


Perdão pelas emboscadas e armadilhas te sujeitando à uma vida miserável desde os engenhos de cana de açúcar até o trabalho nas fazendas de café. Eu te peço perdão por quase quatro séculos de escravidão e uma abolição fajuta sem qualquer comprometimento real para com todos os escravos libertados.


Perdão por todas as nossas ofensas, xingamentos e brutalidades sem sentido e a toda hora, sem trégua. Pela nossa ignorância e arrogância nossa estupidez e malignidade sistêmica como uma praga medonha.


Te peço perdão por nossa insensibilidade insensatez e hedionda crueldade a te oprimir diariamente, ao te lembrar que nós inventamos o quarto de empregada minúsculo e sombrio, o elevador de serviço e as luvas brancas para te isolar de qualquer possibilidade de aceitação.


Perdão por nossa miséria travestida de bons modos, nossa truculência mascarada de finesse e nossa antipatia encobrindo a nossa ignóbil selvageria.



Eu te peço perdão por te atormentares noite e dia num pesadelo infinito tão horrendo quanto as chicotadas, castigos e as vilanias, perversamente, naturalizadas.


Perdão por nossos maus tratos e nossa atávica incapacidade de reconhecer tua beleza e a tua exuberância, teus gestos elegantes, tua fluência rítmica e a tua cor divina, tua suavidade esplendorosa. Te peço perdão por nossa avareza e crueldade infinitas a te perseguir sem trégua no ônibus nas festas, rodas de samba e nos terreiros dentro da tua cultura rica de beleza e poesia. Por te negar os prazeres do abraço e da justiça do reconhecimento da tua força e tua inteligência.


Me ajoelho diante da tua sabedoria milenar teus ascendentes e descentes de tua matriz africana e humana, tuas entidades e tua raiz profunda de musicalidade e harmoniosa ginga.


Teus filhos de Gandhi, tua voz potente em Gilberto Gil, Milton Nascimento e Clara Nunes. Tua poesia de Cartola, Lupicínio Rodrigues e Djavan. Nas páginas de toda Bahia através de Jorge Amado Caribé, Milton Santos, Antônio Araújo, Djamila Ribeiro e Carolina de Jesus no seu impressionante Quarto de Despejo.


Perdão por todos os nossos crimes e a nossa barbárie contra a tua pele, tua presença, tua origem e os teus belos costumes. Nossa desumanidade é branca e terrivelmente evangélica de nojo, medo e mesquinharia.


Te peço perdão por não te tratarmos a altura da tua real capacidade e integridade, te condenando a uma subvida de miséria, de exploração sem fim e infelicidade. Te agradeço pela tua tenacidade, pela tua luta legítima em nome da justiça, legalidade e igualdade de oportunidades.


Te agradeço pela firmeza e pelo legado cultural inestimável pela língua e pelo sotaque, pelo leite bom com que nutristes os meus irmãos brancos, pelas tuas hábeis mãos que inventaram nossa culinária saborosa de aromas e adubaram a terra brasileira.


Agradeço por nos ensinarem a alegria, nos darem a melodia e o ritmo da umbigada, capoeira, maracatu, lundu, maxixe, chorinho e o samba. Obrigada por enriquecerem a nossa música com o berimbau, afoxé e agogô. Por mesclarem suas entidades majestosas aos nossos santos católicos, criando uma galeria poderosa e original cheia de Axé! Eu te agradeço por terem construído o nosso Brasil com tanta luz e dengo, com pipoca, feijoada e rapadura com disposição para a música e a dança, para o drible perfeito no centro do campo pelas pernas tortas de Garrincha.


Na potência gestual de Ismael Neri, na obra magistral de Machado de Assis na poesia de Heitor dos Prazeres, nas imagens de Mário Cravo nas telas de Arthur Timóteo, Firmino Monteiro, Wilson Tibério e Maria Lídia Magliani.

Viva Dandara e Zumbi dos Palmares, Xica da Silva e Clementina de Jesus!

Salve a Verde e Rosa e a Velha Guarda da Portela, viva todos os instrumentistas,

ritmistas, baianas, mestres salas e porta bandeiras! Viva Xangô e Yemanjá, Ogum e Iansã, Oxum e Oxóssi, viva Exu e todos os Orixás! Viva a brava gente negra e todos os afrodescendentes!


Salve o sangue africano derramado injustamente no passado e pelas balas perdidas pela nossa milícia e polícia violentas. Salve a memória de Marielle, Ágata, Claudia, Amarildo e milhões de inocentes sacrificados, pela cor da pele e seu cabelo.


Viva a África, mãe primeira, ventre amado e vigoroso que de suas entranhas pariu seus filhos poderosos bravos guerreiros, mulheres e mães amorosas cujo canto ancestral eu louvo e celebro e para quem eu conto suas façanhas de resistirem à nossa bestialidade.


Que estas tristes páginas da nossa história sejam somente adubo para uma nova etapa de convivência entre todos nós, com respeito, admiração e fraternidade para que juntos findemos o racismo e o preconceito enaltecendo a diversidade e a comunhão entre irmãos.


Porto Alegre, 3 de junho de 2021.


* Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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