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Os rastros que a família consegue evitar ou apagar, por Moisés Mendes*

Flávio, Carlos, Jair, Eduardo e Jair Renan Bolsonaro (Foto: Reprodução/X/@BolsonaroSP)


Bolsonaro teme que o filho Carlos seja preso por envolvimento com a produção e propagação de fake news. Não, essa não é uma manchete de agora. Não tem relação alguma com a operação de busca e apreensão da Polícia Federal no Rio e em Angra.


Essa manchete é de abril de 2022. Saiu na Veja, no Correio Braziliense e em outros jornais. Essa outra a seguir saiu no Valor Econômico e no UOL logo depois, em agosto de 2022: Bolsonaro teme prisão do filho Carlos por fake news.


Manchetes intermitentes anunciam há muito tempo que Carluxo pode ser preso por disseminação de mentiras. A notícia diz sempre que a prisão pode ser a qualquer momento.


Carluxo continua solto, mas finalmente foi alcançado por uma operação de busca e apreensão. Não por causa de disseminação de fake news, mas pela suspeita de encomenda e receptação de informações obtidas de forma criminosa por arapongas da Abin.


Desde as primeiras notícias de que poderia ser preso, até sofrer busca e apreensão nessa segunda-feira, Carlos Bolsonaro teve mais de 600 dias para se preparar para o cerco da Polícia Federal.


Alguém que se considera investigável deixa rastros em celulares e computadores? Continua usando os mesmos aparelhos? Corre os mesmos riscos?


Anderson Torres e Mauro Cid deixaram vestígios e provas, como se nunca viessem a ser pedalados pela PF. E não são amadores. Um é delegado federal e o outro é coronel do Exército.


Alexandre Ramagem, também delegado e homem da área da inteligência, teve seis celulares e dois computadores apreendidos, e um celular e um notebook pertencem à Abin. É impossível que Ramagem achasse que nunca seria investigado.


Se Anderson e Cid deixaram rastros, Ramagem também teria sido consumido pela soberba e oferecido provas aos colegas da PF? Ou apenas deixou seis celulares sem serventia para os investigadores?


E estamos agora diante da possibilidade de obtenção de provas da participação de Carluxo no esquema da Abin de Ramagem. Mas será mesmo?


A PF apreendeu um celular de Carluxo na casa em Angra. Um celular deixado sobre a mesa, ao lado de restos de pão com leite condensado?


Carluxo sai para pescar com o pai e os irmãos, por acaso no dia da batida da PF, no dia seguinte à realização de uma live com afrontas ao Supremo, ali naquela casa de Angra, e deixa um celular largado em algum lugar?


Giancarlo Gomes Rodrigues, oficial do Exército e ex-assessor de Ramagem, que também sofreu busca e apreensão da PF na segunda-feira, tinha 10 celulares e mais um computador da Abin em casa, na Bahia.


Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro, foi flagrado com quatro celulares em um restaurante de Brasília no ano passado. Logo depois, correu a informação de que ele debochava dos agentes da PF que levaram os aparelhos. Aqueles seriam os seus celulares menos importantes. Ele teria outros em lugar seguro.


O leigo pergunta, numa hora dessas, se a PF consegue sempre recolher boas provas nas operações de busca e apreensão e se, no caso dos celulares, conseguirá acessar conteúdos.


Fabio Wajngarten, advogado de Bolsonaro, assegurou nas redes sociais: “Não foi encontrado nenhum computador de quem quer que seja na residência ou no gabinete do vereador Carlos Bolsonaro”.


É como se, para Wajngarten, a simples existência de um computador já pudesse incriminar alguém. E como se fosse possível que uma figura pública do mais poderoso clã da extrema direita não tenha computador em casa ou no local de trabalho.


Não importa se um computador pessoal ou da Abin, mesmo que a notícia sobre o notebook da agência, que a PF teria encontrado em Angra, já tenha sido desmentida, porque era incorreta.


O que todos sabemos, e esse é o problema, é que os Bolsonaros não deixam rastros como outros deixaram, principalmente Anderson Torres, Mauro Cid e Silvinei Vasques. A digital inquestionável foi a que determinou a condenação de Bolsonaro pelo TSE, mas os delitos eram da área eleitoral.


A informação mais quente sobre indícios contra Carluxo até aqui é a de que uma assessora dele pediu informações a uma assessora de Ramagem, em outubro de 2022, sobre inquéritos na PF envolvendo a família.


Uma assessora pede informações a outra assessora. Mas o que há de rastro deixado por Carluxo? Por que não há rastros de Bolsonaro e dos filhos, por interação com a rede de facções do fascismo, nos celulares dos outros já devassados pela PF?


Não é pouca dúvida. Não existem nos celulares registros de interferência direta de Bolsonaro na fraude das vacinas e nos negócios com as muambas das arábias. Nem na articulação do golpe. Vão aparecer agora no caso dos arapongas da Abin?


Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.




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