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OS NOVOS GALINHAS VERDES, POR JORGE BRANCO


A emergência do bolsonarismo em 2018 recolocou a extrema direita no centro da luta política Ao longo de todo o século XX, a extrema direita reacionária sempre foi um ator político presente, mesmo que com pouca expressão. Organizados em partidos, como a Ação Integralista Brasileira fundada em 1932, em pequenos círculos de ativistas, em grupos de nazistas e fascistas ou através de intelectuais conservadores e racistas, que buscavam criar uma teoria que fundamentasse o sentido de nação, as ideias de extrema direita sempre influenciaram fortemente a elite cultural e econômica deste país.

Em um ambiente social de uma economia periférica e de uma modernidade atrasada, as ideias da extrema direita “encaixaram” neste país hierarquizado, pobre, de acesso obstruído à educação, ultrarreligioso e conservador. A simpatia aos regimes salazarista, franquista, fascista e nazista sempre foi presente na elite econômica brasileira.

Desde seus “primórdios”, o pensamento da extrema direita estava baseado em premissas antidemocráticas, anti-iluministas e anticomunistas. O lema “Deus, pátria e família”, dos integralistas, muito bem resumia o sentido geral dessa direita sectária e agressiva. Mesmo confusa, fragmentada, cheia de contradições - não à toa receberam o apelido jocoso de galinhas verdes -, suas ideias circularam ocultas e influenciaram as frações dirigentes desde a revolução de 1930 até nossos dias.

Como em vários lugares do mundo, também no Brasil industriais, empresários, militares e líderes conservadores viram na extrema direita um ator entusiasmado e disposto para o combate antissocialista e antitrabalhista. Um aliado disposto a fazer o “trabalho sujo” para garantir o combate às reivindicações sindicais, ao pensamento de esquerda e das organizações populares. A burguesia ascendente de 1937 e 1964, contudo, tratou de conter essa extrema direita organizada quando se tratou de compartilhar o poder. Já em 1938, o nazismo havia sido tornado ilegal. Contudo, essa mesma burguesia não lhe negou espaço para influenciar esses regimes.

A emergência do bolsonarismo em 2018 recolocou a extrema direita no centro da luta política. A qual, a partir de 2013, organizada em grupos de luta cultural e de disputas de versões nas redes sociais, iniciou um processo de valorização das ideias conservadoras. A defesa da ditadura e a liberdade de professar o ódio, o machismo, a homofobia e o anticomunismo circulam em associação com ideias neoliberais como a privatização, a diminuição do Estado, a educação e a saúde privadas e a subordinação de mercado aos Estados Unidos.

Com ela, os fascistas, neofascistas, nazistas e reacionários de toda a espécie, retornaram ao espaço público e passaram a expor seus gestos e símbolos, a propor a revisão da história do nazismo, do holocausto e genocídio da Segunda Guerra Mundial, a defender a supremacia racial, entre tantas ofensas à humanidade. A defesa do direito a organizar um partido nazista feita pelo líder do Movimento Brasil Livre, deputado federal Kim Kataguiri, não surpreende, portanto. Com uma retórica libertarianista de defesa da liberdade individual, esta fração da extrema direita questiona a ideia de igualdade, de Estado social e de sistemas públicos de proteção, para fazer uma defesa do Estado mínimo e da liberdade como uma ideia específica e operacional de liberdade de concorrer, de guerrear e destruir.

A ideia de liberdade como um contraposto à democracia e descolada da ideia de igualdade e de reparação de injustiças, é a ponte entre neoliberais e os novos fascistas. Está no mesmo campo da defesa dos movimentos antivacinas e da posse de armas. A defesa da liberdade de ofensa social transforma a retórica libertarianista em face “gourmet” do autoritarismo, do anti-igualitarismo e do reacionarismo.

Assim como na Alemanha de 1930 ou no leste europeu de 1990, no Brasil de 2018 os filhotes eclodidos estão a chamar a serpente que lhes deu a vida.


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